
Por volta de 700 a.C., Homero e Hesíodo registraram por escrito boa parte do tesouro da mitologia grega. Isto levou a uma situação completamente nova. É que, a partir do momento em que os mitos foram colocados no papel, já se podia discutir sobre eles.
Os primeiros filósofos gregos criticaram a mitologia descrita por Homero, porque para eles os deuses ali representados tinham muitas semelhanças com os homens. De fato, eles eram exatamente tão egoístas e traiçoeiros como qualquer um de nós. Pela primeira vez na história da humanidade foi dito claramente que os mitos talvez não passassem de frutos da imaginação do homem.
Um exemplo dessa crítica aos mitos pode ser encontrado no filósofo Xenófanes, nascido por volta de 570 a.C. Para ele, as pessoas tinham criado os deuses à sua própria imagem e semelhança: “Os mortais acreditam que os deuses nascem, falam e se vestem de forma semelhante à sua própria... Os etíopes imaginam seus deuses pretos e de nariz achatado; os tracianos, ao contrário, os vêem ruivos e de olhos azuis... Se as vacas, cavalos ou leões tivessem mãos e com elas pudessem pintar e produzir obras como os homens, eles criariam e representariam suas divindades à sua imagem e semelhança: os deuses dos cavalos teriam feições eqüinas, os das vacas se pareceriam com elas, e assim por diante”.
Os primeiros filósofos gregos são freqüentemente chamados de “filósofos da natureza”, porque se interessavam sobretudo pela Natureza e pelos processos naturais. A maior parte de tudo o que tais filósofos disseram e escreveram ficou perdida. E a maior parte do pouco que sabemos está nos escritos de Aristóteles, que viveu 200 anos depois dos primeiros filósofos.
O primeiro filósofo de que temos notícia é Tales, da colônia grega de Mileto, na Ásia Menor.
De descendência fenícia, nasceu em Mileto, colônia cretense no Mediterrâneo, Ásia Menor (atual Turquia), por volta de 625 a.C. e faleceu aproximadamente em 547 a.C. - segundo o historiador grego Diógenes Laércio, morreu com 78 anos durante a 58ª Olimpíada.
Thales, chamado Tales de Mileto, é o primeiro filósofo ocidental de que se tem notícia; ele é o marco inicial da filosofia ocidental. Aristóteles refere-se a ele como "o fundador" da Filosofia, porque concebeu como princípios das coisas aqueles que procedem "da natureza da matéria". Tales é apontado como um dos sete sábios da Grécia Antiga. Foi o fundador da Escola Jônica, escola de pensamento dedicada à investigação da origem do Universo e de outras questões filosóficas, entre elas a natureza e a validade das propriedades matemáticas dos números e das figuras. Considerado, também, o primeiro filósofo da "physis" (natureza), porque outros, depois dele, seguiram seu caminho buscando o princípio natural das coisas.
Em sua obra – Metafísica -, Aristóteles nos conta: “Tales diz que o princípio de todas as coisas é a água”, Não sabemos o que exatamente ele queria dizer com isto, sendo talvez levado a formar essa opinião inspirando-se em concepções egípcias, e por ter observado que o alimento de todas as coisas é úmido e que o próprio calor é gerado e alimentado pela umidade. Ora, aquilo de que se originam todas as coisas é o princípio delas. Daí lhe veio essa opinião, e também a de que as sementes de todas as coisas são naturalmente úmidas e de ter origem na água a natureza das coisas úmidas. Quando esteve no Egito, certamente ele pôde observar como os campos inundados ficavam fecundos depois que as águas do Nilo retornavam ao seu delta. É possível que ele tenha observado também que, depois da chuva, apareciam rãs e minhocas. Além disso, é muito provável que Tales tenha se perguntado como a água podia se transformar em gelo e vapor, para depois voltar a ser água. Para ele, somente a água permanece basicamente a mesma, em todas as transformações dos corpos, apesar de assumir diferentes estados – sólido, líquido ou gasoso.
Acreditava que não só os humanos possuíam alma como também as coisas aparentemente inanimadas. Assim ele explicava a existência das pedras imantadas ou a ocorrência de eletricidade em determinados organismos.
Esse esforço investigativo de Tales no sentido de descobrir uma unidade, que seria a causa de todas as coisas, representa uma mudança de comportamento na atitude do homem perante o cosmos, pois abandona as explicações religiosas até então vigentes e busca, através da razão e da observação, um novo sentido para o Universo. Embora suas conclusões cosmológicas estivessem erradas podemos dizer que a Filosofia começou então com Tales, que ao estabelecer a proposição de que a água é o absoluto, provoca como conseqüência o primeiro distanciamento entre o pensamento racional e as percepções sensíveis. O ponto de partida da teoria especulativa de Tales – como também de todos os demais filósofos da escola Jônica – foi a verificação da permanente transformação das coisas umas nas outras e sua intuição básica é de que todas as coisas são uma só coisa fundamental, ou um só princípio (arché).
Pouco sabemos sobre a vida e obra de Tales. Supõe-se que começou sua vida como mercador, tornando-se rico o suficiente para dedicar a parte final de sua vida ao estudo e a realização de algumas viagens. Supõe-se que viveu algum tempo no Egito onde provavelmente aprendeu geometria e na Babilônia onde entrou em contato com tabelas e instrumentos astronômicos. Dos seus escritos nenhum sobreviveu até nossos dias. Suas idéias filosóficas são conhecidas graças aos trabalhos de Diógenes Laércio, Heródoto, Teofrasto, Simplício e principalmente Aristóteles. A publicação de dois trabalhos — "Do regresso do Sol de um trópico ao outro" , e "Do Equinócio" — tornou-o muito célebre entre os círculos dos sábios do seu tempo. O que sabemos é baseado em antigas referências gregas à história da matemática que atribuem à ele um bom número de descobertas matemáticas definidas.
OS TRABALHOS DE TALES
Tales foi o primeiro personagem conhecido a quem se associam descobertas matemáticas. Acredita-se que obteve seus resultados mediante alguns raciocínios lógicos e não apenas por intuição ou experimentação.
Em suas andanças, Tales conheceu as obras de vários matemáticos e astrônomos da região. Dedicou-se à matemática e estabeleceu os primeiros postulados básicos da Geometria. Estudou as retas e os ângulos e fez demonstrações formais rigorosas sobre a geometria do círculo e do triângulo isósceles. Na área da Geometria demonstrou, por exemplo, que todos os ângulos inscritos no meio círculo são retos e que, em todo triângulo, a soma de seus ângulos internos é igual a 1800. Dizem que certa vez, no Egito, ele calculou a altura de uma pirâmide medindo a sombra que ela fazia no exato momento em que a sua própria sombra tinha a mesma medida de sua altura. A ele atribui-se também a demonstração de como medir a distância de um navio que se encontra no mar, por triangulação. Entretanto parece que o teorema que leva o seu nome, relativo a linhas retas paralelas cortadas por uma secante, remonta à geometria egípcia e babilônica.
Entre os principais discípulos de Tales de Mileto, merecem destaque: Anaxímenes que dizia ser o "ar" a substância primária; e Anaximandro, para quem os mundos eram infinitos em sua perpétua inter-relação.
Tales foi o primeiro astrônomo a explicar o eclipse do Sol, ao verificar que a Lua é iluminada por esse astro. Faz parte do seu mito, segundo Heródoto, o fato de ter previsto o eclipse solar de 585 a.C., embora muitos historiadores da ciência duvidem que os meios existentes na época permitissem tal proeza.

Segundo Aristóteles, tal eclipse marca o momento em que começa a Filosofia. Os astrônomos modernos calculam que esse eclipse se apresentou em 28 de Maio do ano mencionado por Heródoto. Atribui-se a Tales também a primeira medida exata do tempo utilizando-se o gnômon (relógio solar) e a construção de parapegmas (calendários astronômicos que continham informações meteorológicas).
Para provar que o conhecimento que desenvolvera tinha utilidade prática direta, usando seu conhecimento astronômico e meteorológico (provavelmente herdado dos babilônios) previu uma excelente colheita de azeitonas com um ano de antecedência, conseguiu dinheiro para alugar todas as prensas de azeite de oliva da região e, quando chegou o verão, os produtores de azeite tiveram que pagar a ele pelo uso das prensas, o que levou-o a ganhar uma grande fortuna com esse negócio, apenas para ter o prazer de fazer calar os que diziam ser a Filosofia uma inutilidade ou um capricho de ociosos.
Plutarco disse que Tales certa vez olhando para o céu, tropeçou e caiu, sendo repreendido por alguém como lunático: analisava o tempo para descobrir que haveria uma seca, o que o fez ganhar muito dinheiro. Platão também conta uma anedota muito difundida na Grécia: ao caminhar olhando para cima, a fim de observar os astros no céu, caiu dentro de um poço. Deriva daí o conceito que os filósofos possuem de serem pessoas distraídas para as coisas práticas da vida e perdidos em pensamentos abstratos.
Quando perguntaram a Tales o que era difícil, ele respondeu: “Conhecer a si próprio”. Quando lhe perguntaram o que era fácil, ele respondeu: “Dar conselhos”.
Um dos aspectos fundamentais da mentalidade científico-filosófica inaugurada por Tales consistia na possibilidade de reformulação e correção das teses propostas. Em meados do século VI a.C., a chefia da escola de Mileto passa a Anaximandro, introdutor na Grécia e aperfeiçoador do relógio do sol (gnomon), de origem babilônica, foi também o primeiro a traçar um mapa geográfico.
TEOREMAS ATRIBUÍDOS A TALES
Os principais teoremas supostamente demonstrados por Tales foram:
T1 : Uma circunferência é bissectada por qualquer um dos seus diâmetros.
T2 : Qualquer ângulo inscrito numa semicircunferência é reto.
T3 : Os ângulos da base de um triângulo isósceles são iguais.
T4: Dois triângulos são semelhantes se tiverem dois ângulos e um lado iguais.
T5: Um feixe de retas paralelas, cortado por duas transversais, intersecta estas em segmentos correspondentes diretamente proporcionais.

T6 : Se cortarmos os lados de um ângulo (ou os seus prolongamentos) por um feixe de paralelas, os triângulos formados terão os lados proporcionais.
T7: Um feixe de planos paralelos cortados por duas transversais, intersecta estas em segmentos correspondentes diretamente proporcionais.