As experiências modernas com hipnose e estados de transe começam com Friedrich Anton Mesmer (1734-1815). Nascido em Izang, Swabia, Alemanha, em 23 de maio de 1734. Estudou Teologia e Filosofia antes de ingressar, em 1759, no curso de Direito para, no ano seguinte, iniciar seus estudos em Medicina. Estudou também Música e abraçou o estudo das ciências proibidas – a Astrologia e a Alquimia, o que contribuiu para a elaboração de sua tese. Entrou na Universidade de Viena, onde – influenciado pelas idéias de Paracelso. Mesmer doutorou-se com uma tese intitulada: Dissertatio physico-medica de planetarum influxu, na qual se propunha demonstrar a influência dos astros e dos planetas, ao mesmo tempo como causas de doenças e como forças curativas.
Contraiu matrimônio em 1767 com Anna von Porsch, uma viúva muito rica e que seria famosa por suas recepções mundanas (situação semelhante que, ao seu tempo, viveu também Jean-Martin Charcot). Sua casa era freqüentada por artistas renomados, como Mozart [foi na casa de Mesmer onde o jovem Mozart representou pela primeira vez, em 1678, sua ópera Bastião e Bastiana]. Com pouca necessidade de dinheiro, Mesmer nunca negou tratamento para o povo mais humilde.
Inspirado nas teorias do jesuíta Maximilien Hell, professor e diretor do observatório da Universidade de Viena, além de um dos astrólogos da Corte de Maria Teresa, Hell começou a intentar curas por meio de ímãs*. Mesmer passou a usar o ímã em seus pacientes no intento de lhes provocar uma “maré artificial”. Sua teoria supunha a existência de uma influência dos planetas sobre o corpo humano, postulando que nossos corpos eram como magnetos com pólos, e os ímãs poderiam harmonizar o fluído magnético em volta de nós; o universo estava cheio de um fluido sutil, intermediário entre o homem e o cosmos, cuja má recepção seria responsável pela enfermidade, e a terapia deveria estar dirigida a canalizá-lo adequadamente para chegar à cura, por meio de crises. Em 1773, pela primeira vez aplicou o tratamento magnético ao atender a Srta. Franzl Oesterline, jovem da alta sociedade vienense que apresentava vômitos, sufocações e episódios de cegueira histérica. Algum tempo depois, observou que a imposição das mãos e passes em todo o corpo dos pacientes obtinham o mesmo resultado. Rapidamente passou deste “magnetismo mineral” a uma teoria geral que chamou de “magnetismo animal”. A partir daí a prática da “imposição das mãos” que passou a ser chamado de “toque terapêutico”. O sensacionalismo da imprensa ao espalhar a notícia de curas espetaculares em pacientes desenganados fez o resto.
(*) Muitos autores, ao longo dos séculos, referiram-se aos poderes extraordinários dos ímãs. Os Magos do Oriente usavam-no para curar moléstias e os chineses e hindus usaram-no com o mesmo propósito. Alberto Magno, no século XIII, Paracelso, Don Helmart e Kercher também o empregaram, assim como o astrônomo e jesuíta Hell, em Viena, no fim do século XVIII. Também o conceituado médico britânico Dr. Reil empregou o ímã terapeuticamente. Riechenbach, em 1845, afirmou que algumas pessoas sensíveis tinham reações peculiares quando em contato com um ímã, relatando inclusive, que muitas diziam ver uma luz diferente.

Em 1774 Mesmer começou a propagar a sua teoria do magnetismo animal que se resume no seguinte (segundo os 27 aforismos por ele publicados em Paris, em 1776): A doença resulta da freqüência irregular dos fluidos astrais e a cura depende da regulagem adequada dos mesmos, com a ajuda de uma pessoa que tenha a habilidade de controlar esses fluidos, que existiria em todas as pessoas, e transmiti-los aos outros, utilizando a imposição das mãos (ou passes) a fim de que as ondas emanem da ponta dos dedos ou guiando a energia com uma varinha de ferro, de forma direta ou indireta (por meio de objetos magnetizados pelo seu contato) ao qual ele chamou de “magnetismo animal”, devido as suas características de fluxo e refluxo, atração e repulsão, semelhante ao magnetismo mineral. Ao entrar em contato com esse “fluido” o indivíduo entraria em “crise” (convulsões) – sem a qual não seria produzida a cura.
Essas “crises” produziam, por vezes, a cura das doenças sem que fosse necessária a prescrição de remédios ao paciente (tais “crises” compreendiam na maioria dos casos convulsões caracterizadas por movimentos violentos e involuntários do corpo todo, constrição da garganta, palpitação e náuseas, os olhos envesgam e piscam constantemente, delírios, isto tudo é precedido ou seguido de um estado de languidez e fantasia, um tipo de abatimento ou sono – Na maioria das vezes o doente debatia-se, agitava-se violentamente, parecia, finalmente, desfalecer e entrar em calma, tendo os seus sintomas aliviados). Ele achava que, provocando as convulsões nos pacientes submetidos ao magnetismo, colocaria os fluidos do corpo em harmonia, banindo o mal [não nos esqueçamos que estamos falando de uma época em que era praxe médica prescrever-se sangrias em pacientes em estado grave de saúde com o auxílio de punhais – quase nunca esterelizados, ou de sanguessugas!]. Mesmer conseguiu curar um grande número de pessoas usando apenas o método que inventara, realizando várias cirurgias e anestesias sobre o sono mesmérico, desenvolvendo-se a partir daí a expressão Mesmerismo.
Os primeiros procedimentos de Mesmer consistiam em colocar a pessoa em um aposento silencioso e debilmente iluminado, sentado de frente para ele, tomava-lhe ambas as mãos, estabelecendo tal contato por alguns minutos, depois direcionava, à distância, a palma de suas mãos ao peito do enfermo e as descia lentamente até o epigástrio, região onde se detia buscando uma imposição mais prolongada e enviar uma forte corrente magnética aos gânglios nervosos do plexo solar.
A princípio, Mesmer produzia as “crises” por meio da imposição das mãos e de passes; posteriormente passou a tocava os pacientes com uma vara de metal “magnetizado” para provocar as convulsões terapêuticas quando ele percebeu que se podia curar os pacientes não somente com a imposição das mãos, mas igualmente provocando a oscilação de um pedaço de magnetita em seu corpo; aqui encontramos a origem do termo magnetizar, ainda usado atualmente.
O trabalho de Mesmer teve grande repercussão no meio científico e acadêmico, embora tenha tido sucessos e fracassos em suas curas.
Não obstante as muitas curas bem sucedidas, a credibilidade de Mesmer estava abalada, e a Congregação Médica convida-o a abandonar suas práticas ou deixar Viena. Nesse mesmo ano (1777) teve que abandonar Viena.
Em dezembro de 1775 qualquer leitor do Journal de Frankfurt poderia ler o seguinte: “... O Dr. Mesmer, famoso pelas curas magnéticas que realiza, chegou aqui a, curso de sua viagem a Viena. É sabido que pode produzir efeitos maravilhosos mediante forças magnéticas...”.
Assim, Mesmer chegou a Paris em princípios de 1778, onde recebeu o apoio do médico do conde de Artois (futuro Carlos X), irmão de Luis XVI. onde sua fama espalhou-se rapidamente, tornando-se modo na aristocracia francesa. Quem quer que se preze, tinha de ser mesmerizado, e o “mesmerismo” assumia proporções mais espetaculares do quem em Viena.
Em sua chegada em Paris ele procura evitar despertar o ciúme da profissão médica, pedindo ao corpo docente médico para testarem os métodos dele. Porém, nem a Academia de Ciências nem a Sociedade Real de Medicina concordaram em dar para os seus métodos uma tentativa.
Estabeleceu-se no Place Vendôme e fez da sala principal de sua casa seu novo consultório, capaz de receber 130 pacientes por sessão. Chegou a atender a rainha Maria Antonieta, o legislador Montesquieu, os iluministas La Fayette e Benjamin Franklin, entre outros. O número de clientes chegou a extremos; foi tanta gente que queria consultá-lo que decidiu utilizar um sistema que permitiria atender a várias pessoas de uma só vez. Mesmer criou a chamada cuba mesmérica ou Braquet, que era uma tina larga e circular de madeira de carvalho (como uma banheira grande), cheia de limalha de ferro, sobre as quais repousavam garrafas d’água magnetizada. Da caixa, por orifícios, saiam hastes de ferro móveis que os doentes sentados em torno, aplicavam sobre a parte doente. Ao mesmo tempo, um músico situado num anexo próximo tocava músicas tranqüilizadoras no órgão. Por vezes, quem tocava era Wolfgang A. Mozart, seu companheiro de loja maçônica, que o inspirou do poder da música. Quer seja por sugestão ou por outro meio desconhecido, o fato é que as curas se faziam.

O Baquet de Mesmer
Junto às tinas (baquet), havia um outro compartimento, com as paredes forradas em uma sala acolchoada guarnecida de almofadões, para onde eram transportados os pacientes em estado convulsivo. Ali, eles estrebuchavam à vontade, sem o perigo de se machucarem.
Ao som de uma sineta, Mesmer entrava solenemente; desfilava com uma túnica de seda lilás, com uma varinha à mão e, diante de pacientes mais excitados, fitava-lhe firmemente os olhos, enquanto lhe segurava ambas as mãos. Infelizmente, Mesmer tinha uma fraqueza pelas exibições teatrais, e suas sessões de magnetismo tornaram-se espetáculos de um fanatismo delirante.
Em torno do baquet cabiam 130 pessoas. Esse número renovava-se algumas vezes por dia. Compreende-se que sua casa tornara-se ponto de romaria constante. Mesmer teve de alugar um palácio e construir outros baquets. Para aqueles que não podiam pagar pela sua consulta, magnetizou algumas árvores num passeio público. Era um delírio e isso escandalizou a comunidade científica de sua época. Os médicos daquela época achavam que Mesmer estava fazendo concorrência desleal. Seu trabalho foi foco de muita atenção pelo meio científico.
Publicou “Memória sobre a descoberta do Magnetismo Animal”, onde expunha seu método. Começou a surgir o movimento mesmerista.
Com a ajuda de Luis XVI e Maria Antonieta, Mesmer instalou o Instituto Magnético e em 1783 fundou, com o jurista Bergasse e o economista Kornmann, a Sociedade da Harmonia. Assim, pode reunir 340.000 libras em um ano, chegando a receber uma pensão anual do Rei. Tanto êxito gerou suspeita e inveja... os inimigos de Mesmer pressionaram e persuadiram o rei Luis XVI, que, pessoalmente, fugia a qualquer responsabilidade, e este acabou interessando-se pela questão, em 1784 designou duas comissões para investigar o tratamento de Mesmer, compostas, aliás, das maiores sumidades da época, que reuniram os membros da Sociedade Real de Medicina (como maior ciência oficial da época), da Faculdade de Medicina e da Academia de Ciências, para levar a cabo uma investigação sobre o tal fluido. Foi o primeiro exemplo de uma comissão de sábios de disciplinas diversas encarregada pelo poder público de decidir sobre uma questão de ordem médica. Como membros desse memorável júri, figuravam: Antoine-Laurent Lavoisier (o criador da Química Moderna); Benjamin Franklin (o inventor do pára-raios, na ocasião embaixador americano em Paris); Bailly (astrônomo de renome); Antoine-Laurent de Jussieu (notável botânico) e um certo doutor Joseph-Ignace Guillotin, que inventaria mais tarde uma máquina que veio a ser usada nele mesmo e nos seus ex-colegas de comissão, os doutores Bailly e Lavoisier e no próprio Luiz XVI: a guilhotina. Uma petição dirigida por Mesmer, em data anterior, à Academia Francesa, no sentido de investigar-lhe o fenômeno, fora indeferido. Indignado com o indeferimento, Mesmer recusa a se submeter à prova dos citados cientistas. Estes se limitaram a presenciar as demonstrações realizadas por discípulos e assessores de Mesmer.
Os componentes da comissão, após assistirem às demonstrações, constataram fenômenos extraordinários; pelo fato, porém, de não terem experimentado sensação alguma ao introduzirem as mãos na tina de água magnetizada, e de não haverem caído em transe quando submetidos à experiências, concluíram pela inexistência do “fluido magnético”. A Comissão Julgadora trabalhou realizando experimentos com diferentes materiais, concluindo a inexistência do magnetismo humano e afirmando que os resultados obtidos eram somente conseqüência da imaginação. Benjamin Frankilin “imantou uma vela” (que foi substituída por outra não imantada) e deu-a para um enfermo, as convulsões se manifestaram, até que Franklin revelou a todos a farsa. As conclusões desta comissão foram completamente negativas: O fluido magnético não existia e os efeitos observados eram “simplesmente fruto da ação da imaginação”. A comissão atribuiu à imaginação as curas magnéticas, porém nunca se preocuparam em perguntar a forma em que a imaginação pôde obter as curas, que foram, posteriormente, atribuídas à histeria coletiva. O relatório, embora declarando, a certa altura que “não há nada mais estranho do que o espetáculo dessas convulsões”, que “quem não viu, não pode sequer imaginá-las”, e que “Mesmer, com sua força magnética, os conserva subjugados” etc. encerra a questão decidindo pela nulidade do magnetismo. Não negavam os fatos, porém arrasavam Mesmer.
Oficialmente desacreditado, foi acusado de charlatanismo e caiu em descrédito no meio científico. Em princípios de 1785 Mesmer abandonou a França, viajou para a Suíça e Alemanha e regressou para a Áustria, de onde foi expulso em 1793 por ser politicamente suspeito, vivendo sobre outro nome na Inglaterra, e voltando depois para a Áustria, onde, quarenta e cinco anos mais tarde, recebeu a notícia de que a Academia de Medicina o convidava a retornar a Paris, depois de apurar a veracidade do hipnotismo. Tão numerosos e tão espetaculares tinham sido as curas realizadas por ele em Paris que um grupo dos partidários do mesmerismo, encabeçados por um advogado de nome Bergasse, fundou o Colégio Magnético ao longo da França. Mesmer foi persuadido a voltar a Paris e assumir a liderança, com D'Eslon, da Sociedade de Harmonia, cuja sede era situada em um hotel comprado por Mesmer, especialmente convertido para o propósito. Era, todavia, demasiado tarde. Mesmer, já velho e cansado de lutar, declinou da honraria e preferiu passar o resto de seus dias, como o cientista probo que sempre fora, porém, simples médico de aldeia, aliviando de seus males os pobres camponeses. Mesmer morreu no dia 5 de março de 1815, e foi enterrado em Meersburg, um monumento foi erguida à memória dele pelos seus admiradores e discípulos em Berlim. Teve, contudo, a satisfação de ver, em vida, as suas idéias propagadas por todos os cantos do mundo. Suas teorias receberam o nome de “Mesmerismo” e subdividiu-se em várias escolas, que atingiram grande esplendor.
Mesmo após sua morte, Mesmer continuou a influir no mundo ocidental, por meio de suas idéias; sua descoberta chamou a atenção de vários pesquisadores e cientistas, e suas teorias e métodos continuaram a ser empregados por seus seguidores e os seus inúmeros discípulos (chamados “mesmeristas’ ou “magnetizadores”) e admiradores continuaram a sua obra. Após a partida de Mesmer de Paris, grupos de entusiastas formavam sociedades “de harmonia” para estudar o fenômeno do mesmerismo.