| Éden, Queda ou Ascensão | ||||||||||
Introdução Nada pode ficar afastado nem separado de Deus ou da Essência do Ser por muito tempo, fora da qual nada existe. E a 'história' - não como uma crônica de feitos individuais ou nacionais, mas como um movimento da consciência humana - é a história do caso de amor dos homens/mulheres com o Divino. Ligando-se e desligando-se, amando e detestando, avançando e recuando. Tradicionalmente, o grande problema para visualizar a história em termos teológicos (divinos), não é a confusão sobre o que a história é, mas a confusão sobre o que Deus pode ser. Se assumirmos que a história tem algum tipo de significado, então devemos também assumir que ela aponta para algo diferente de si mesma, isto é, aponta para algo (um 'outro') diferente de homens/mulheres individuais. Esse grande 'Outro', no sentido mais elevado (que transcende homens/mulheres individuais), foi frequentemente considerado Deus, Espírito ou o Absoluto. Ora, desde que se considere Deus um Outro, 'separado' e completamente além dos seres humanos, a história é vista como a ação de um pacto, de uma aliança ou de um compromisso entre Deus e suas criaturas. Não podemos nos esquecer de que no Ocidente, Deus e a 'história' são profundamente inseparáveis - Jesus é absolutamente fundamental para o cristianismo, não só porque ele é o Filho de Deus, mas porque foi um acontecimento 'histórico', um símbolo da intervenção divina no processo 'histórico', um pacto entre o homem e Deus. Moisés não nos trouxe apenas mandamentos éticos, mas uma aliança entre Deus e seu povo, uma aliança a ser mantida no curso da 'história'. Para o mundo judaico-cristão - isto é, para a mente ocidental - a história é o desdobramento de um pacto entre Deus e o homem, um movimento para, em última instância, unir o homem a Deus. Não importa quão pitoresca seja essa visão da história para a mente científica e empírica, é uma visão que tem forte peso na "obscuridade da nossa psique ocidental" - nenhum de nós, creio eu, escapa de sua influência. Houve uma época em que víamos a história como um movimento do paganismo até Jesus Cristo, culminando no Dia do Juízo Final, aquele distante acontecimento divino em direção ao qual toda a criação se move. Hoje, temos a história como um processo de evolução científica, deslocando-se da ameba para o réptil, para o macaco, até o homem. Essas duas visões não são muito diferentes. Ambas veem um movimento do mais baixo para o mais alto, do pior para o melhor; acredita-se em ambas religiosamente; ambas prometem um amanhã que é melhor (ou mais 'evoluído') que hoje; ambas veem um movimento hierárquico do pecado (menos evoluído) para a salvação (mais evoluído). Embora o conteúdo seja certamente bem diferente, a forma é basicamente idêntica. E a forma é 'histórica'. "A biologia, diz Carl Sagan (astrônomo norte-americano, 1934-1996), é mais parecida com a história do que com a física." Indo mais diretamente ao ponto, um aspecto que os cientistas raramente parecem captar é: existe a demonstração de Whitehead (filósofo e matemático britânico, 1861-1947), de que as leis científicas são "uma derivação inconsciente da teologia medieval". Em essência, ambas as visões veem a história não meramente como uma ida, mas como uma ida para algum lugar. Entretanto, a visão científica - a 'história' como mera evolução - apresenta um grande defeito, ou uma limitação: não consegue explicar, ou pelo menos sugerir, o significado dessa ida para algum lugar. Por que a evolução? Qual é o propósito da história? Qual o significado dessa ida para algum lugar? Não existe nenhum significado científico para a palavra 'significado'; não existe nenhum teste empírico para 'valor'. Desse modo, os positivistas, que são cientistas disfarçados de filósofos, não nos permitem sequer fazer essas perguntas - pra começo de conversa, já que elas não podem ser respondidas cientificamente, não devem ser feitas. A resposta para "Qual é o significado da história?" é "Não pergunte". E embora existam coisas imensamente boas a ser ditas sobre o positivismo, esse tipo de mera analise linguística não é suficientemente forte para curar a alma de seu maravilhamento. A ciência não pode se pronunciar sobre o 'significado' ou o 'propósito' de nenhum fenômeno que encontre. Essa não é sua função; ela não está instrumentalizada para cumpri-la, e nós, certamente, não devemos criticá-la por isso, como fazem tantos românticos. A tragédia é que a ciência se transforma em cientificismo ao afirmar: "Uma vez que a ciência não pode medir o significado, ele não existe". Não há, porém, nenhuma prova científica de que somente a prova científica seja real. Desse modo, não precisamos abandonar prematuramente tais importantes preocupações, como o 'significado', simplesmente porque um microscópio não as detecta. Um médico pode descrever os complicados processos bioquímicos que constituem seu corpo; pode, até certo ponto, corrigi-los, curá-los de doenças e operá-los para remover defeitos. Mas não pode explicar-lhe o significado de cada mecanismo que conhece. Entretanto, duvido que ele concluísse: "Sua vida não tem significado". Apenas, como cientista, ele não pode se pronunciar sobre o significado da vida, o significado cultural, o significado da história. Portanto, se perguntarmos: "Qual é o significado da história?", somos remetidos de volta à unica resposta importante apresentada: a história (teológica) é o desdobramento de um 'pacto' entre a humanidade e Deus. Ainda que se discorde dessa visão, geralmente concorda-se que ela pode explicar o porquê, o de onde e o significado dessa ida para algum lugar que chamamos história - seu movimento é divino, e seu significado, transcendente. A teologia pode trabalhar eficazmente com o significado da história porque se dispõe a postular (ou, como preferem os teólogos, conhecer por revelação) um sublime Outro - já que Deus é diferente de homens/mulheres e história. Deus pode conferir significado para a história - algo que a história nunca poderia fazer por si mesma. Fazendo uma analogia simples, quando alguém pergunta: "Qual é o significado da palavra árvore'?", a forma mais fácil de responder é simplesmente apontar para uma árvore real. A árvore propriamente dita não tem nenhum significado, mas a palavra "árvore" tem, simplesmente porque ela aponta para algo diferente de si mesma. Se não existisse nenhuma árvore real, a palavra "árvore" não teria nenhum significado, porque não poderia apontar para nada diferente de si própria. Assim sendo, história sem um 'Outro' é história sem significado. O Problema: Deus como um 'Outro' Ontológico Infelizmente, a concepção ocidental ortodoxa de Deus não é simplesmente a de um Outro psicológico (separado de nós por inconsciência), ou um Outro temporal (separado de nós pelo tempo), ou um Outro epistemológico (separado de nós por ignorância Não é Um Outro psicológico, separado de nós por inconsciência. Não é Um Outro temporal, separado de nós pelo tempo. Não é Um Outro epistemológico, separado de nós por ignorância. Ao contrário, Jeová - Deus de Abraão e Pai de Jesus - é um Outro 'ontológico', separado de nós por 'natureza', para sempre. Nessa visão, não existe apenas uma linha temporária/psicológica entre o homem e Deus, mas uma fronteira e uma barreira inabaláveis. Deus e o homem estão para sempre separados - eles não são, como no hinduísmo e no budismo, em última instância, um e idênticos. Assim, o único contato entre Deus e o homem é por correio aéreo: por aliança, por pacto, por promessa. Deus promete cuidar do povo escolhido, e este, por sua vez, promete não adorar outros deuses senão Ele. Deus promete enviar seu Filho primogênito para seu povo, que promete seguir sua Palavra. O contato de Deus é por contrato. Através desse abismo colossal, Deus e o homem comunicam-se por boatos, não por união absoluta (samadhi/iluminação). Desse modo, a história foi vista como o desdobramento desse contrato, dessa aliança, através do tempo. Filosofia Perene Mas existe uma visão muito mais sofisticada da 'relação' da humanidade com a Divindade, uma visão considerada pela grande maioria dos verdadeiramente talentosos teólogos, filósofos, sábios e até mesmo cientistas de diversas épocas. Conhecida em geral como 'filosofia perene' (um nome cunhado por Leibniz), ela forma o núcleo esotérico do hinduísmo, budismo, taoísmo, sufismo e misticismo cristão, sendo também abraçada, em todo ou em parte, por intelectos individuais que vão desde Spinoza a Albert Einstein, de Schopenhauer a Jung, de William James a Platão. Além disso, em sua forma mais pura, ela não é absolutamente 'anticiência', mas, de modo especial, é transciência ou até mesmo anteciência, de forma que pode coexistir prazerosamente com os dados duros das ciências puras, e certamente complementá-los. Daí por que, acredito, tantos cientistas realmente brilhantes sempre flertaram com a filosofia perene ou até a abraçaram totalmente, como testemunham Einstein (1), Schrodinger (2), Eddington (3), David Bohm (4), Sir James Jeans (5), até mesmo Isaac Newton (6). Como Albert Einstein afirma: "A emoção mais bela que podemos experienciar é a mística. É a semeadora de toda arte e ciência verdadeiras. Aquele a quem essa emoção é estranha [...] está praticamente morto. Saber que o que nos é impenetrável existe de fato, manifestando-se como a sabedoria mais elevada e a beleza mais radiante que nossas faculdades embotadas conseguem compreender apenas em suas formas mais primitivas - esse conhecimento e esse sentimento estão no centro da verdadeira religiosidade. Nesse sentido, e apenas nesse, pertenço às fileiras de homens devotamente religiosos." Ou o primeiro grande microbiologista do mundo, Louis Pasteur: "Feliz é aquele que possui um deus interior e lhe obedece. Os ideais da arte e da ciência são iluminados pelo reflexo do infinito." A essência da filosofia perene pode ser exposta de forma simples: é verdade que existe algum tipo de Infinito, algum tipo de Divindade Absoluta, mas ele não pode ser adequadamente concebido como um Ser colossal, um enorme Pai, ou um grande Criador 'separado' de suas criaturas, de coisas, de eventos e dos seres humanos. Pelo contrário, ele é mais bem concebido (metaforicamente) como a base, a quididade (essencialidade) ou a condição de todas as coisas e acontecimentos. Não é uma Grande Coisa separada de coisas finitas, mas a realidade, a quididade ou a essência de todas as coisas. Um cientista que zomba da existência de qualquer tipo de 'Infinito' mas, sem pejo, maravilha-se em voz alta com as 'leis da Natureza' com N maiúsculo, está inconscientemente expressando sentimentos religiosos ou numinosos (de inspiração divina). De acordo com a filosofia perene, seria aceitável falar simbolicamente do Absoluto (Deus) como a 'Natureza' de todas as naturezas, a 'Condição' de todas as condições (São Tomas de Aquino não disse que Deus é natura naturans? - isto é, de natureza criadora, como processo ativo e vital; e natura naturata, de natureza criada, como o produto passivo desse processo). Mas desse ponto de vista, observe, essa Natureza não é outra coisa senão todas as formas de vida: a Natureza não é algo 'separado' das montanhas, águias, rios e pessoas, mas algo que, por assim dizer, corre em todas as fibras de cada um e de todos. Da mesma forma, o Absoluto - como a Natureza de todas as naturezas - não é algo 'separado' de todas as coisas e eventos. Nesse sentido, a filosofia perene declara que o Absoluto é Um, Inteiro e Indiviso - muito parecido com o que Whitehead denominou o manto inconsútil do universo (inconsútil: sem emendas, sem costura, um continuum). Mas note que inconsútil não significa 'incaracterístico'. Isto é, dizer que a Realidade é una não significa que não existam coisas e eventos separados. Quando um cientista afirma: 'Todas as coisas obedecem às leis da Natureza', ele não conclui: 'Portanto, não existe coisa nenhuma'. Ele quer dizer que todas as coisas subsistem em um tipo de Inteireza equilibrada, uma inteireza que ele chama de Natureza e cujas leis tenta descrever. Como uma primeira aproximação, a filosofia perene descreve o Absoluto como um todo inconsútil (continuum), uma Unidade integral, que é subjacente mas inclui toda a multiplicidade. O Absoluto é anterior a este mundo, mas não diferente deste mundo, assim como o oceano é anterior às suas ondas, mas não está 'separado' delas. Esse conceito não é, como o positivista lógico consideraria, um conceito sem sentido ou absurdo - ou melhor, não é mais sem sentido do que a referência científica à Natureza, ao Cosmos, à Energia ou à Matéria. Só porque o Absoluto, a Inteireza integral, não existe como uma entidade separada e perceptível, não significa que não exista. Ninguém nunca viu a Natureza - vemos árvores, pássaros, nuvens e grama, mas não algo específico que possamos isolar e chamar de 'Natureza'. Da mesma forma, nunca nenhum cientista viu a Matéria - ele o chama de 'formas de matéria'; mas ninguém, cientista, leigo ou matemático alguma vez já viu um pedaço de matéria pura. Vemos rocha, madeira, alumínio, zinco ou plástico, mas nunca matéria. Mesmo assim, duvido que um cientista diga': 'Portanto, a matéria não existe'. Todos os tipos de certezas intuitivas e não científicas levam o cientista a declarar que a matéria é real - e, de fato, para a grande maioria dos cientistas (céticos), a matéria é a única realidade, embora eles nunca a tenham visto, tocado ou saboreado. A mesma coisa, claro, vale para a Energia, já que massa/matéria e energia são intercambiáveis. (E = mc2) Nenhum cientista alguma vez já viu Energia, embora ele fale de 'formas de energia', como energia elétrica, termodinâmica, nuclear, e assim por diante. Embora nunca tenha visto energia pura e simples, ele certamente não diz: 'Portanto, a energia não é real'. Há muito tempo, o geólogo e filósofo Ananda Coomaraswamy (7) vislumbrou com precisão o ponto crucial dessa 'hipótese cientifica': "0 apuro do positivista ou 'nada-mais-que-materialista' é que, ao reconhecer como realidade somente aquilo que pode ser tocado, ele atribui 'realidade' a coisas que não podem ser tocadas (energia) porque nunca param de se transformar, e é levado, contra sua vontade, a postular a realidade de uma tal entidade abstrata como 'Energia' - palavra que nada mais é do que um dos nomes de Deus." Tendo em mente que a filosofia perene define Deus não como uma Grande Pessoa, mas como a Natureza de tudo que existe, então Coomaraswamy está obviamente certo, e é irrelevante dizer que todas as coisas são 'formas' de Natureza, 'formas' de Energia ou 'formas' de Deus. Deve ficar claro que não estou tentando provar a existência do Absoluto (Deus) - estou simplesmente sugerindo que sua existência não é mais inverossímil do que a existência da matéria, energia, natureza ou cosmos. Agora, quando alguém crê que o Absoluto é um tipo de Grande Pai que está atento à sua descendência como um pastor às suas ovelhas, a noção de religião dessa pessoa é rogatória. Isto é, o objetivo de sua religião é simplesmente receber proteção e bênçãos desse deus e, por sua vez, adorá-lo e agradecer-lhe. Ela vive de acordo com o que acredita ser as leis do deus e geralmente espera, como recompensa, poder viver para sempre em algum tipo de céu. De forma simples, a meta dessa forma de religião é ser salva. Salva da dor, salva do sofrimento, salva do mal, salva, em última instância, da morte. Não tenho nenhum problema com essa visão - apenas ela não faz parte da filosofia perene e, portanto, não é uma visão que vou apresentar aqui. A religião da filosofia perene é bem diferente de 'salvação'. Uma vez que nela o Absoluto (Deus) é simbolizado por uma Inteireza integral, o objetivo desse tipo de religião não é ser salvo, mas 'descobrir' essa Inteireza. E, assim, sentir-se também inteiro. Albert Einstein referiu-se a isso como a 'superação da ilusão de óptica' de sermos indivíduos 'separados' do Todo: "O ser humano é uma parte do todo que chamamos de 'Universo'; uma parte limitada no tempo e no espaço. Ele experiencia si mesmo, seus pensamentos e sensações como algo 'separado' do resto - um tipo de ilusão de óptica de sua consciência. Essa ilusão é uma forma de prisão para nós, restringindo-nos a nossos desejos pessoais e ao afeto por algumas pessoas mais próximas. Nossa tarefa deve ser libertar-nos dessa prisão." De acordo com a filosofia perene, essa 'descoberta da Inteireza', a superação da ilusão de óptica de separação, não é meramente uma crença - não é um dogma a ser aceito pela fé. Pois se o Absoluto é de fato uma Inteireza integral real, se ele é igualmente parte integrante de tudo que existe, então também está completamente presente nos homens/mulheres. E, diferentemente de pedras, plantas ou animais, os seres humanos - por ser conscientes - têm potencial para descobrir essa Inteireza. Eles podem, por assim dizer, despertar para o Absoluto. Não acreditar nele, mas descobri-lo. Seria como se uma onda se tornasse consciente de si mesma e, a partir daí, se descobrisse una com o oceano inteiro - e, desse modo, una também com as outras ondas, já que todas são feitas de água. Esse é o fenômeno da transcendência - ou iluminação, liberação, moksha, wu, satori. Isso é o que Platão quis dizer sobre sair da caverna de sombras e descobrir a Luz do Ser; ou a 'superação da ilusão de separação' de Einstein. Essa é a meta da meditação budista, da ioga hinduísta e da contemplação mística cristã. E é muito simples e direta; não existe nada de fantasmagórico, oculto ou estranho - isso é a filosofia perene. Dito isso, agora retornamos ao conceito de história podendo abordar seu significado sob nossa nova perspectiva perene a respeito da 'religião'. Se somente a noção de Deus pode explicar a história, e se Deus não é uma Grande Pessoa, mas a Quididade e a Inteireza de tudo que existe, então a história não é a história do desdobramento de um pacto entre o homem e Deus, mas a história do desdobramento da relação entre o homem e o Todo supremo. Já que essa Inteireza é inerente à própria consciência, também podemos dizer que a historia é o desdobramento da consciência humana (ou de várias estruturas da consciência humana, como tentarei demonstrar neste livro). Essa visão não tem mais 'metafísica oculta' - não tem mais 'suposições improváveis' - do que tem a teoria científica padrão da evolução, já que ambas se baseiam, como vimos, no mesmo tipo de postulados 'invisíveis' (Natureza, Matéria, Energia etc.) Mas, para a mesma quantidade de metafísica oculta, podemos, por meio dela, obter muito, mas muito mais significado, coerência e equilíbrio. Podemos localizar a história em um contexto que é, ao mesmo tempo, científico e espiritual, imanente e transcendente, empírico e significativo. Pois essa visão nos diz que a história está de fato indo para algum lugar - não em direção a um juízo final, mas em direção à suprema Inteireza. E mais, essa Inteireza não é só a Natureza de todas as naturezas, mas também o derradeiro e completo potencial da própria consciência humana. A 'história', nesse sentido, é um caminho lento e tortuoso para a transcendência. Resumo a) Para o mundo judaico-cristão (para a mente ocidental), a história é o desdobramento de um pacto entre Deus e o homem, um movimento para, em última instância, unir o homem a Deus. b) Para o mundo da ciência, a história é um processo de evolução científica, deslocando-se da ameba para o réptil, para o macaco, até o homem. c) Para a filosofia perene, a história é o desdobramento da consciência humana ou de várias estruturas da consciência humana. O Grande Ninho De acordo com a filosofia perene, esse caminho de transcendência segue o que é chamado de 'A Grande Cadeia do Ser', que parece ser uma sequência universal de níveis hierárquicos de crescente consciência. Usando-se termos ocidentais, a Grande Cadeia do Ser move-se da matéria para o corpo, para mente, para a alma e espírito, com cada nível transcendendo (ou indo além), mas incluindo (ou abraçando) seus predecessores. A totalidade de um nível torna-se parte do seguinte, de tal forma que corpos vivos transcendem, mas incluem a matéria; a mente transcende, mas inclui os corpos; a alma transcende, mas inclui a mente; e o Espírito transcende, mas inclui absolutamente tudo. ----------------------- Da mesma forma: As moléculas transcendem mas incluem os átomos (moléculas são 'feitas' de átomos); As células transcendem mas incluem as moléculas ( células são feitas de moléculas e átomos); Os órgãos transcendem mas incluem as células (órgãos são feitos de células, moléculas e átomos). Assim, pode-se dizer, os átomos encontram-se 'aninhados' nas moléculas; as moléculas encontram-se 'aninhadas' nas células; as células 'aninhadas' nos órgãos. ----------------------- Portanto, a Grande Cadeia do Ser é, na verdade, o Grande Ninho do Ser - não uma escada ou corrente de elos, mas uma série de ninhos dentro de ninhos, em que cada esfera sucessiva vai além, mas abraça e engloba os inferiores, e o Espírito, incomparavelmente, está além de Tudo, embora contenha absolutamente Tudo. Assim, sob esse ponto de vista, a 'história' é basicamente o desdobramento sucessivo dessas estruturas de maior ordem (ou crescentemente holísticas), começando pela mais baixa (matéria e corpo) e terminando na mais elevada (espírito e suprema inteireza). Notas: (1) Albert Einstein: (1879-1955) físico teórico alemão que, com a teoria da relatividade, concebeu a geometria do universo como constituido da unidade inseperável "espaço-tempo". Embora mais conhecido por sua fórmula de equivalência matéria-energia, E = mc2 (massa = energia), recebeu o Prêmio Nobel de Física de 1921 por seus serviços à física teórica e, especialmente, por sua descoberta da lei do efeito fotoelétrico. (2) Erwin Schrödinger: (1887-1961) físico teórico austríaco famoso por suas contribuições à Mecânica Quântica, pelas quais recebeu o Nobel de Física em 1933. Deu ainda grande atenção aos aspectos filosóficos da ciência, bem como a conceitos filosóficos à ética e às religiões orientais e antigas. (3) Arthur Eddington: (1882-1944) foi um astrofísico britânico que ficou famoso por ter anunciado a Teoria Geral da Relatividade de Einstein para o mundo britânico. (4) David Bohm: 1917-1992) foi um físico quântico estadunidense considerado um dos físicos teóricos mais importantes do séc. XX. Devido a suspeitas de comunismo durante a era McCarthy, deixou os Estados Unidos e seguiu sua carreira científica em vários países, tornando-se um brasileiro, e, mais tarde, um cidadão britânico. (5) Sir James Jeans: (1877-1946) foi um físico, astrónomo e matemático britânico, que juntamente com Arthur Eddington, foi o pioneiro da excelência britânica em cosmologia, que perdura até aos dias de hoje. (6) Isaac Newton: (1643-1727) foi um cientista inglês, mais reconhecido como físico e matemático, embora tenha sido também astrônomo, alquimista, filósofo natural e teólogo. Sua obra, Philosophiae Naturalis Principia Mathematica, é considerada uma das mais influentes na história da ciência. Publicada em 1687, esta obra descreve a lei da gravitação universal e as três leis de Newton, que fundamentaram a mecânica clássica. (7) Ananda K. Coomaraswamy (1907-1998), foi um notável filósofo e historiador indiano e grande mediador da cultura oriental tradicional para o Ocidente, sobretudo a indiana e a budista. É considerado um dos fundadores da escola perenialista, baseada na Filosofia Perene, depois dos metafísicos francês René Guénon (1886-1951) e o suíço-alemão Frithjof Schuon. |
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