A Grande Cadeia do Ser
Ken Wilber


Vamos verificar o que as grandes tradições de sabedoria nos têm a dizer. A tradicional "Grande Cadeia do Ser" é normalmente apresentada como: matéria, corpo, mente, alma, e espírito.

No Vedanta, por exemplo, esses são, respectivamente, os 5 invólucros ou níveis do Espírito:

Anna/mayakosha (o invólucro ou nível do alimento físico),
Prana/mayakosha (o nível do élan vital),
Mano/mayakosha (o nível da mente),
Vijnana/mayakosha (o nível da mente superior ou alma) e
Ananda/mayakosha (o nível da bem-aventurança transcendental ou espírito causal).

O Vedanta, claro, adiciona turiya, ou o Self transcendental sempre presente, e turiyatita, ou o Espírito-como-tal, não-dual, sempre presente, inqualificável, mas o esquema mais simples de cinco níveis servirá aos nossos objetivos introdutórios. Voltaremos mais tarde à versão mais "completa".

Essa Grande Cadeia do Ser de cinco níveis pode ser representada esquematicamente conforme abaixo. Embora tenhamos de ser muito cuidadosos com comparações interculturais, esquemas interpretativos semelhantes a essa Grande Cadeia, ou "Grande Ninho do Ser", podem ser encontrados na maioria das tradições de sabedoria do mundo "pré-moderno", que são diagramas usados por Huston Smith para indicar as semelhanças gerais (ou imagens familiares) entre essas tradições.

Grande Cadeia do Ser de 5 níveis

A. Matéria
B. Vida
C. Mente
D. Alma
E. Espírito

Evolução

(A+B) Matéria + Vida
(A+B+C) Matéria + Vida + Mente
(A+B+C+D) Matéria + Vida + Mente + Alma
(A+B+C+D+E) Matéria + Vida + Mente + Alma + Espírito

Note que a Grande Cadeia, como concebida por seus proponentes (de Plotino a Aurobindo), é realmente mais um Grande Ninho – ou o que é freqüentemente chamado de uma "holarquia" – porque cada nível superior vai além de seus níveis inferiores, mas os envolve (ou os "aninha", não ‘exclui’) – o que Plotino chamou "um desenvolvimento que é envolvimento."

Porém, cada nível mais elevado também transcende radicalmente os inferiores e não pode nem ser reduzido a eles, nem explicados por eles. Isso é indicado acima como (A), (A + B), (A + B + C), e assim por diante, significando que cada nível superior contém elementos ou qualidades que são emergentes e irredutíveis.

Por exemplo, quando a vida (A + B) emerge da matéria (A), ela contém certas qualidades (tais como reprodução sexual, sensações interiores, autopoiese, élan vital, etc.) todas representadas por "B" que não podem ser atribuídas estritamente às condições materiais de "A". Do mesmo modo, quando a mente ("A + B + C") emerge da vida, ela contém características emergentes ("C") que não podem ser reduzidas, ou explicadas, somente pela vida e pela matéria.

Quando a alma ("A + B + C + D") emerge, transcende a mente, a vida e o corpo. Assim, a evolução, é esse "desdobramento" do Espírito, da matéria para o corpo, para a mente, para a alma, para o Espírito em si, ou a realização do Espírito absoluto que é a Meta e a Essência da seqüência inteira.

A melhor introdução para esse conceito tradicional é encontrada no clássico de Schumacher A Guide for the Perplexed (Um Guia para os Perplexos = Emaranhados, Ninho), título emprestado da grande exposição de Maimônides (médico e filósofo judeu - 1135 a 1204 d.c.) sobre o mesmo tópico.

A idéia geral é de uma grande holarquia (o modo como o Universo/Homem se organizam) de ser e saber, com os níveis de realidade no mundo "exterior" refletidos nos níveis do eu (ou níveis "interiores" de ser e saber), o que é especificamente sugerido abaixo.

Como é em cima, é embaixo (em Forgotten Truth de Huston Smith)

(em cima-mundo exterior)
1. Infinito
2. Celestial
3. Intermediário
4. Territorial
------------------
(embaixo-mundo interior)
1. Espírito
2. Alma
3. Mente
4. Corpo

Mas, segundo as tradições, esse processo completo de evolução ou "desdobramento" nunca poderia ter ocorrido sem um processo prévio de involução ou "dobramento."

Não só não se pode explicar o mais alto em termos do mais baixo, como também o mais alto não emerge, de fato, do mais baixo; mas o contrário é verdadeiro, de acordo com as tradições.

Isto é, as dimensões ou níveis mais baixos são realmente sedimentos ou depósitos das dimensões mais altas, e descobrem seu significado por causa das dimensões mais altas, das quais são uma versão diluída ou de nível inferior. Esse processo de sedimentação é chamado de "involução" ou "emanação."

Segundo as tradições, antes que a evolução ou desdobramento do Espírito possa acontecer, a involução ou o dobramento do Espírito deve ocorrer: o mais alto sucessivamente decai para o mais baixo.

Desse modo, os níveis mais altos ‘parecem’ emergir dos níveis mais baixos durante a evolução – por exemplo, a vida parece emergir da matéria – porque, e somente porque, ambas foram primeiramente lá sedimentadas pela involução.

Você não pode conseguir o mais alto a partir do mais baixo a menos que o mais alto já esteja lá, em potência – dormindo, por assim dizer – esperando para emergir. O "milagre da emergência" é simplesmente o jogo criativo do Espírito nos campos de sua própria manifestação.

Portanto, para as tradições, o grande jogo cósmico começa quando o Espírito se exterioriza (lila, kenosis), para criar um universo manifesto.

O Espírito se "perde", "esquece" de si próprio, assume uma fachada mágica de diversidade (maya), a fim de criar um grande jogo consigo mesmo.

Inicialmente, o Espírito se projeta para criar a alma, a qual é um reflexo diluído e um degrau abaixo do Espírito; a alma, então, desce para a mente, um reflexo ainda mais pálido da glória radiante do Espírito; em seguida, a mente desce para a vida, e a vida desce para a matéria, que é a forma mais densa, mais baixa, menos consciente do Espírito. Poderíamos representar isso como:

Involução

O Espírito-como-espírito desce para
o Espírito-como-alma, que desce para
o Espírito-como-mente, que desce para
o Espírito-como-corpo, que desce para
o Espírito-como-matéria.

Esses níveis do Grande Ninho são todos ‘formas’ do Espírito (inclusive a ‘matéria’!), mas essas formas tornam-se cada vez menos conscientes, cada vez menos cientes de sua Origem e Qüididade, cada vez menos sensíveis à sua Essência eterna, embora nada mais sejam do que o Espírito.

Se representarmos os principais estágios emergentes da evolução como (A), (A + B), (A + B + C), e assim por diante – onde os sinais de adição significam que algo está emergindo ou sendo adicionado à manifestação – então podemos representar a involução como o prévio processo de subtração: o Espírito começa íntegro e completo, com todas as manifestações contidas potencialmente em si mesmo, que podemos representar em colchetes: [A + B + C + D + E].

O Espírito dá o primeiro passo na manifestação – e começa a perder-se na manifestação – desprendendo-se da natureza espiritual pura e assumindo uma forma manifesta, finita, limitada – isto é, a alma [A + B + C + D]. A alma agora esqueceu "E," ou sua identidade radical com e como Espírito; com a confusão e ansiedade resultantes, a alma foge desse terror descendo para a mente [A + B + C], que esqueceu "D," seu esplendor de alma; e a mente foge para a vida, esquecendo "C," ou sua inteligência; e, finalmente, a vida perde sua vitalidade vegetativa "B" e surge como a matéria "A", não-senciente, inanimada – nesse ponto, algo como o Big Bang acontece, quando então a matéria explode na existência concreta e ‘parece’ existir em todo o mundo manifesto apenas matéria não-senciente, inanimada, morta.

Mas, curiosamente, essa matéria é ativa, não é mesmo? Não parece ficar deitada, aproveitando o seguro-desemprego, assistindo televisão. Incrivelmente, ela começa a acordar: "ordem a partir do caos" é como a física da complexidade chama isso – ou estruturas dissipativas, ou auto-organização, ou transformação dinâmica. Mas os tradicionalistas foram mais diretos: "Deus não permanece petrificado e morto; as pedras clamam e elevam-se na direção do Espírito", como afirmou Hegel.

Em outras palavras, de acordo com as tradições, uma vez que a involução aconteceu, então a evolução começa ou pode começar, movendo-se de (A) para (A + B), para (A + B + C), e assim por diante, com cada principal passo emergente nada mais sendo do que um desdobramento ou lembrança das dimensões mais elevadas que foram secretamente dobradas ou sedimentadas nas mais baixas durante a involução.

Aquilo que foi desmembrado, fragmentado e esquecido na involução, é relembrado, reunido, inteirado e percebido durante a evolução.

Daí a doutrina da anamnese ("recordação") platônica e vedântica, tão comum nas tradições: se a involução é um esquecimento de quem você é, a evolução é uma recordação de quem e o que você é – tat tvam asi: você é Isto. Satori, iluminação, metanóia, moksha e wu são alguns dos nomes clássicos para essa realização.

Evolução – Uma Visão Desenvolvimentista/Evolucionária


Viemos do Espírito e Retornamos ao Espírito

A ‘visão’ desenvolvimentista/evolucionária advém da filosofia do desenvolvimento, que é representada mais efetivamente por Hegel no Ocidente e Aurobindo no Oriente, e da psicologia do desenvolvimento, que é resumida por Baldwin e Piaget no Ocidente e pela ioga kundalini no Oriente.

Ela sustenta que no mundo de maya (dos fenômenos) todas as coisas existem no tempo; e como o mundo do tempo é o mundo do fluxo, todas as coisas do mundo estão em constante mudança, transformação e mutação.

Mutação implica em algum tipo de diferença de estado para estado, isto é, algum tipo de desenvolvimento; assim, todas as coisas neste mundo só podem ser concebidas como algo que se desenvolveu.

Em resumo, todos os fenômenos se desenvolvem, e, assim, a fenomenologia verdadeira é sempre evolucionária, dinâmica ou desenvolvimentista - este, por exemplo, é o ponto central da Phenomenology of Spirit de Hegel.

Se tentarmos visualizar o mundo como um todo nesses termos desenvolvimentistas, o mundo em si mesmo parece estar evoluindo numa direção definida, isto é, em direção a um maior holismo, integração, senso de percepção (awareness), consciência, etc.

Realmente, uma breve análise dos dados evolucionários até os dias de hoje - da matéria para a planta, para os animais inferiores, para os mamíferos, para os seres humanos - nos mostra um crescimento pronunciado em direção a uma crescente complexidade e percepção.

Muitos filósofos e psicólogos, deparando-se com este fluxo evolucionário, concluíram que, os fenômenos não só podem ser melhor entendidos como algo que se desenvolveu, como também que o desenvolvimento em si mesmo está convergindo para o ‘númeno’ (realidade essencial ou última).

Todos estamos familiarizados com a concepção evolucionária do ponto ômega de Teillard de Chardin e com a tendência evolucionária para a supermente de Aurobindo, mas o mesmo conceito foi sustentado no Ocidente por filósofos como Aristóteles e Hegel.

Hegel, por exemplo, sustentou que:

"O Absoluto é o Espírito no processo do seu próprio tornar-se, o círculo que pressupõe seu fim como seu propósito e que tem seu fim no seu começo. Ele se torna concreto ou real somente pelo seu desenvolvimento..."

O "fim" de que Hegel fala é similar à supermente (Aurobindo) e ao ponto ômega (Teillard de Chardin) - é um estado de "conhecimento absoluto" onde "o Espírito - por meio do homem - se conhece a si mesmo na forma de Espírito."

Assim, a história (evolução) era, para Hegel, como também para a filosofia perene em geral, o processo de auto-realização do Espírito (por meio do homem)

Hegel sustentou que esse processo de desenvolvimento evolucionário de retorno do Espírito ao Espírito, ocorre em três estágios principais:

Primeiro Estágio: começa com a natureza, o domínio inferior - o domínio da matéria e das sensações e percepções corpóreas simples, que denominaremos de domínio pré-pessoal ou subconsciente.

Hegel fala da natureza subconsciente (domínio pré-pessoal) como uma "queda" (Abfall) - mas não que a natureza esteja contra o Espírito ou divorciada do Espírito. Simplesmente a natureza é o "Espírito adormecido", ou "Deus em uma de Suas formas."

Mais especificamente, a natureza é o "Espírito auto-alienado", ou a forma inferior do Espírito em seu retorno ao Espírito.

Segundo Estágio: no retorno do Espírito ao Espírito ou superação da auto-alienação, o desenvolvimento se move da natureza (pré-pessoal subconsciente) para o que Hegel chama o estágio autoconsciente.

Este é o estágio típico da percepção "egóica" ou mental - o domínio que denominaremos pessoal, mental e autoconsciente. Finalmente, de acordo com Hegel:

Terceiro Estágio: o desenvolvimento culmina no Absoluto, ou no Espírito - por meio do homem - descobrindo o Espírito como Espírito, um estágio/nível que chamaremos transpessoal ou superconsciente.

Resumo

A Evolução - o processo de auto-realização do Espírito (retorno do Espírito ao Espírito) - ocorre em 3 estágios:

1. pré-pessoal – subconsciente (antes do ego) para o...
2. pessoal – autoconsciente (ego) para o...
3. transpessoal – superconsciente (além do ego) - ou consciência de iluminação.

Observemos, então, a sequência completa do desenvolvimento:

1. da natureza para a humanidade, para a divindade;
2. do subconsciente para o autoconsciente, para o superconsciente;
3. do pré-pessoal, para o pessoal, para o transpessoal.

Se o movimento do inferior para o superior é Evolução, então o contrário, o movimento do superior para o inferior (que precede e ocorre ‘antes’ da Evolução), é Involução.

Com o surgimento do universo, a natureza se torna uma "queda" ou "Deus adormecido" ou "Espírito auto-alienado" através do processo anterior de involução, ou de descida e "perda" do superior no inferior (o Espírito decai para a alma, para a mente, para o corpo e para a matéria)

Chama-se isso de "Big Bang", quando a matéria - o domínio inferior - começou a existir a partir do Vazio (sunyata).

Evolução então é a reversão subsequente da ‘queda’ (Abfall), o retorno do Espírito para o Espírito via desenvolvimento.

Desse modo, poderemos falar de Involução no sentido geral do movimento do superior para o inferior - neste sentido, ela é simplesmente o fenômeno de regressão.

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