| Os Arqu�tipos de Jung | ||||||||||
| Entrevista de Ken Wilber - Tradu��o de Ari Raynsford ([email protected]) 1) Excertos da entrevista de Ken Wilber � jornalista alem� Edith Zundel (do livro Grace and Grit � Gra�a e Determina��o) EZ: Eu, Rolf e nossos leitores estamos particularmente interessados na interface entre psicoterapia e religi�o. KW: E o que significa para voc� a palavra religi�o? Fundamentalismo? Misticismo? Exoterismo? Esoterismo? EZ: Bem, este � um bom ponto para come�armos. Se n�o me engano, em Um Deus Social voc� apresentou onze diferentes defini��es para religi�o ou onze diferentes maneiras como � usada a palavra religi�o. KW: Sim, e minha opini�o � que n�o podemos falar de ci�ncia e religi�o, ou de psicoterapia e religi�o, ou de filosofia e religi�o antes de definir o que entendemos pela palavra religi�o. E visando ao nosso objetivo, no momento, penso que devemos distinguir pelo menos entre o que � conhecido por religi�o exot�rica e religi�o esot�rica. A religi�o exot�rica ou �exterior� � religi�o m�tica, religi�o que � terrivelmente concreta e literal, que realmente acredita, por exemplo, que Mois�s abriu o Mar Vermelho, que Cristo nasceu de uma virgem, que o mundo foi criado em seis dias, que, um dia, literalmente choveu man�* do c�u, e assim por diante. Em todo o mundo, religi�es exot�ricas consistem desses tipos de cren�as. Os hindus acreditam que a Terra deve estar apoiada em algo; assim, cr�em encontrar-se sobre um elefante que, tamb�m necessitando de suporte, est� sobre uma tartaruga; esta, por sua vez, encontra-se sobre uma serpente. E quando surge a pergunta �Em que a serpente est� apoiada?�, a resposta dada � �Mudemos de assunto�. Lao Ts� nasceu com novecentos anos, Krishna acasalou-se com quatro mil vacas, Brahma nasceu da quebra de um ovo c�smico etc. Isto � religi�o exot�rica, uma s�rie de estruturas de cren�as que tentam explicar os mist�rios do mundo em termos m�ticos ao inv�s de termos testemunhais ou de experi�ncia direta. EZ: Assim, a religi�o exot�rica ou exterior �, basicamente, uma quest�o de cren�a, n�o de evid�ncias. KW: Sim. Se voc� acredita em todos os mitos, ser� salvo; se n�o, vai para o Inferno � sem discuss�o. Esse tipo de religi�o � encontrado no mundo inteiro � fundamentalismo. N�o tenho nada contra, apenas este tipo de religi�o, religi�o exot�rica, nada tem a ver com a religi�o m�stica, ou religi�o esot�rica, ou religi�o experiencial, que � o tipo de religi�o ou espiritualidade que me interessa. EZ: O que significa esot�rico? KW: Interior ou oculto. O fato de a religi�o esot�rica ou m�stica ser oculta n�o � porque seja secreta ou algo assim, mas sim porque � uma quest�o de experi�ncia direta ou percep��o pessoal. A religi�o esot�rica n�o pede que voc� acredite em nada na base da f� ou que engula obedientemente qualquer dogma. Ao contr�rio, a religi�o esot�rica � um conjunto de experimentos pessoais conduzidos cientificamente no laborat�rio da sua pr�pria consci�ncia. Como toda boa ci�ncia, � baseada na experi�ncia direta, n�o em simples cren�as ou desejos, e pode ser verificada e validada por outras pessoas que tamb�m tenham executado o experimento. O experimento � a medita��o. EZ: Mas medita��o � privada. KW: N�o, n�o �. N�o mais do que, digamos, a matem�tica. N�o h�, por exemplo, nenhuma prova de que menos um elevado ao quadrado � igual a um; n�o h� nenhuma prova sens�ria ou emp�rica para isso. � verdadeiro, mas somente � provado por uma l�gica interna. Voc� n�o consegue encontrar menos um no mundo exterior; somente o encontra na sua mente. Mas isto n�o significa que n�o seja verdade, que seja conhecimento privado que n�o possa ser validado publicamente. Significa somente que esta verdade � validada por uma comunidade de matem�ticos treinados, por todos aqueles que sabem como funciona o experimento l�gico que ir� definir sua veracidade. Do mesmo modo, o conhecimento meditativo � conhecimento interno, mas conhecimento que pode ser validado publicamente por uma comunidade de meditadores treinados, aqueles que conhecem a l�gica interna da experi�ncia contemplativa. N�o se admite que qualquer pessoa opine sobre a verdade do teorema de Pit�goras; somente matem�ticos treinados est�o capacitados a faz�-lo. Da mesma maneira, a espiritualidade meditadora faz certas afirma��es � por exemplo, que se voc� olhar profundamente para o seu eu interior sentir� que ele � uno com o mundo exterior � mas a veracidade delas deve ser verificada por voc� e qualquer outra pessoa que tente fazer o experimento. E ap�s algo como seis mil anos em que este experimento vem sendo realizado, sentimo-nos perfeitamente tranq�ilos em tirar certas conclus�es, em desenvolver certos teoremas espirituais, por assim dizer. E esses teoremas espirituais s�o o n�cleo das tradi��es da sabedoria perene. EZ: Mas por que ela � chamada �oculta�? KW: Porque se voc� n�o realiza o experimento, ent�o n�o sabe o que est� acontecendo, n�o est� em condi��es de opinar, do mesmo modo que se voc� n�o aprende matem�tica, n�o consegue discutir a veracidade do teorema de Pit�goras. Quero dizer, voc� pode ter opini�o a respeito, mas o misticismo n�o est� interessado em opini�es, mas sim em conhecimento. A religi�o esot�rica ou misticismo encontra-se oculta para a mente daqueles que n�o realizam o experimento; � isso que significa a palavra �oculta�. EZ: Mas as religi�es variam muito entre si. KW: As religi�es exot�ricas variam tremendamente entre si; as religi�es esot�ricas s�o virtualmente id�nticas em todo o mundo. Como j� vimos, o misticismo (ou esoterismo) � cient�fico, no sentido mais amplo da palavra, e do mesmo modo que n�o se tem qu�mica alem� versus qu�mica americana, n�o existe ci�ncia m�stica hindu�sta versus ci�ncia m�stica isl�mica. Ao contr�rio, elas concordam fundamentalmente no que diz respeito � natureza da alma, � natureza do Esp�rito e � natureza da sua suprema identidade, entre outras coisas. Isto � o que os eruditos chamam de �unidade transcendental das religi�es do mundo� � eles referem-se �s religi�es esot�ricas. � claro, suas estruturas superficiais variam tremendamente, mas suas estruturas profundas s�o virtualmente id�nticas, refletindo a unanimidade do esp�rito humano sobre as leis desveladas fenomenologicamente. EZ: Isto � muito importante; ent�o, acho que voc� n�o acredita, diferentemente de Joseph Campbell, que as religi�es m�ticas carregam algum conhecimento espiritual v�lido. KW: Voc� � livre para interpretar os mitos religiosos exot�ricos como bem lhe aprouver. Pode, como faz Campbell, interpretar mitos como sendo alegorias ou met�foras para verdades transcendentais. Livre, por exemplo, para interpretar a imaculada concei��o como Cristo nascendo espontaneamente do seu verdadeiro Eu, com �E� mai�sculo. O problema � que os crentes m�ticos n�o acreditam nisso. Eles acreditam, como prova da sua f�, que Maria era realmente uma virgem biol�gica quando engravidou. Os crentes m�ticos n�o interpretam seus mitos alegoricamente, eles os interpretam literal e concretamente. Joseph Campbell viola o tecido das cren�as m�ticas na sua tentativa de salv�-las. Isto � erudi��o inaceit�vel. Diz-se para o crente m�tico, �Sei o que voc� realmente entende por aquilo�. Mas o problema � que n�o � o que ele realmente acredita. Em minha opini�o, sua abordagem � fundamentalmente errada j� de in�cio. Esses tipos de mitos s�o muito comuns entre seis e onze anos de idade; s�o produzidos natural e facilmente pelo n�vel da mente que Piaget denomina operacional concreto. Basicamente, todos os fundamentos dos grandes mitos exot�ricos do mundo podem ser colhidos das produ��es espont�neas de crian�as de sete anos, como o pr�prio Campbell concorda. Mas logo que a pr�xima estrutura da consci�ncia � chamada operacional formal ou racional � emerge, as produ��es m�ticas s�o abandonadas pela pr�pria crian�a. Ela n�o acredita mais nelas, a menos que viva em uma sociedade que recompense essas cren�as. Mas, de uma maneira geral, a mente racional e reflexiva acredita que os mitos s�o exatamente isso, mitos. Uma vez �teis e necess�rios, mas n�o mais sustent�veis. Eles n�o cont�m o conhecimento testemunhal que afirmam ter e, uma vez testados cientificamente, desmoronam. A mente racional olha, por exemplo, para a imaculada concei��o e somente sorri. A mulher engravida, vai ao seu marido e diz, �Olhe, estou gr�vida, mas n�o se preocupe, n�o dormi com outro homem. O verdadeiro pai n�o � deste planeta.� EZ: (Rindo) Mas alguns seguidores das religi�es m�ticas interpretam de fato seus mitos aleg�rica ou metaforicamente. KW: Sim, esses s�o os m�sticos. Isto �, os m�sticos s�o aqueles que d�o um significado esot�rico ou �oculto� para os mitos e esses significados s�o descobertos atrav�s da experi�ncia direta, interior e contemplativa, e n�o de algum sistema exterior de cren�a, s�mbolo ou mito. Em outras palavras, eles n�o s�o crentes m�ticos, mas sim fenomenologistas contemplativos, m�sticos contemplativos, cientistas contemplativos. Isto explica porque historicamente, como salienta Alfred North Whitehead, o misticismo tem sempre se aliado � ci�ncia contra a Igreja, uma vez que ambos, misticismo e ci�ncia, dependem de evid�ncias diretas consensuais. Newton foi um grande cientista; foi tamb�m um m�stico profundo, e n�o havia, como n�o h�, nenhum conflito nisso. Por outro lado, voc� n�o pode ser um grande cientista e um grande crente m�tico ao mesmo tempo. Al�m disso, os m�sticos s�o aqueles que concordam que sua religi�o � basicamente id�ntica em ess�ncia a outras religi�es m�sticas � �eles chamam de muitas maneiras Aquele que realmente � Um.� Agora, voc� n�o encontra um crente m�tico, por exemplo um Protestante fundamentalista, dizendo que o Budismo tamb�m � um caminho perfeito para a salva��o. Crentes m�ticos afirmam que eles possuem o �nico caminho porque baseiam sua religi�o em mitos exteriores, que s�o diferentes entre si; eles n�o compreendem a unidade interior oculta nos s�mbolos exteriores; os m�sticos o fazem. EZ: Sim, entendo. Ent�o voc� n�o concorda com Carl Jung que os mitos carregam arqu�tipos e, nesse sentido, import�ncia m�stica ou transcendental. Eu j� esperava que essa pergunta aparecesse. Ent�o, como agora, a proeminente figura de Carl Jung � Campbell � um dos seus muitos seguidores � domina completamente o campo da psicologia da religi�o. Quando comecei neste campo, eu, como a maioria, acreditava piamente nos conceitos centrais de Jung e nos esfor�os pioneiros que realizou nessa �rea. Mas ao longo dos anos passei a acreditar que Jung cometeu erros profundos e esses erros s�o o principal grande obst�culo no campo da psicologia transpessoal, pior ainda porque foram muito difundidos e, aparentemente, n�o refutados. Nenhuma conversa sobre psicologia e religi�o poderia continuar at� que este delicado e dif�cil t�pico fosse discutido; assim, na pr�xima meia-hora Edith e eu falamos sobre ele. Eu realmente discordo da posi��o de Jung de que os mitos s�o arquet�picos e portanto m�sticos? KW: Jung descobriu que os homens e mulheres modernos podem, espontaneamente, produzir virtualmente todos os principais temas das religi�es m�ticas do mundo; eles o fazem em sonhos, em imagina��o ativa, em associa��o livre e assim por diante. Da�, ele deduziu que as formas m�ticas b�sicas, que ele chamou de arqu�tipos, s�o comuns a todas as pessoas, s�o herdadas por todas as pessoas e s�o transmitidas por aquilo que ele chamou de inconsciente coletivo. Cito sua afirma��o: �misticismo � experi�ncia de arqu�tipos�. Em minha opini�o, h� v�rios erros cruciais nessa vis�o. Primeiro, � totalmente verdadeiro que a mente, mesmo a mente moderna, pode produzir espontaneamente forma m�ticas que s�o, em ess�ncia, similares �quelas encontradas nas religi�es m�ticas. Como j� disse, os est�gios pr�-formais do desenvolvimento da mente, particularmente os pensamentos pr�-operacional e operacional concreto s�o, pela sua pr�pria natureza, produtores de mitos. Uma vez que todos os homens e mulheres modernos passam por esses est�gios de desenvolvimento na inf�ncia, naturalmente todos os homens e mulheres t�m acesso espont�neo a esse tipo de estrutura de produ��o de pensamento m�tico, especialmente em sonhos, onde os n�veis primitivos da psique podem vir � tona com mais facilidade. Mas n�o h� nada de m�stico nisso. De acordo com Jung, arqu�tipos s�o formas m�ticas b�sicas destitu�das de conte�do; misticismo � consci�ncia sem forma. N�o h� ponto de contato. Segundo, h� o pr�prio uso que Jung faz da palavra �arqu�tipo�, conceito que ele tomou emprestado de grandes m�sticos, como Plat�o e Agostinho. Mas o modo como Jung usa o termo n�o � o modo que esses m�sticos o usam, nem mesmo, de fato, � o modo que m�sticos do mundo inteiro o usam. Para os m�sticos � Shankara, Plat�o, Agostinho, Eckhart, Garab Dorje e outros � arqu�tipos s�o formas sutis primordiais que aparecem � medida que o mundo se manifesta a partir do Esp�rito informe e n�o-manifesto. Eles s�o os padr�es sobre os quais todos os outros padr�es de manifesta��o se baseiam. Do grego arche typon, padr�o original. Formas sutis, transcendentais que s�o as formas primordiais de manifesta��o, n�o importa se a manifesta��o � f�sica, biol�gica, mental etc. E na maioria das formas de misticismo, esses arqu�tipos s�o, basicamente, padr�es radiantes ou pontos de luz, ilumina��es aud�veis, formas e luminosidades brilhantemente coloridas, arco-�ris de luz, som e vibra��o � atrav�s dos quais, em manifesta��o, o mundo material � condensado, se assim podemos nos expressar. Mas Jung usa o termo para certas estruturas m�ticas b�sicas que s�o comuns � experi�ncia humana como o trickster (trapaceiro, vigarista, brincalh�o), a sombra, o Velho S�bio, o ego, a persona, a Grande M�e, a anima, o animus etc. Eles s�o mais existenciais do que transcendentais. S�o simplesmente facetas das experi�ncias comuns do dia-a-dia da condi��o humana. Concordo que essas formas m�ticas s�o herdadas coletivamente pela psique. E tamb�m concordo inteiramente com Jung que � muito importante chegar a um acordo com esses �arqu�tipos� m�ticos. Por exemplo, se estou tendo problemas psicol�gicos com minha m�e, se sofro o assim chamado complexo materno, � importante entender que muito dessa carga emocional n�o decorre da minha m�e individual, mas sim da Grande M�e, uma poderosa imagem do meu inconsciente coletivo que �, em ess�ncia, a destila��o das m�es de todo o mundo. Isto �, a psique vem com a imagem da Grande M�e embutida nela, do mesmo modo como j� vem equipada com as formas rudimentares de linguagem e de percep��o, e de variados padr�es instintivos. Se a imagem da Grande M�e for ativada, n�o estarei interagindo somente com minha m�e individual, mas sim com milhares de anos da experi�ncia humana com a maternidade em geral; assim, a imagem da Grande M�e carrega uma carga e tem um impacto muito al�m daqueles que minha pr�pria m�e poderia gerar. Entrar em acordo com a Grande M�e pelo estudo dos mitos do mundo � um bom caminho para tratar com aquela forma m�tica, torn�-la consciente e diferenciar-se dela. Concordo inteiramente com Jung neste ponto. Mas essas formas m�ticas nada t�m a ver com misticismo, com a genu�na consci�ncia transcendental. Deixe-me explicar de maneira mais simples. Em minha opini�o, o principal erro de Jung foi confundir coletivo com transpessoal (ou m�stico). Simplesmente porque minha mente herda certas formas coletivas n�o significa que essas formas s�o m�sticas ou transpessoais. Por exemplo, todos herdamos coletivamente dez dedos dos p�s, mas se experiencio meus dedos n�o estou tendo uma experi�ncia m�stica! Os �arqu�tipos� de Jung virtualmente nada t�m a ver com a genu�na consci�ncia espiritual, transcendental, m�stica, transpessoal; ao contr�rio, s�o formas coletivamente herdadas que destilam alguns dos mais b�sicos encontros existenciais do dia-a-dia da condi��o humana � vida, morte, m�e, pai, sombra, ego etc. Nada m�stico. Coletivo, sim; transpessoal, n�o. H� o coletivo pr�-pessoal, o coletivo pessoal e o coletivo transpessoal; Jung n�o os diferencia com a clareza necess�ria; e isso gera um desvio em todo o seu entendimento do processo espiritual, em minha opini�o. Assim, concordo com Jung que � muito importante entrar num acordo com as formas de ambos os inconscientes m�ticos, o pessoal e o coletivo; mas nenhum deles tem muito a ver com o misticismo real que, primeiro, descobre a luz al�m da forma, para, depois, chegar ao informe al�m da luz. EZ: Mas trabalhar com material arquet�pico da psique pode ser uma experi�ncia poderosa, algumas vezes irresist�vel. KW: Sim, porque � coletivo; seu poder vai muito al�m do individual; possui o poder de milh�es de anos de evolu��o por tr�s de si. Mas coletivo n�o � transpessoal. O poder dos �arqu�tipos verdadeiros�, os arqu�tipos transpessoais, prov�m diretamente do fato de serem as formas primordiais do Esp�rito atemporal; o poder dos arqu�tipos junguianos prov�m do fato de serem as formas mais antigas da hist�ria temporal. Como o pr�prio Jung ressaltou, � necess�rio afastarmo-nos dos arqu�tipos, diferenciarmo-nos deles, livrarmo-nos do seu poder. Ele chamou esse processo de individua��o. E, novamente, concordo inteiramente com ele sobre esse ponto. Devemos nos afastar dos arqu�tipos junguianos. Mas devemos nos aproximar dos arqu�tipos verdadeiros, os arqu�tipos transpessoais, para, em �ltima inst�ncia, conseguirmos uma mudan�a integral de identidade para a forma transpessoal. O �nico arqu�tipo junguiano que � genuinamente transpessoal � o Self, mas mesmo sua discuss�o sobre ele, em minha opini�o, deixa a desejar pelo fato de Jung n�o enfatizar suficientemente seu essencial car�ter n�o-dual. ................................................................................................................................................................ 2) Coment�rios de Ken Wilber � cr�tica de Bryan Wittine a Sex, Ecology, Spirituality publicada no The Journal of Transpersonal Psychology n� 27 � 1995 (do livro The Eye of Spirit) ................................................................................................................................................................ A segunda cr�tica de Wittine refere-se ao meu tratamento de Jung e dos arqu�tipos. Novamente, posso entender como Bryan obteve algumas de suas impress�es do breve resumo que apresentei em SES (Sex, Ecology, Spirituality). O problema � que Jung (e seus seguidores) tinham tr�s diferentes usos para �arqu�tipo� e h� dificuldades insuper�veis com todos eles. O primeiro uso, e o mais comum, � imagem arcaica. Esta foi a formula��o original de Jung e ainda � a predominante e a mais largamente usada (por exemplo, pelo movimento mitopo�tico, movimento masculino e psicologia folcl�rica). Essas imagens arcaicas coletivamente herdadas, acreditava Jung, eram uma heran�a filogen�tica, �a percep��o instintiva de si mesmo�. Jung acreditava que um particularmente rico reposit�rio desses arqu�tipos poderia ser encontrado nas mitologias do mundo (o que levou os primeiros cr�ticos de Jung a acus�-lo de �mitomania�). Essas imagens m�ticas arcaicas eram n�o-racionais e, por causa disso, Jung achou que elas eram uma fonte direta de consci�ncia espiritual, o que � exatamente o que ele tinha em mente quando afirmou que �misticismo � experi�ncia de arqu�tipos�. Neste uso, Jung � definitivamente culpado da fal�cia pr�-transpessoal. Simplesmente, ele n�o diferencia com suficiente clareza as situa��es pr�-racionais e transracionais, e, assim, tende a elevar infantilismos pr�-racionais a gl�rias espirituais, simplesmente porque ambos n�o s�o racionais. Este uso para �arqu�tipo�, porque ainda � o mais comum e o mais largamente associado ao nome de Jung, � o que mais tenho criticado. Nele, os arqu�tipos s�o encontrados nos est�gios primitivos da evolu��o, filogen�tica e ontogen�tica. Assim, tenho assinalado que essas imagens �arquet�picas� arcaicas deveriam realmente ser chamadas de �prot�tipos�, porque s�o formas pr�-racionais, m�gicas e m�ticas, e n�o formas sutis, transracionais e p�s-p�s-convencionais (que � o modo como os arqu�tipos s�o usados na Filosofia Perene, de Plotino a Garab Dorje, a Asanga e Vasubandhu). O segundo uso para arqu�tipo dado por Jung era muito mais abrangente; simplesmente referia-se a arqu�tipos como �formas desprovidas de conte�do� herdadas coletivamente. Em O Projeto Atman cito-o dizendo exatamente isso e ressalto que se essa � nossa defini��o para arqu�tipo, ent�o todas as estruturas profundas de cada n�vel do espectro da consci�ncia (exceto a informe) podem ser chamadas de arquet�picas, e isto para mim est� bem. Mas, ent�o, os arqu�tipos n�o t�m absolutamente nada a ver com imagens arcaicas, n�o � mesmo? Este uso para arqu�tipo (como estruturas profundas desprovidas de conte�do) � um dos usos que Wittine deseja reabilitar. �Meu entendimento � que arqu�tipos s�o predisposi��es estruturais inatas defin�veis somente em termos de princ�pios ordenadores, nunca em termos de conte�do espec�fico.� Wittine afirma que ignoro este uso, o que n�o � o caso, como acabamos de ver. Simplesmente, chamo a aten��o para o fato que essa defini��o � totalmente discordante do primeiro e mais comum uso dado por Jung. Se Wittine deseja seguir essa defini��o, isto � plenamente aceit�vel, mas h� necessidade de bastante esclarecimento a fim de diferenci�-la do primeiro uso e evitar massivas fal�cias pr�-trans. Eu, particularmente, n�o considero a literatura junguiana �til nesse ponto. O terceiro uso que Jung e seus seguidores d�o para arqu�tipo est� mais alinhado com a Filosofia Perene, que v� os arqu�tipos como as primeiras formas na involu��o. O mundo manifesto inteiro origina-se do Informe (ou Abismo causal) e as primeiras formas a surgir, sobre as quais as demais se apoiar�o, s�o �arque-formas� ou arqu�tipos. Assim, neste uso, os arqu�tipos s�o as mais elevadas Formas das nossas pr�prias possibilidades, as Formas mais profundas dos nossos pr�prios potenciais � mas tamb�m as �ltimas barreiras para o Informe e N�o-dual. Como as primeiras (e primordiais) formas na involu��o ou manifesta��o (ou movimento de distanciamento da Fonte causal), os arqu�tipos s�o as derradeiras (e mais elevadas) formas na evolu��o ou retorno para a Fonte. Como as Formas bem mais pr�ximas do Informe, eles s�o as primeiras formas que a alma assume � medida que se contrai diante do infinito e esconde sua verdadeira natureza; mas, exatamente por isso, tamb�m s�o os far�is mais altos no caminho de volta para o Informe e a barreira final a ser destru�da �s margens do infinito radiante. (E note: porque esses arqu�tipos s�o as primeiras formas no in�cio da involu��o, eles s�o quase o exatamente oposto das imagens arcaicas, que s�o algumas das primeiras formas que surgem no in�cio da evolu��o � mais uma raz�o porque a confus�o entre eles tem causado tantos pesadelos te�ricos). Ocasionalmente, Jung e os junguianos usam arqu�tipo com esse sentido mais elevado, mas, mesmo a�, tende a ser uma discuss�o bastante an�mica. Creio que Hameed Ali resumiu a situa��o de um modo brutal, por�m preciso: �Jung chegou muito pr�ximo � ess�ncia [do arqu�tipo superior] e suas v�rias manifesta��es, mas ficou no n�vel da imagina��o. Assim, ele ficou aqu�m das expectativas na compreens�o e na viv�ncia da ess�ncia [arquet�pica] e sua psicologia permaneceu como uma constru��o mental n�o diretamente ligada � presen�a da ess�ncia.� Assim, Jung e os junguianos apresentam tr�s diferentes usos para �arqu�tipo� e todos eles, acredito, s�o problem�ticos. As imagens arcaicas existem, mas t�m muito pouco, ou nada, a ver com o desenvolvimento p�s-p�s-convencional. Arqu�tipos como estruturas profundas isentas de significado s�o uma utiliza��o aceit�vel, mas est� quase totalmente em oposi��o ao primeiro uso (e.g., formal-operacional � uma estrutura profunda e, nesse sentido, � �arquet�pica�, mas n�o se encontra formop em imagens arcaicas) e acho o desenvolvimento junguiano desse uso bastante limitado e in�til. Finalmente, arqu�tipo como �arqu�tipo alto� (as primeiras formas na involu��o, as derradeiras formas na evolu��o) tamb�m � aceit�vel, mas, aqui, concordo com Ali que o uso junguiano � an�mico. E em todos os tr�s usos, o arqu�tipo junguiano � ainda profundamente monol�gico. Por todas essas raz�es, cada vez mais acho que a abordagem junguiana, embora pioneira, n�o � proveitosa para os estudos transpessoais da terceira onda. Obviamente, qualquer pessoa pode desenvolver um exerc�cio exemplar do caminho junguiano, usando suas for�as para transcender suas limita��es. Bryan Wittine � uma delas e h� muitas outras. Entretanto, acredito que a luz junguiana deve ser usada com muita cautela. * Alimento que, segundo a B�blia, Deus mandou, em forma de chuva, aos israelitas no deserto. |
||||||||||
| Home | Voltar | |||||||||