| A Arte do Não-Agir | ||||||||||||
Depois de ser inspirado pela vida de Buda, o mais importante é não deixá-lo escapar por entre os dedos, o que pode acontecer facilmente. Em primeiro lugar, porque Buda não queria que ninguém se apegasse a ele. Como uma supernova que explode no céu (supernova é o nome dado ao corpo celeste surgido após a explosão de uma estrela), ele espalhou luz em todas as direções. Antes da explosão, era possível localizá-lo no tempo e no espaço. Era uma pessoa como outra qualquer, por mais brilhante e carismático que fosse. Mas, depois da explosão conhecida como iluminação, transformou-se em algo diverso e bastante impessoal, que pode ser chamado de espírito puro, de essência ou de sabedoria transcendente. Qualquer que seja o nome, já não era mais uma pessoa, o que torna as coisas bem mais difíceis. Como seguir um mestre que está em todos os lugares ao mesmo tempo? Consigo me imaginar conversando com um leitor que me faz essa pergunta, que pode levar a várias outras, Como posso seguir alguém que insistia constantemente que não era mais uma pessoa e não possuía mais um eu? O ideal é que você o siga através da perda do seu próprio eu - o que parece impossível, já que é o seu eu que se sente fascinado por ele. É o seu eu que está sofrendo e quer se livrar do sofrimento. A mensagem primordial do budismo é que este eu não consegue realizar nada real. Ele precisa encontrar uma maneira de desaparecer, assim como Buda desapareceu. O eu alcança seu objetivo ao deixar de ser o eu? Parece paradoxal. Sim, mas os budistas encontraram três maneiras de viver a sabedoria que seu mestre lhes deixou. A primeira é social, formando grupos de discípulos numa Sangha, como o grupo de monges e monjas que Buda reuniu em vida. A Sangha existe para estabelecer um estilo de vida espiritual. As pessoas mantem os ensinamentos vivos e dão continuidade às idéias budistas. Meditam juntas e criam uma atmosfera de paz. A segunda maneira de seguir Buda é ética, centrada no valor da compaixão. Buda era conhecido como O Compassivo, um ser que amava toda a humanidade sem julgá-la. A ética budista traz essa mesma atitude para a vida diária. Um budista pratica a bondade sem julgar as outras pessoas, além disso demonstra amor e reverência pela vida como um todo. A moralidade budista é pacífica, tolerante e alegre. A terceira maneira é mística (1). O budista leva a sério a mensagem da ausência do eu. Faz tudo o que pode para eliminar as amarras que o prendem à ilusão de que ele é um eu separado do todo. Aqui, o objetivo é sair aos poucos do mundo material, mesmo que seu corpo permaneça nele. As pessoas comuns passam o dia fazendo coisas, mas, no fundo de seu ser, o budista volta sua atenção para o não-agir. O não-agir não é a passividade e sim um estado de abertura a todas as possibilidades. Somente quando não se está pensando em ‘nada’ é que se pode pensar em ‘tudo’. (1) A experiência é mística não porque seja obscura ou confusa, mas por ser espontânea e ‘direta’ e se processar em nosso interior. Por ser subjetiva e impossível de se colocar em um tubo de ensaio ou sob a lente de um microscópio, é impossível também ser mensurada, quantificada e objetivada para satisfazer a “ciência” materialista. Se eu praticar o não-agir o que de fato farei? Ainda parece paradoxal. A terceira maneira nos mostra o lado mais enigmático de Buda. Como é possível livrar-se do eu individual quando ele é a única coisa que conhecemos? De início o processo nos parece assustador, porque não há nenhuma garantia. Assim que alcançamos a “morte do ego”, como costumamos chamá-la, o que resta? Com a morte do ego podemos nos iluminar (nos transformar em puro espírito e atingir a sabedoria transcendente). Porém as pessoas consideram o caminho budista difícil porque requer que reavaliem tudo o que poderia levá-las a progredir na vida - dinheiro, posses, status e realizações - e que vejam todas essas coisas como fonte de sofrimento. Por exemplo, ter dinheiro não causa diretamente o sofrimento, mas nos prende à ilusão ao ocultar o fato de que existe outra maneira de viver que é verdadeiramente real. O dinheiro, como os bens materiais e o status, cria um ciclo que traz um desejo atrás do outro. Então a iluminação é o mesmo que não ter nenhum desejo? É preciso entender a ausência de desejos de uma maneira positiva, como uma realização. No momento em que um músico toca seu instrumento, ele está num estado de não-desejo, porque se sente realizado. No momento em que estamos desfrutando de uma refeição, a nossa fome se satisfaz e nos sentimos realizados. Buda ensinou que existe um estado, conhecido como Nirvana, onde o desejo é irrelevante. Tudo aquilo que o desejo tenta atingir já existe no Nirvana. Não é preciso perseguir um desejo atrás do outro numa busca inútil para cessar o sofrimento. Em vez disso, a pessoa vai até à fonte do ser, que não está repleta nem vazia. Ela somente é. E depois disso a pessoa ainda deseja viver? O Nirvana não tem mais a ver com a vida e a morte. Buda queria libertar as pessoas de todos os opostos (bem e mal; positivo e negativo; imanente e transcendente etc) Se você seguir seus ensinamentos por meio da segunda via, através da moral e da ética, então ser bom, honesto, pacífico e compassivo é importante. Não é aconselhável adotar o comportamento oposto. Mas se você seguir Buda pela terceira via, o caminho místico do não-agir, a dualidade é exatamente aquilo que você tentará anular. A pessoa vai além do bem e do mal, o que pode ser assustador para muitas pessoas. O que é o não-eu? É quem somos quando não há nenhum apego pessoal. Isso pode parecer enigmático, mas não devemos nos distrair pelo sentido das palavras. O não-eu é natural, está baseado na experiência do dia-a-dia. Quando acordamos pela manhã, existe um momento antes que nossa mente se encha com as coisas que teremos de fazer naquele dia. Nesse momento existimos sem um eu. Não pensamos sobre nosso nome ou nossa conta bancária; nem mesmo sobre nosso cônjuge ou nossos filhos. Simplesmente somos. A iluminação prolonga esse estado e o aprofunda. Nunca mais sentimos o fardo de termos que nos lembrar de quem somos. Quando acordo de manhã, eu me lembro quase imediatamente de quem sou. Como isso pode mudar? Ao mudar gradualmente suas prioridades. Vejamos, por exemplo, o modo como nos relacionamos com nosso corpo. Quase nos esquecemos que temos um corpo. Os batimentos cardíacos, o metabolismo, a temperatura, o equilíbrio de eletrólitos - são literalmente dezenas de processos que ocorrem automaticamente, e nosso sistema nervoso os coordena de maneira perfeita, sem interferência da mente consciente (sem nenhuma necessidade do eu/ego). Buda sugere que podemos nos desapegar de coisas que acreditamos precisar controlar. Em vez de concentrar tantos esforço em pensar, planejar, buscar o prazer e evitar a dor, podemos nos entregar, e também colocar tais funções num modo automático. Chegamos a isso gradualmente, por meio de uma prática chamada plena atenção. Quer dizer que simplesmente paro de pensar? Você pára de se dedicar ao pensamento, porque Buda ensina que, de qualquer modo, não temos controle sobre nossa mente. A mente é uma série de eventos efêmeros e passageiros, e tentar fundamentar-se em algo transitório é uma ilusão. O tempo é exatamente a mesma coisa: uma seqüência de eventos efêmeros que não tem uma base sólida. Assim que absorvemos esse ensinamento, o colocamos em prática por meio da atenção. Sempre que nos sentirmos tentados pela ilusão, devemos nos lembrar (através da 2ª atenção) de que ela não é real. De certo modo, um termo mais correto seria “re-atenção”. O processo da mudança de foco da consciência leva tempo. É uma evolução, não uma revolução. Todos somos atraídos pela tentação de escolher entre A e B. A dualidade nos faz acreditar que tomar boas decisões e evitar as ruins é tudo o que importa. Buda não concorda com isso. Ele diz que distanciar-se da dualidade é o que importa e que jamais escaparemos se continuarmos nos aprofundando no jogo do “A-ou-B?”. A realidade não é A ou B. É ambos e nenhum ao mesmo tempo. A plena atenção nos traz a consciência disso. Como devo entender “é ambos e nenhum ao mesmo tempo”? Não é possível entender isso, não com a mente. A mente é basicamente uma máquina que processa o mundo somente em termos de “quero isso” e “não quero aquilo”. Buda ensinou que podemos nos afastar do mecanismo e simplesmente observá-lo funcionar. Testemunhamos assim a fantástica confusão de desejos, medos, vontades e memórias que é a mente. Quando ganhamos prática com a meditação, as coisas se transformam. Começamos a ter consciência de nós mesmos de maneira mais simples, sem tanta confusão mental. Com o tempo, nossas prioridades mudam, e o espaço entre os pensamentos - o intervalo silencioso - é o que domina e não os pensamentos. Isso é o Nirvana? Não, é só um sinal de que você está sendo bem-sucedido na prática da plena atenção. O intervalo silencioso entre os pensamentos é rápido demais para que possamos viver nele. É preciso dar a esse intervalo uma chance de expandir-se e, ao mesmo tempo, deixar o silêncio se aprofundar. Talvez isso possa soar estranho, mas a nossa mente pode ficar em silêncio durante todo o tempo em que estiver pensando. Via de regra, o silêncio e o pensamento são considerados opostos, mas, quando estamos além dos opostos, eles se fundem. Nós nos identificamos com a fonte atemporal de pensamento e não com os pensamentos que dela surgem. E que vantagens isso traz? Supondo-se, claro, que eu dedique meu tempo a atingir tal estado. Podemos falar das vantagens em termos apaixonados que parecem muito atraentes. Atingimos a paz. Não sofremos mais. A morte não causa mais medo. Assumimos um controle inabalável de nosso próprio Ser. Na realidade, as vantagens são bastante individuais e surgem em seu próprio ritmo. Cada um de nós está num estado diferente de ‘irrealidade’, que é bastante pessoal. Posso ser obcecado, enquanto outra pessoa é ansiosa e uma terceira deprimida. Na meditação, esses nós de discórdia e conflito começam a se desfazer espontaneamente, propiciando um desdobramento evolutivo. De uma forma pessoal, trilhamos o caminho em direção à paz, à ausência de sofrimento e de medo, bem como de tudo o mais que Buda exemplificou. Vista de fora, essa terceira maneira de seguir Buda parece misteriosa, mas com o tempo ela se torna tão natural quanto respirar. O budismo sobrevive hoje e floresce em todo o mundo porque é aberto. Não é preciso obedecer a uma série de regras ou adorar Deus ou deuses. Tudo o que você precisa é olhar dentro de si e ansiar por se tornar uma pessoa simples, acordar e ser completa. O budismo considera que todos possuem ao menos um pouco dessa motivação. A plena atenção e a meditação formam a base da prática budista - embora cada escola e cada mestre tenham um ponto de vista sobre isso. Za-zen (meditação sentada) da escola Zen, o tipo de meditação budista praticada no Japão, não é a mesma coisa que a meditação Vipasana do Sul da Asia. Mas, no final das contas, o budismo é um projeto “faça você mesmo”, e esse é o segredo do seu sucesso no mundo moderno. Não é verdade que todos nos concentramos no sofrimento pessoal e também pensamos sobre nosso destino individual? Buda não pediu nada além disso como ponto de partida da jornada, mas prometeu que o final seria a eternidade. As primeiras palavras de Buda após atingir a iluminação foram: “Estão abertos os portões da imortalidade. Foi encontrada a libertação da morte”. A iluminação foi só o começo da ascensão de Buda, espetacular segundo todos os parâmetros. O budismo causou um terremoto na vida espiritual da Índia, destruindo os privilégios da casta brâmane e dando direito até mesmo aos desprezados intocáveis de alcançar a dignidade espiritual. Buda invadiu os templos como uma ventania e, com a simplicidade de um gênio, reduziu a condição humana a uma única questão primordial: o sofrimento. Se o sofrimento é algo constante na vida de todos, dizia ele, então, até que finalmente cesse, não há sentido em ser iluminado. Da mesma maneira, não faz sentido falar em Deus ou nos deuses, no céu ou no inferno, em pecado ou redenção, na alma e em todo o resto. Essa foi uma reforma severa e muitos de seus ensinamentos encontraram resistência. As pessoas queriam Deus, Buda recusava-se até mesmo a discutir a existência de Deus. Negava veementemente que ele mesmo fosse divino. As pessoas queriam o conforto dos rituais e das cerimônias. Buda evitava as cerimônias. Queria que cada indivíduo olhasse para dentro de si e encontrasse a liberdade por meio de uma jornada pessoal que começava no mundo físico e terminava no Nirvana, um estado de consciência pura e eterna. O Nirvana está presente em todos, ensinava ele, mas é como um lençol de água límpida que corre debaixo do solo. Alcançar o Nirvana exige concentração, devoção e esforço constante. Não admira, então, que o chamado de Buda para o despertar se mostrasse ao mesmo tempo tão sedutor e tão difícil. O Caminho do Meio, que ganhou esse nome porque não era nem muito difícil nem muito fácil, provou-se atraente, mas a jornada até o Nirvana é solitária e a estrada que leva a ele não é nada convidativa. Tudo o que Buda ensinava é um desdobramento lógico da Primeira Nobre Verdade, que foi também uma das primeiras coisas que Buda disse aos cinco monges depois de ter se tornado iluminado: a vida contém o sofrimento. Os três ensinamentos seguintes se parecem mais com a psicoterapia moderna do que com a religião convencional: • PRIMEIRA NOBRE VERDADE: A vida contém o sofrimento. • SEGUNDA NOBRE VERDADE: O sofrimento tem uma causa, e a causa pode ser descoberta. • TERCEIRA NOBRE VERDADE: É possível acabar com o sofrimento. • QUARTA NOBRE VERDADE: O caminho que leva ao fim do sofrimento possui oito etapas. Esses quatro simples ensinamentos criaram uma explosão teológica que se espalhou pela Asia e pelo resto do mundo. Graças às décadas de ensinamento que receberam de Buda, um núcleo de discípulos totalmente dedicados ao modo de vida budista cruzou os Himalaias e viajou para onde quer que seus pés conseguissem levá-los. A lista das culturas que esses monges ascetas revolucionaram é impressionante: Tibete, Nepal, China, Japão, Coréia, Sri Lanka, Tailândia, Camboja, Burma, Vietnã, Malásia e Indonésia, Em muitos casos, um punhado de missionários budistas criou toda uma nova cultura. Aos que observam de fora só resta uma absoluta admiração. Por que as pessoas aceitaram tais ensinamentos tão prontamente? Porque a Primeira Nobre Verdade era inegável. As pessoas sabiam que estavam sofrendo, e, em vez de mostrar uma saída, suas antigas religiões lhes ofereciam paliativos, na forma de dogmas, preces, rituais e afins. Com enorme simplicidade, o budismo entrava num vilarejo e dizia: “Aqui estão oito práticas que abrirão as portas para a paz em vez da dor.” O Caminho Octuplo pede que cada pessoa modifique o modo como sua mente funciona, eliminando tudo o que for errado, ineficiente e supersticioso e trocando esses hábitos arraigados por uma clareza cada vez maior. Em outras palavras, o processo de despertar, que Buda experimentou numa única noite, é estabelecido como um processo para a vida inteira: • Visão ou entendimento corretos • Intenção correta • Linguagem correta • Ação correta • Modo de vida correto • Esforço correto • Atenção correta • Concentração correta Alguns desses passos soam naturais. Todos queremos acreditar que nossas ações e palavras são virtuosas. Não desejamos estar errados em nossos esforços nem em nossas intenções. Mas, para compreender os outros elementos do caminho, precisamos de ajuda. O que seria a atenção correta? E a concentração correta? Tais aspectos têm raízes nas práticas de meditação da ioga, que Buda também reformou e deixou ao alcance das pessoas comuns. Ao contar essa história (s/ Buda), não achei que fosse minha função difundir o budismo. isso cabe aos equivalentes modernos dos andarilhos missionários que pregaram no princípio. Não seria conveniente que eu entrasse no território deles. Mas gostaria de me dirigir a você, leitor, que talvez esteja pela primeira vez em contato com Buda. Eu cheguei a Buda dessa maneira e fiz a pergunta, óbvia: o que esse ensinamento pode fazer por mim? Existe algo que possa abrir meus olhos e me tornar mais desperto neste exato instante? Pessoalmente, descobri três coisas. Elas são conhecidas como os três selos do darma, o que, em linguagem mais simples, significa os três fatos básicos do ser. Fizeram sentido para mim por causa da sua universalidade, que vai muito além dos limites da religião. 1. DUKKHA A vida é insatisfatória. O prazer no mundo físico é passageiro. Disso inevitavelmente vem a dor. Portanto, nada que possamos experimentar é totalmente satisfatório. Não há um local de descanso em meio à mudança constante. 2. ANICCA Nada é permanente. Toda experiência é varrida pelo fluxo das coisas. O ciclo de causa e efeito é infinito e confuso. Portanto, não é possível alcançar a clareza ou a permanência. 3. ANATTA O eu separado e distinto é inconsistente e, em última análise, irreal. Usamos palavras como alma e personalidade para designar algo que é transitório e efêmero. Nossas tentativas de tornar o eu real nunca chegam ao fim, mas também nunca dão certo. Portanto, em busca de segurança, apegamo-nos a uma ilusão. Ao ler tais coisas, é possível não se sentir profundamente abalado? Buda não foi apenas um mestre bondoso que queria que as pessoas encontrassem a paz. Ele foi um cirurgião radical que as examinava e dizia: “Não me admira que você se sinta doente. Todas essas coisas irreais tomaram conta de você. Agora é preciso livrar-se delas.” Naturalmente, muitos dos que o ouviam retornavam à religião convencional, assim como ao materialismo, que afirma que o corpo, a mente e o mundo físico são absolutamente reais. Por que devemos aceitar a palavra de Buda, de que tais coisas não são reais? Essa é a questão crucial. Não é muito desafiador aceitar que a vida é feita de sofrimento, e é só um pouco provocante aceitar que o fluxo das coisas e as mudanças criam a insatisfação. São dois fatos que parecem psicologicamente evidentes. Mas aceitar que o mundo inteiro e todos dentro dele são uma ilusão? Esse é um enorme desafio e requer uma mudança completa da consciência para vencê-lo. A palavra ilusão tem diversos significados, alguns dos quais muito atraentes. Por exemplo, a ilusão de que, quando nos apaixonamos, esse sentimento irá durar para sempre. A ilusão de que jamais morreremos. Ou de que a ignorância traz a felicidade. Buda viu o perigo oculto nessas aparentes atrações. Ele raramente era rude ao falar, mas consigo imaginá-lo desfazendo tais sonhos cor-de-rosa: o amor acaba, todos morrem, a ignorância é tolice. Mas, se tivesse parado aí, Buda seria apenas mais um moralista maçante. Sua definição de ilusão era tão absoluta que quase nos gela o sangue. Tudo o que pode ser visto, ouvido e cheirado é irreal. Tudo a que nos apegamos como se fosse permanente é irreal. Tudo sobre o que a mente consegue pensar é irreal. Será que alguma coisa escapa dessa definição tão abrangente de ilusão? Não. Mas, quando nos recobramos desse choque, Buda declara que, com uma mudança de consciência, a realidade revela a si mesma. Não como uma coisa. Não como uma sensação. Nem mesmo como a sombra de um pensamento. A realidade é apenas ela mesma. É a base da existência, a fonte de onde todo o resto se projeta. Em termos bem básicos, o budismo troca um mundo de projeções infinitas pelo estado único de ser. Uma liberdade tão completa que não precisa pensar em liberdade nem dizer seu nome. O que nos traz ao motivo oculto por que decidi escrever um livro sobre a vida de Buda. Ao contar sua história sob sua ótica (no começo, imaginava que o título seria Eu, Buda), pude seguir cada passo que levou Sidarta a parar de acreditar no mundo. Sua trajetória não é, na verdade, a de um príncipe de romances, um monge sofredor ou um santo triunfante. Sidarta acordou para a verdade, o que parece inspirador, mas neste caso a verdade destruiu todo o seu eu. Ela subverteu cada crença, purificou cada sentido e trouxe total clareza à confusão da mente. Em suma, este livro é um tipo de sedução que atrai o leitor passo a passo para uma visão que nenhum de nós foi educado a ter. Pelos olhos de Buda, a raiz do sofrimento é ilusão, e a única saída é parar de acreditar no eu e no mundo que o sustenta. Nenhuma mensagem espiritual jamais foi tão radical. Nenhuma continua sendo tão urgente e necessária. Nós somos as únicas criaturas do planeta que podem modificar a própria biologia através dos pensamentos, sentimentos e intenções. As nossas células estão constantemente espionando os nossos pensamentos e sendo modificadas por eles. Quando nos apaixonamos, pensamentos positivos percorrem o nosso corpo e fortalecem nosso sistema imunológico. Por outro lado, pensamentos sombrios e sentimentos depressivos podem nos deixar vulneráveis a doenças. Ao longo das últimas três décadas, centenas de estudos mostraram que nada possui mais poder no corpo do que as crenças da mente. Esta é a visão de mundo quântica (energia sutil, subatômica), que nos ensina que todos somos parte de um ‘campo infinito de inteligência’ – a fonte dos nossos pensamentos, mente, corpo e tudo o mais no universo. Este paradigma, que tem conquistado aceitação crescente no mundo da medicina Ocidental moderna, se baseia nas dez concepções seguintes: 1 – O mundo físico, incluindo o nosso corpo (tudo que podemos ver, tocar, ouvir, cheirar, degustar), é um reflexo das nossas percepções, pensamentos e sentimentos. Não há nenhuma realidade objetiva/concreta “lá fora” que é independente do observador. Ao contrário, nós criamos nossos corpos conforme criamos nossa experiência do mundo. 2 – Apesar do corpo físico parecer matéria sólida, na verdade ele é composto de energia e informação. Os físicos quânticos nos dizem que todo átomo é 99.9999% espaço vazio, e as partículas subatômicas se movendo à velocidade da luz neste espaço são pacotes de energia vibrante. Essas vibrações não são aleatórias ou caóticas, elas transportam informações ao longo de padrões específicos. 3 – A mente e o corpo são inseparáveis. Existe somente uma Única Inteligência Criativa que expressa a si mesma na ‘forma’ de nossos pensamentos – assim como na ‘forma’ de moléculas das nossas células, tecidos e órgãos. 4 – A nossa consciência cria a bioquímica do nosso corpo. As nossas crenças, pensamentos e emoções direcionam as reações químicas que ocorrem em cada célula do corpo. 5 – Percepção é um fenômeno aprendido. A maneira como experimentamos o mundo e o nosso corpo é um comportamento aprendido. Mudando as nossas percepções, nós podemos mudar a experiência do nosso corpo e mundo. 6 – A todo momento, impulsos de inteligência estão criando nosso corpo. Modificando os padrões desses impulsos, nós podemos nos modificar. 7 – Apesar de que para a nossa mente-ego, nós parecemos separados e independentes, nós todos somos parte de uma Inteligência Universal que governa o cosmos. 8 – O tempo não é absoluto. O que chamamos de tempo linear é simplesmente um reflexo de como percebemos as mudanças. Na verdade, o tempo é eterno e imutável. Se começarmos a perceber a imutabilidade, o tempo como conhecemos deixará de existir e iremos experienciar a imortalidade. 9 – A nossa natureza essencial é puro ser. Embora estejamos acostumados a nos ver como personalidade, ego e corpo, o nosso verdadeiro Self (”si-mesmo”) é eterno e ilimitado. 10 – Já que nossa essência é imortal e imutável, nós não precisamos ser vítimas do envelhecimento, doença e morte. Isso é causado pelas lacunas em nosso autoconhecimento e pela ilusão antiga de que nossos corpos são materiais. Como a Ayurveda ensina, qualquer desordem pode ser prevenida se mantivermos o equilíbrio em nosso corpo, mente e espírito. Estas podem parecer grandes concepções, mas elas estão fundamentadas nas descobertas da moderna física quântica. Eu quero encorajá-lo (a) a ver que você é muito mais do que seu limitado corpo, ego e personalidade. Em um nível mais profundo, o seu corpo é eterno e a sua mente é atemporal. Uma vez que você se identifique com esta realidade, você tem liberdade ilimitada para criar uma melhor saúde, alegria e qualquer outra coisa que você deseje em seu mundo. |
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