| Potencialidade e Realidade no Hindu�smo e no Budismo | ||||||||
| Quando os Upanishads dizem �Este � voc�, a �nfase n�o est� na palavra �� � no sentido de que �voc� e �este�, isto �, o indiv�duo e seu meio, sejam id�nticos, mas sim que ambos est�o inseparavelmente ligados um ao outro, assim como o p�lo negativo e o positivo da mesma for�a ou da mesma realidade. Se afirm�ssemos que ambos s�o o mesmo, seria tanto uma viola��o da verdade como se afirm�ssemos que s�o duas coisas totalmente diferentes, que n�o t�m nada a ver um com o outro: eles t�m uma raiz comum; n�o s�o a express�o da mesma realidade, do mesmo fluxo de vida e de consci�ncia (ou deveria dizer melhor: da �vida consciente, que se insinua por todo o universo?�).
Reconhecer a si pr�prio em outro (como Buda expressou certa vez com convic��o) n�o significa de modo algum que neguemos o fato e o significado da individualidade; esta � uma condi��o necess�ria da consci�ncia atual, assim como da vida org�nica. Significa, pelo contr�rio, salientar a origem comum e a unidade essencial de tudo o que vive. No entanto, unidade n�o significa igualdade. Unidade pressup�e diversidade, e essa diversidade e diferencia��o s�o t�o importantes quanto a concep��o de unidade ou totalidade. Quando impomos a unidade � realidade �nica, degradando assim a diversidade a um estado ilus�rio, exageramos em abstra��es desp�ticas e adulteramos o car�ter do universo, assim como de toda a vida. Essa tend�ncia universal era a da realidade �nica ou absoluta ser imaginada na forma (ou �n�o-forma�) do brahman universal, tend�ncia essa que adulterava as id�ias e textos vivencialmente corretos e poeticamente belos dos Upanishads em uma mera doutrina intelectual da filosofia abstrata Advaita, em que o indiv�duo � reduzido a uma simples evolu��o incorreta do universo. Pode haver algo como uma �realidade em si�? N�o ser� justamente a id�ia de �realidade absoluta� uma mera abstra��o que parte do ing�nuo pressuposto de uma subst�ncia imut�vel, de uma �coisa em si�? �Real� significa que �algo realmente existe como uma coisa�; deriva da palavra latina res, que literalmente significa objeto, coisa. Desde que a ci�ncia revelou que por tr�s dos fen�menos que constituem nosso mundo n�o h� mat�ria para ser descoberta � que por tr�s da mat�ria mais s�lida n�o existe nada al�m de campos energ�ticos imateriais que se movimentam com velocidade inimagin�vel e que, por vezes, se moldam em formas diversas de maior ou menor dura��o �, toda a no��o de realidade mostrou-se como uma contempla��o � qual s� chega um car�ter de realidade relativa. Existe �gua em estado s�lido, l�quido e gasoso: como gelo, vapor, como nuvens, umidade do ar e assim por diante. Podemos afirmar que gelo � mais real que �gua ou �gua mais real que vapor ou nuvens? Ou que �tomos de hidrog�nio e oxig�nio s�o mais reais que as formas de H20 acima mencionados? Realidade �, por conseguinte, um conceito relativo e a �realidade final� � uma mera representa��o abstrata. Onde n�o h� forma n�o h� realidade, no sentido de uma determinada realidade. A realidade de um �tomo se manifesta na forma de sua movimenta��o, na velocidade de seus el�trons e em suas dist�ncias do n�cleo at�mico. Velocidade e dist�ncia, no entanto, conduzem a uma viv�ncia espa�o-temporal. N�o pode haver nenhum �espa�o em si�, assim como tamb�m n�o h� nenhum �movimento em si�, isto �, sem ponto de refer�ncia ou algum tipo de rela��o. Ent�o o discurso de �realidade absoluta�, � um simples jogo de palavras! �Realidade absoluta� n�o significa nada, n�o tem rela��es e n�o pode, de modo algum, ser conhecida � n�o pode desempenhar qualquer fun��o, nem no contexto religioso nem no meditativo. Buda, que n�o tinha interesse algum por especula��es filos�ficas e metaf�sicas, mas somente pelas realidades do esp�rito humano que pudessem ser experimentadas, nunca mencionou a id�ia do brahman universal. Falarmos dos princ�pios da universalidade e da individualidade � bem diferente de falarmos de dois p�los da mesma realidade que se condicionam mutuamente de modo que um n�o possa ser experimentado sem o outro e ambos sejam equivalentes. A universalidade � insignificante como tal, at� que seja experimentada no individual, assim como a individualidade n�o tem sentido at� que se relacione com algo que esteja fora dela pr�pria. N�o h� �eu� sem um �ele�. Mas, enquanto n�o experimentarmos isto com todo nosso ser, n�o o teremos efetivado, mas pura e simplesmente aceito uma dedu��o l�gica ou intelectual. � realmente um �xito converter uma reflex�o racional em experi�ncia direta e, j� que esta n�o refor�a nossa sensa��o de seres distintos mas, pelo contr�rio, nos faz sentir unos com o nosso meio e com nossos semelhantes, ela n�o nos conduz � arrog�ncia espiritual, mas sim � humildade. Quando se diz que tal experi�ncia n�o pode ser produzida por nenhum esfor�o de nossa parte, mas que nos cai no colo como uma d�diva dos deuses, ou, em outras palavras, que � um acontecimento involunt�rio, espont�neo, devemos ent�o mostrar que trabalho �rduo e esfor�o ou pr�tica cont�nua s�o as condi��es pr�vias para tal, que preparam a base para a capacidade de receber e integrar criativamente este acontecimento fulminante. O que � medita��o e, ainda mais, contempla��o, sen�o aquele estado de receptividade em que eliminamos tudo o que nos incomoda e comprime, em que colocamos a n�s pr�prios em uma situa��o intuitiva � em uma atitude �ntima em que estamos prontos antes a ouvir do que a argumentar, antes a ser impressionados do que a impressionar? Assim como uma semente que cai em um solo est�ril morre, tamb�m morrer� sem deixar vest�gio a inspira��o ou intui��o que se depare com um esp�rito despreparado, caso contr�rio poderia transformar- se em uma faculdade criativa da alma humana. Esta � uma transforma��o em uma vis�o vivificante, que encontra sua express�o em s�mbolos e pensamentos criativos, como, por exemplo, na poesia ou pintura, na m�sica ou dan�a, na escultura ou arquitetura: em poucas palavras, naquele que concede forma ao que n�o tem forma, limites ao ilimitado, personifica��o do imaterial. Pois somente atrav�s da forma podemos tornar vis�vel o imaterial, somente com palavras podemos indicar o que est� oculto por tr�s das mesmas e s� podemos mostrar o ilimitado atrav�s da limita��o, j� que nenhuma for�a espiritual pode se tornar ativa se n�o se personificar. Por isso, � mais importante materializar o esp�rito do que espiritualizar a mat�ria. Esta �ltima � um tanto quanto sup�rflua, visto que aquilo que chamamos �mat�ria� � mais espiritualizado do que admitimos. A mat�ria �, por fim, uma forma condensada de energia c�smica que � comparada com o vazio infinito do espa�o � � um dos fen�menos mais raros e grandiosos do universo. Mas, simultaneamente, essa mat�ria � tamb�m um pressuposto e a conditio sine qua non para a consci�ncia individualizada e focada em que o universo se conscientiza de sua pr�pria exist�ncia. Embora nenhuma intui��o (e muito menos um estado de inspira��o) possa ser provocada intencionalmente, � certo que a intui��o ganha for�a e pode se manifestar mais facilmente atrav�s da pr�tica constante de todas as nossas aptid�es. Mas tal pr�tica s� � poss�vel at� aquele grau de sensibilidade espiritual e capacidade de adapta��o onde estes reajam ao m�nimo impulso. Somente assim se realiza a capacidade de transportar e transformar intui��es em express�es criativas, de modo que o impulso original pode nisto desdobrar suas virtudes inerentes em um cont�nuo processo de transforma��o e crescimento, compar�vel ao processo de crescimento e desdobramento da semente de uma planta. Forma (ou a produ��o de uma forma) n�o pode, portanto, ser entendida como �solidifica��o� ou �endurecimento� de intui��o o e inspira��o, compar�vel a um estado de cristaliza��o. Forma e molde s�o antes um ponto de partida para um amplo processo de transforma��o na dire��o pretendida do que uma corrente org�nica viva permanentemente em expans�o de energia da consci�ncia. A inspira��o n�o � somente um dom, mas algo que pode ser desenvolvido. Essa afirma��o foi corretamente expressa nas palavras de um cr�tico musical ingl�s: �O grande compositor n�o trabalha porque est� inspirado, mas inspira-se porque trabalha. Beethoven, Wagner, Bach, Mozart debru�avam-se dia ap�s dia sobre seu trabalho com a mesma regularidade com que um contador debru�a-se dia ap�s dia sobre seus n�meros. N�o desperdi�avam tempo esperando por sua inspira��o�. (Ernest Newman.) Mas mesmo quando a inspira��o � uma d�diva dos c�us ou uma gra�a de Deus, n�o podemos receber ou fazer uso de tal dom se n�o estivermos preparados e se n�o nos abrimos para o seu recebimento. No podemos aceitar um dom com o punho cerrado, e uma d�diva n�o nos �til se n�o soubermos como utiliz�-la. A sabedoria e compaix�o de Buda e dos bodhisattvas ser�o oferecidas com muita liberdade a todas as criaturas sens�veis (assim como a gra�a divina, de que falam outras religi�es). Mas s� podem lucrar com isso aqueles que t�m qualifica��o para receb�-las. Somente quando a flor se abrir sol � que poder� receber seus raios agrad�veis. N�o � o m�rito ou o desmerecimento que decidem se uma criatura � ou n�o digna da gra�a, mas a maturidade e a boa vontade de receb�-la com humildade. Este � o motivo porque �o pecador est� mais pr�ximo dela do que o presun�oso�. Maturidade � o fruto da experi�ncia acumulada. Aqueles que parecem ter nascido com a auto-realiza��o (como Ramana Maharshi, o grande santo hindu de nossa era) ou ter talento repentino, provavelmente alcan�aram essa maturidade atrav�s da experi�ncia de diversas exist�ncias anteriores. Essas experi�ncias n�o precisam ser necessariamente conseq��ncia de um esfor�o consciente para alcan�ar a ilumina��o ou a auto-realiza��o; podem muito bem ser o resultado de um sofrimento profundo, o que pode ser, assim como uma grande alegria ou felicidade, uma gra�a divina disfar�ada. Mas somente aqueles que aceitam humildemente tal sofrimento podem transform�-lo em uma for�a libertadora � em uma b�n��o. Essa foi uma das maiores descobertas do budismo mahayana, cujos adeptos n�o tentaram fugir do sofrimento quando voltaram suas costas ao mundo (e ambicionaram o caminho mais curto poss�vel para sua pr�pria salva��o), mas modificaram suas coloca��es e disseram: �prefiro tomar todo o sofrimento do mundo para mim a abandonar meus semelhantes em favor da minha pr�pria felicidade. Meu esfor�o pela liberta��o e ilumina��o deve abranger todos os que sofrem�. Pode parecer paradoxal: a aceita��o do sofrimento � justamente o caminho mais curto para a sua domina��o. Quando o aceitamos em seu aspecto universal, compartilhando-o com nossos semelhantes, considerando como nossos pr�prios os seus sofrimentos e, conseq�entemente, tamb�m suas alegrias, n�o s� diminu�mos o interesse por nossos assuntos pessoais, mas os encaramos agora sob uma perspectiva ampliada, que nos liberta da pris�o do nosso eu, despertando as virtudes positivas do amor e da compaix�o. Gra�a divina e esfor�o pessoal completam-se e condicionam-se mutuamente. N�o s�o dois caminhos distintos da salva��o, mas dois fatores igualmente importantes da vida espiritual. Visto que n�o existe um Eu independente � isto �, nenhum Eu que possamos separar da nossa intimidade, do mundo onde ele vive e de que ele � pr�ximo �, a pr�pria for�a e a for�a de outra s�o complementares, como o s�o o lado direito e o esquerdo de uma mesma coisa. Nunca podemos separar uma da outra. Temos a d�diva do Dharma de Buda e a ben��o de receber o que ele transmitiu, mas essa d�diva n�o ter� utilidade enquanto n�o praticarmos o Dharma e o tornarmos real em n�s mesmos e em nossas vidas. Se algu�m diz: �O Eu, o atman, � a divindade, � brahman. Foi sempre assim, desde o princ�pio. Tua tentativa de torn�-lo real � sin�nimo de que tu o repudias, de que rejeitas a d�diva enquanto ignoras a realidade subsistente�, temo que esteja brincando com meras palavras ou que esteja considerando o dedo, com o qual aponta a lua, como a pr�pria lua. Originalmente empregava-se atman como o sopro da vida (o que corresponde � palavra alem� atem e � grega pneuma). Ent�o ele determina aquela for�a universal que inspira e preenche com vida o indiv�duo e o transpassa com o fluxo ininterrupto da inspira��o e da expira��o. Assim, atman une o indiv�duo � vida maior, tornando consciente nele essa vida universal de que ele se origina. Podemos alcan�ar e possuir esta for�a e este sopro vivo do universo tanto como podemos capturar e carregar um rio com um balde. Equiparar o atman com o Eu � mesmo que seja como met�fora po�tica � cria por conseguinte um grande mal-entendido: que o indiv�duo seja o mesmo que brahman, a totalidade do universo ou a divindade, e assim por diante. O fato de n�o podermos mover os corpos celestes como movemos nossos membros deveria nos ensinar que (tanto quanto nos sentimos tamb�m como uma express�o do universo do qual nascemos) essa universalidade essencial e potencial do nosso ser mais �ntimo se iguala � focaliza��o da luz do sol atrav�s de uma lente, que (embora re�na todas as qualidades do sol em si) n�o � o pr�prio sol. O caminho da nossa universalidade potencial at� a experi�ncia verdadeira dessa universalidade pode ser longo ou curto, embora somente um fio de cabelo possa estar nos separando desta experi�ncia. O todo � compar�vel � situa��o de um homem pobre, em cuja casa � talvez diretamente sob seus p�s � est� escondido um tesouro. Enquanto ele n�o estiver consciente desse fato, continuar� um homem pobre, ainda que o tesouro esteja a seu alcance. Se n�o sabemos de um tesouro escondido, nem temos vontade de eliminar os obst�culos que dele nos separam, nunca poderemos desenterr�-lo. Enquanto estivermos apegados a id�ia de um Eu � em que � Indiferente se o encaramos como realidade ps�quica ou metaps�quica, ou como mero ponto de refer�ncia em um sistema de rela��es psicol�gicas ou filos�ficas, algo como a rela��o entre centro e periferia � criaremos um grande e desnecess�rio mal-entendido. Por esse motivo Buda desinteressou-se da id�ia de um atman. Pois, nesse �nterim, atman perdera seu significado din�mico original e encontrava-se degradado a uma abstra��o metaf�sica entorpecida. Buda substituiu assim o conceito de atman pelo conceito de Anatta, partindo do fato de que n�o existe realidade na forma de Eus � e de que nada no mundo pode existir a partir de si mesmo ou em i mesmo. Todas as formas de vida, todas as coisas e todos os fen�menos s�o dependentes entre si, relacionam-se uns com os outros e est�o t�o mutuamente entrela�ados que o indiv�duo se torna um ponto de intersec��o de todas as linhas de for�a que se cruzam, de todo o universo. O caminho de Buda � transformar a potencialidade de nossa natureza universal em realidade atuante, isto �, convert�- la em uma experi�ncia viva. Enquanto n�o apercebermos dessa universalidade, permanecemos prisioneiros da ess�ncia da nossa personalidade, embora possuamos a potencialidade de conseguir a ilumina��o. Potencialidade n�o �, de forma alguma, equivalente a realidade e, ainda que digamos �Voc� � Buda� ou �Voc� � brahman�, isso n�o nos transformar� em Buda ou na personifica��o do universo. � s� uma express�o po�tica para: �este � o seu verdadeiro ser, sua potencialidade�. Enquanto voc� n�o a tiver realizado, continuar� como aquele homem pobre que se senta sobre seu tesouro, sem ter consci�ncia disto. Extra�do do livro "Reflex�es Budistas", do Lama A. Govinda, ed. Siciliano |
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