O Significado de "Insight", Conhecimento e Sabedoria no Budismo
Em contraste com as religi�es baseadas em improv�veis artigos de f�, a base do budismo � o entendimento. Esse fato iludiu alguns observadores ocidentais que pensavam no budismo como uma doutrina puramente racional que pode ser compreendida em termos apenas intelectuais. No entanto, o entendimento no budismo significa um insight na natureza da realidade e sempre o produto de experi�ncia imediata.

Come�ando com a experi�ncia do sofrimento como um axioma prim�rio, v�lido universalmente, o budismo adota o ponto de vista de que somente aquilo que foi experimentado, e n�o o que se pensou, tem valor de realidade. Desta maneira, o Buda-Dharma prova que � uma religi�o genu�na, mesmo que n�o solicite revela��es n�o-provadas advindas de um dom�nio sobrenatural como os adeptos de uma religi�o normalmente t�m que aceitar.

Pr�ximo da virada desse s�culo, alguns hinduistas tentaram apresentar o budismo como um sistema filos�fico-moral amplamente baseado em considera��es psicol�gicas.

Mas o budismo � mais do que uma filosofia, porque n�o despreza a raz�o nem a l�gica, apenas as usa dentro da esfera apropriada. Tamb�m transcende os limites de qualquer sistema psicol�gico porque n�o est� confinado � an�lise e � classifica��o de for�as e fen�menos ps�quicos reconhecidos, mas ensina seu uso, transforma��o e transcend�ncia. O budismo tamb�m n�o pode ser reduzido a um sistema moral v�lido para o tempo todo ou como "um guia para fazer o bem", pois penetra uma esfera que transcende todo o dualismo e est� estabelecida em uma �tica que sai do entendimento mais profundo e da vis�o interior.

Assim, poder�amos dizer que o Buda-Dharma �, como experi�ncia e como caminho para a realiza��o pr�tica, uma religi�o; como a formula��o intelectual dessa experi�ncia, uma filosofia, e como resultado da an�lise sistem�tica, uma psicologia. Quem trilha esse caminho adquire uma norma de comportamento que n�o vem por imposi��o externa, mas � resultante de um processo de amadurecimento interior que podemos observar de fora, chamar de moralidade. Mas essa moralidade no Budismo n�o � tanto o ponto de partida - como em muitas outras religi�es - quanto o resultado de uma experi�ncia religiosa que produziu tal mudan�a decisiva em nosso ponto de vista que come�amos a ver o mundo com novos olhos.

Por essa raz�o, Buda n�o colocou no in�cio da Nobre Senda �ctupla uma mudan�a em nosso modo de vida e comportamento, mas a vis�o controlada de mundo em n�s e com rela��o a n�s mesmos; pois s� assim conseguimos conquistar um insight sem preconceitos sobre a natureza da exist�ncia e das coisas, e ent�o, atrav�s da mudan�a em nosso ponto de vista, atingir uma reorienta��o completa para a nossa luta. Esse modo de observar as coisas � chamado em p�li samma ditthi, que os indologistas sempre traduzem como "vis�o correta" ou "opini�o".

Mas samma ditthi significa mais do que um mero acordo com algumas id�ias morais ou dogm�ticas preconcebidas. � uma maneira de ver que ultrapassa os pares de opostos dualisticamente concebidos de um ponto de vista unilateral, condicionado pelo ego. Samma significa o que � perfeito, inteiro, isto �, nem dividido nem unilateral; alguma coisa de fato, completamente adequada a todos os n�veis de consci�ncia.

Aquele que desenvolveu o samma ditthi �, portanto, uma pessoa que n�o olha as coisas de forma parcial, mas as v� de forma equilibrada e sem preconceitos, e que em objetivos, atos e palavras � capaz de enxergar e respeitar o ponto de vista dos outros tanto como o seu pr�prio. Pois Buda estava bem consciente da relatividade de todas as formula��es conceituais. N�o estava, portanto, preocupado em divulgar uma verdade abstrata, mas em apresentar um m�todo que desse capacidade �s pessoas para chegar � vis�o da verdade, isto �, experimentar a realidade. Assim, ele n�o apresentou uma nova f�, mas tentou libertar o pensamento das pessoas dos princ�pios dogm�ticos de forma a possibilitar uma vis�o da realidade livre de preconceitos.

Est� bem claro que ele foi o primeiro entre os grandes l�deres religiosos e pensadores da humanidade a descobrir que o que importa n�o � tanto os resultados finais padronizados, isto �, nosso conhecimento conceitual em forma de id�ias, confiss�es religiosas e "verdades eternas", ou na forma de "fatos cient�ficos" e f�rmulas, mas o que leva a esse conhecimento, o m�todo de pensamento e a��o.

A ado��o dos resultados do pensamento das outras pessoas - ou at� mesmo dos chamados "fatos simples", quando isso � feito sem senso cr�tico, geralmente � mais um obst�culo do que vantagem, porque coloca um bloqueio � experi�ncia direta e por isso pode se tornar um perigo. Dessa forma, uma educa��o que consiste inteiramente de um ac�mulo de conhecimentos e padr�es de pensamento j� prontos leva � esterilidade espiritual.

O conhecimento e a f� que perderam sua liga��o com a vida se transformam em ignor�ncia e supersti��o. O mais importante e o mais essencial � a capacidade para a concentra��o e para o pensamento criativo. Em vez de ter como objetivo a erudi��o, dever�amos preservar a capacidade para o aprendizado em si, e assim manter a mente aberta e receptiva.

Por outro lado, Buda jamais negou a import�ncia do pensamento e da l�gica; designou o lugar que ocupam e mostrou a seus disc�pulos a sua relatividade: a liga��o insol�vel pela qual o pensamento e a l�gica se encerram em um �nico sistema de interdepend�ncia e condicionalidade m�tuas.

H� uma admiss�o t�cita de que o mundo que constru�mos com o nosso pensamento � id�ntico ao mundo de nossa experi�ncia, na verdade ao mundo "tal como �". Mas, essa � uma das fontes principais de nossa vis�o err�nea daquilo que chamamos de "mundo". O mundo que experimentamos na verdade inclui o mundo dos nossos pensamentos, mas esse mundo nunca pode compreender totalmente aquele que experimentamos, porque vivemos simultaneamente em v�rias dimens�es, das quais o intelecto (ou a capacidade para o pensamento discursivo) � apenas uma delas.

Buda n�o procurava disc�pulos cegos que seguissem suas instru��es mecanicamente, sem entender suas raz�es ou necessidades. Para ele, o valor da a��o humana n�o est� no efeito aparente, mas no motivo, na atitude dessa consci�ncia da qual surgiu. Queria que seus disc�pulos o seguissem por causa de seu pr�prio insight na realidade acentuada pelo ensinamento, e n�o da simples f� na superioridade de sua sabedoria ou de sua pessoa. A �nica f� que esperava de seus alunos era a f� em seus pr�prios poderes interiores.

O que o mestre suscitou, portanto n�o foi a �nfase em um racionalismo frio, unilateral, mas a coopera��o harmoniosa de todos os poderes da psique humana, entre os quais a raz�o � o princ�pio da discrimina��o e do direcionamento.
O ensinamento do Buda come�a com a apresenta��o das Quatro Nobres Verdades. Mas, devido aos limites estreitos da consci�ncia individual, seu significado n�o pode ser percebido de forma completa quando se est� iniciando no Caminho. Se f�ssemos capazes de atingir isso, conquistar�amos a liberdade imediatamente e os passos seguintes seriam desnecess�rios.

Mas o simples fato do sofrimento e suas causas imediatas � algo que podemos experimentar em todas as fases da vida, de forma que um simples processo de observa��o e an�lise da experi�ncia de uma pessoa, ainda que limitado, � suficiente para convencer um ser pensante de que a tese do Buda � razo�vel e aceit�vel.

Da mesma forma, se o indiv�duo inicia seu caminho exigindo a "vis�o perfeita", isso n�o significa a aceita��o de um dogma em particular estabelecido para todo o tempo, ou de alguma cren�a ou artigo de f�, mas o insight imparcial e sem preconceitos na natureza das coisas e de todas as ocorr�ncias exatamente como s�o.

Samma ditthi, ent�o, n�o � uma simples aceita��o de algumas id�ias religiosas ou morais preconcebidas. Significa uma maneira cada vez mais perfeita e nunca unilateral de ver as coisas. Portanto, n�o � verdade que tantos problemas do mundo v�m principalmente do fato de todos verem as coisas a partir de seu pr�prio ponto de observa��o? N�o dever�amos, em vez de nos trancarmos a tudo que seja desagrad�vel e doloroso, encarar o fato do sofrimento e descobrir suas causas, fato este que est� em n�s e que conseq�entemente s� por n�s pode ser superado?

Se prosseguirmos dessa maneira, manifesta-se dentro de n�s a consci�ncia do objetivo grandioso, o objetivo do esclarecimento e da liberta��o, e tamb�m do caminho que leva a sua realiza��o. Samma ditthi � assim o experimentar, e n�o apenas a aceita��o intelectual das Quatro Nobres Verdades proclamadas por Buda. Somente a partir de tal atitude � que a decis�o perfeita que abrange toda a humanidade pode surgir, o que exige o compromisso da pessoa como um todo no pensamento, na palavra e na vontade, o que levar�, atrav�s da interioriza��o e penetra��o, � perfeita ilumina��o.
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