O Mundo e seu Significado
Com o progresso das ci�ncias neste s�culo, levantou-se novamente a quest�o da nossa experi�ncia de mundo, da objetividade de nossa viv�ncia, e, por outro lado, do significado desse jeito de ser, no qual as religi�es se op�em � ci�ncia.

No mundo exterior est� a �nica realidade da qual podemos falar, o mundo da nossa experi�ncia. Ela � definida atrav�s dos �rg�os dos nossos sentidos e da �ndole da nossa consci�ncia. Eis porque s� podemos falar de um mundo subjetivamente experimentado, do mundo da nossa imagina��o. Nisto tamb�m a pesquisa cient�fica nada muda em princ�pio: em �ltima an�lise ela expande nossos �rg�os dos sentidos. Ao mesmo tempo a exist�ncia do mundo n�o � de forma alguma questionada; afirma-se pura e simplesmente que o mundo, como o conhecemos, subsiste na atividade e que aqui n�o se trata de �ser�. Em outras palavras, o mundo n�o tem um car�ter concreto, mas sim din�mico.

A materialidade do mundo comporta-se como com as cores do arco-�ris, que s�o na verdade percebidas com os sentidos, mas que, tal como o arco-�ris em si, n�o t�m subst�ncia. A origem de toda a percep��o de forma e de concretude � o mundo observado pela consci�ncia, assim como o sol � a origem de todas as cores. Assim como s� vemos a variedade das cores do arco-�ris quando olhamos para fora da fonte da luz, s� percebemos a multiplicidade do mundo das coisas quando olhamos do centro, do interior da consci�ncia para fora.

Voltemo-nos ent�o para a fonte de luz ou da consci�ncia, e desaparecer� a variedade de cores, o mundo das coisas se desvanecer�.. Assim como as cores do arco-�ris unem-se em torno de um centro invis�vel para formar um arco, que � diferente para cada observador, � apresenta��o do mundo das coisas agrupa-se ao redor do centro de refer�ncia ideal, que vivenciamos como Eu. Por conseguinte, nem o centro de refer�ncia, nem o arco, nem suas cores t�m exist�ncia, n�o t�m nenhum substrato duradouro, e o mesmo vale para a consci�ncia: luz e consci�ncia apresentam-se como sua proje��o (do Eu) sobre um �fundo� universal subsistente, fluente, momentaneamente resultado de �nfimas part�culas (quanta e �tomos).

Ainda que cada observador venha a encontrar-se no ponto central do arco-�ris, a manifesta��o deste n�o est� sujeita � arbitrariedade do observador, mas segue leis comprovadas. Essa regularidade interna ao sistema de refer�ncia subjetivo confere ao nosso respectivo mundo o car�ter de algo que aparentemente independe de n�s para existir. O objetivo n�o contrasta, portanto, com o subjetivo; pelo contr�rio, o objetivo � uma fun��o da regularidade intr�nseca do subjetivo, ou seja, da estabilidade de suas rela��es, das quais resultam ent�o o objeto f�sico, vis�vel e �material�, sentido como �exterior� e como �n�o-eu�. � claro que falar aqui em uma realidade objetiva subsistente em si � uma contradi��o em si mesma, pois �atividade� � uma rela��o que abrange uma infinita variedade de correla��es.

A mesa que vejo � minha frente est� em sua forma, na qual a vejo, t�o real ou n�o menos verdadeira que as estruturas at�micas das quais ela se comp�e, segundo o conhecimento dos f�sicos. Mas o que � esta mesma mesa quando n�o � vista nem pelo olho humano, nem pelo intelecto do f�sico, nem da perspectiva de uma formiga ou de um caruncho?

A resposta do budista seria: �em si� ela n�o � nada; somente ser� �algo� atrav�s da consci�ncia que observa, molda, escolhe. E j� que as �ndoles e possibilidades da consci�ncia s�o infinitas, pode-se dar um passo adiante e dizer que a mesa � a soma de todas as suas possibilidades de contempla��o. Assim poder�amos dizer com igual direito que a mesa � �em si� tudo e nada � o que significa que de modo algum existe algo como uma mesa �em si�, pois esse �em si� � uma mera constru��o mental que n�o tem nenhuma base na experi�ncia.

Esse conhecimento levou Buda � forma��o da sua doutrina Anicca e Anatta, que suprime a pris�o material das coisas e a pris�o do indiv�duo pelo Eu, em favor da din�mica viva de rela��es ilimitadas em um universo infinito.

�Na verdade, eu vos digo, dentro deste vosso corpo, ainda que mortal e com somente uma bra�a de altura, mas dotado de consci�ncia e esp�rito, est� contido o universo, o nascer e o definhar do mundo, como tamb�m o caminho que conduz daqui � anula��o. (Anguttara-Nikaya IV, Samyutta-Nikaya II)�.

Com isso Buda definiu o mundo como o que nos chega � consci�ncia como mundo � sem entrar na quest�o da realidade objetiva. Visto que ele n�o tomou o conceito de subst�ncia, ele pr�prio pode ter considerado esse ponto quando falou do material e do corp�reo, n�o no sentido de um essencial contraste ao f�sico, mas no de uma manifesta��o interna e externa do mesmo fen�meno, que para ele s� interessava at� o ponto de entrar no campo da experi�ncia imediata, e de referir-se ao indiv�duo vivo, ou seja, o fen�meno da consci�ncia.

Nosso mundo e aquela realidade � qual as religi�es se referem s�o duas faces do vivenciar e n�o dois mundos distintos. Essas formas de viv�ncia diferem entre si atrav�s do enfoque: como pessoa do mundo olhamos para fora, para a variedade dos objetos; como pessoa religiosa olhamos para dentro, para a totalidade da origem, para o tornar-se consciente da unidade universal na pluralidade dos fen�menos.

Em princ�pio n�o temos que lidar aqui com duas esferas de ser separadas entre si, mas com duas formas distintas de contempla��o da mesma realidade. Neste caso a primeira forma de contempla��o ocupa-se com a diferencia��o de uma realidade projetada no tempo e no espa�o � portanto de uma realidade de segunda ordem �, enquanto a �ltima examina suas origens e finalidades. Ambos os modos de contempla��o n�o se excluem, mas complementam-se, pois somente na consci�ncia individual a universalidade pode se transformar em viv�ncia, assim como a individualidade pode se transformar em realiza��o com sentido somente na consci�ncia de seus fundamentos universais.

A �realidade� da qual as religi�es falam n�o �, portanto, segundo a concep��o budista, um �al�m� � um dom�nio diferente do nosso mundo ou um futuro reino dos c�us �, mas aquilo que serve de base � nossa realidade cotidiana mas n�o vemos enquanto nossa vis�o estiver direcionada para fora. Para o conhecimento dessa outra realidade prim�ria � necess�rio somente uma invers�o da dire��o de nossa vis�o, uma reorganiza��o da nossa consci�ncia, como consta no Lankavatara-Sutra.

Esta � uma nova orienta��o, uma nova atitude, uma mudan�a do exterior para o interior, para o dom�nio da diferencia��o objetiva: a totalidade, a completa universalidade do esp�rito. Essa convers�o interna � o �nico milagre que Buda aceita. Ele n�o se contentou somente em aceitar esse milagre, mas tamb�m mostrou o caminho no qual essa realidade prim�ria pode ser experimentada e tornada consciente: � o caminho da medita��o, da educa��o do esp�rito, da concentra��o e desenvolvimento daqueles poderes mentais latentes em cada ser humano, possibilitando dilatar o campo de experi�ncias al�m dos limites do �apenas individual� e do temporalmente condicionado.

As revela��es, escrituras sagradas e tradi��es de culto de todas as religi�es s�o o sedimento dessas experi�ncias que necessariamente t�m de se servir de linguagem simb�lica e de grandes feitos para conferir express�o �s viv�ncias. Muitas das experi�ncias assim relatadas provocam a impress�o de que aquela �outra realidade� exclui-se das leis e das condi��es da realidade por n�s conhecida. Isso n�o � verdade, contanto que essas viv�ncias d�em-se no �mbito da experi�ncia interna, na qual dominam leis ps�quicas e n�o f�sicas. Contudo, onde o ps�quico age sobre o f�sico � uma pergunta que n�o foi esclarecida at� os dias de hoje.

Embora o budismo n�o conteste a possibilidade de certos fen�menos n�o explicados, que se nos apresentam como milagres por n�o conhecermos suas causas, considera a tend�ncia para a produ��o e pr�tica de tais for�as milagrosas funesta e despropositada. O budista n�o pensa em obter for�as sobrenaturais, mas sim em recuperar o equil�brio alterado pelo direcionamento exclusivo ao mundo f�sico de suas faculdades ps�quicas, atrav�s da abrang�ncia e ativa��o de sua consci�ncia profunda e do reconhecimento de sua universalidade potencial.

O �nico milagre que Buda admite � o milagre da convers�o interior, pois nela est� o primeiro passo para a ilumina��o e para o pleno despertar para a realidade.



Extra�do do livro "Reflex�es Budistas", do Lama A. Govinda, ed. Siciliano
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