O Mist�rio do Tempo
Espa�o

Tempo e espa�o constituem os dois maiores mist�rios da mente humana. O mist�rio do tempo � ainda mais profundo do que o do espa�o - t�o profundo que a humanidade levou milhares de anos para se tornar consciente das suas implica��es.
Aparentemente, primeiramente a mente humana se torna consciente do espa�o e somente mais tarde da realidade do momento/tempo. At� mesmo uma crian�a � mais ou menos consciente da realidade do espa�o, enquanto que o sentido de tempo � praticamente inexistente e desenvolve em um est�gio muito mais tarde. O mesmo acontece no desenvolvimento da civiliza��o humana.

A descoberta do espa�o como um elemento de import�ncia espiritual, precede uma descoberta semelhante de tempo.

A sensa��o de espa�o est� acima de tudo relacionada com os movimentos do corpo, enquanto a sensa��o de tempo � conectada com o movimento da mente. Apesar do sentido espacial come�ar com o corpo, ele n�o permanece indefinidamente nesta fase, mas gradualmente evolui para a percep��o de um espa�o espiritual atrav�s da cria��o de uma concep��o que � independente do organismo, independente dos objetos materiais e at� mesmo independente de qualquer tipo de limita��o: culminando com a experi�ncia do puro infinito do espa�o.

Aqui j� n�o falamos de "concep��o" porque infinito n�o pode ser concebido mentalmente, "fotografado" ou objetivado, ele s� pode ser experimentado.

Somente quando o homem penetra nesta experi�ncia do infinito do espa�o, digerindo e assimilando mental e espiritualmente � que podemos falar da descoberta do tempo como uma nova dimens�o da consci�ncia ("tempo" como "movimento", a 4� dimens�o do espa�o /quadrimensional -  sendo a 1� o ponto-linha /unidemensional; a 2� o plano /bidimensional e a 3� o cubo /tridimensional).

J� no in�cio do Budismo a experi�ncia do espa�o foi reconhecida como um importante fator de medita��o, como por exemplo nos quatro Estados da Consci�ncia Divina, no qual os sentimentos conscientemente criados de amor altru�sta, compaix�o, simp�tica alegria e equanimidade s�o uma proje��o um ap�s o outro nas seis dire��es do espa�o, ou seja, nos quatro pontos da b�ssola, no z�nite (para cima) e nadir (para baixo).

Essas dire��es tiveram de ser vividamente imaginadas, a fim de tornar o espa�o e a sua penetra��o na mente uma experi�ncia consciente.

De forma semelhante, o espa�o tornou-se o principal tema da contempla��o nas mais avan�adas absor��es meditativas (jhana, dhyana), at� que a consci�ncia identificou-se completamente com a infinidade do espa�o, surgindo assim a experi�ncia do infinito da consci�ncia, na qual o meditador torna-se um com o tema da sua medita��o.

No budismo mahayana, o espa�o desempenhou um papel ainda mais importante no desenvolvimento da arte religiosa e seu simbolismo, em que um universo com mir�ades de mundos e sistemas solares e infinitas formas de vida possibilitaram conceber as dimens�es da consci�ncia - e conduziu � cria��o de novos sistemas de filosofia, especula��o metaf�sica e um requintado campo de psicologia.

O conceito de tempo, por�m, era tratado como secund�rio, sen�o negativo, com propriedade de exist�ncia na qual desfilava uma infinidade de fen�menos transit�rios.

Tempo (como �movimento din�mico�)

Foi apenas com o advento da Escola Kalacakra no s�culo X d.C. que religiosos e pensadores perceberam o profundo mist�rio que est� escondido sob o conceito convencional de tempo, ou seja, a exist�ncia de uma outra dimens�o da consci�ncia, frente � qual nossa experi�ncia mundana nos faz sentir obscuros e imperfeitos.

Aqueles, por�m, que cruzou o limiar da consci�ncia mundana na fase avan�ada de medita��o, entrou em uma nova dimens�o, na qual aquilo que sentia como tempo passa a ser vivenciado n�o como uma condi��o negativa da nossa exist�ncia fugaz, mas como o sempre presente aspecto �din�mico� do universo e da natureza intr�nseca da vida e do esp�rito, que � para l� do sentido de ser e n�o ser, para al�m da origina��o e destrui��o.

� o sopro vital da realidade - realidade, n�o no sentido de uma abstra��o, mas como realidade em todos os n�veis da experi�ncia - que � revelada nos gigantescos movimentos do universo tanto como nas emo��es do cora��o do homem e do �xtase do esp�rito. Trata-se da revela��o da dan�a c�smica nos corpos celestes, assim como na dan�a de pr�tons e el�trons, na "harmonia das esferas", bem como no "som interior" das coisas vivas, na respira��o do nosso corpo, assim como nos movimentos de nossa mente e no ritmo da nossa vida.

Em outras palavras, realidade n�o � a exist�ncia de "algo" estagnado, n�o � nem "coisa" nem um estado de imobilidade (como o de um espa�o imagin�rio), mas sim uma esp�cie de movimento que vai muito al�m do sentido de percep��es abstratas da matem�tica, filosofia e metaf�sica.

De fato, o espa�o (com exce��o do "espa�o" somente pensado) n�o existe em si, mas � criado pelo movimento, e quando falamos da curvatura do espa�o, ele n�o tem nada a ver com uma estrutura j� existente ou predominante (como o anel na madeira ou a estratifica��o das rochas), mas com o seu antepassado, o movimento que o criou. O car�ter deste movimento � curvo ou conc�ntrico com tend�ncia para criar o seu pr�prio centro - um centro que pode voltar a ser modificado para uma curva ou c�rculo maior etc.

Assim, o universo se torna um gigantesco mandala ou um intricado sistema de incont�veis mandalas (que na tradi��o indiana significa um sistema de s�mbolos baseado em um arranjo circular ou de circula��o, e serve para ilustrar a intera��o ou justaposi��o de for�as espirituais e c�smicas).

Se, em vez de um ponto de vista espacial, considerarmos o universo do ponto de vista da vibra��o aud�vel ou "sabda" (som interior), torna-se uma gigantesca sinfonia.

Em ambos os casos, todos os movimentos s�o interdependentes e interrelacionados, cada um cria seu pr�prio centro, o seu pr�prio foco de poder, sem nunca perder o contacto com todos os outros centros assim formado.

"Curvatura" � neste contexto um movimento de retorno sobre si mesmo (e que, portanto, possui tanto const�ncia como mudan�a, ou seja, ritmo), ou, pelo menos, tem a tend�ncia para retornar � sua origem ou ponto de partida, segundo o seu direito inerente.

Na realidade, por�m, nunca poder� retornar para o mesmo ponto no espa�o, uma vez que este movimento ocorre dentro do contexto de um sistema maior de rela��es. Esse movimento combina o princ�pio da mudan�a e irreversibilidade com a const�ncia de uma lei imut�vel, o que n�s chamamos de ritmo. Podemos dizer que este movimento cont�m um elemento de eternidade, bem como um elemento de transi��o fugaz que sentimos como o �ltimo momento.

Tanto tempo como espa�o s�o o resultado de movimentos, e se falamos de "curvatura do espa�o", devemos falar tamb�m da "curvatura do tempo", porque o tempo n�o � uma progress�o em linha reta - de que o in�cio (o passado) � perdido para sempre, e penetra no vazio sem fim inexor�vel de um futuro - mas algo que retorna sobre si pr�prio, algo que est� sujeito � uma lei de recorrentes situa��es semelhantes, e que, portanto, combina mudan�a com estabilidade (equil�brio din�mico, homeostase). Cada uma destas situa��es � enriquecida com novos conte�dos, mas ao mesmo tempo mantendo a sua caracter�stica essencial.

Assim, n�o podemos falar de uma repeti��o �mec�nica� dos mesmos acontecimentos, mas apenas de um renascimento �org�nica� dos seus elementos, que embora dentro do fluxo de eventos de estabilidade, s�o discern�veis. O reconhecimento de uma tal lei que rege os elementos (ou o aparecimento de formas elementares) de todos os acontecimentos, � a base sobre a qual o trabalho mais antigo da sabedoria chinesa, o  I-Ching ou  "O Livro das Mudan�as", � constru�do.

Talvez este trabalho seria melhor ser chamado de "O Livro dos Princ�pios da Transforma��o" porque demonstra que a mudan�a n�o � arbitr�ria ou acidental (teoria do �acaso�), mas dependente das leis,
segundo a qual cada coisa ou estado de exist�ncia s� pode mudar em algo j� inerente � sua pr�pria natureza, e n�o em algo totalmente diferente.

Demonstra tamb�m a igualmente importante lei da periodicidade, segundo a qual a mudan�a segue um movimento c�clico (como os �rg�os celeste, as esta��es, as horas do dia, etc), representando o eterno no tempo, que no momento da convers�o (do atemporal para tempo) cria um espa�o-dimens�o maior, em que existem �coisas� e �eventos� simultaneamente, embora impercept�veis aos sentidos. Esses eventos encontram-se em um estado de potencialidade, como germes invis�veis ou elementos de eventos futuros ou fen�menos que ainda n�o se transformaram espacial e temporalmente em realidade.

Estes elementos s�o, por assim dizer, leis universais das realidades espirituais ou transcendentais eternamente recorrentes e que em cosmologia e filosofia indiana tem sido descritas como a r�tmica de origina��o e de dissolu��o dos sistemas de mundo.

(Nota: �Na mitologia indiana, Brahma representa o Criador do Universo. Depois de criar o universo, ele permanece em exist�ncia por um �dia� de Brahma, que vem a ser aproximadamente 4.320.000.000 anos (quatro bilh�es... ) em termos de calend�rio hindu. Quando Brahma vai dormir ap�s o fim do dia, o mundo e tudo que nele existe � consumido pelo fogo. Quando ele acorda de novo (instante em que j� se passaram mais 4.320.000.000 referentes � �noite�, perfazendo portanto  dia/noite um total de 8.640.000.000 anos), ele recria tudo novamente, e assim sucessivamente, at� que se completem 100 anos de Brahma, aproximadamente 3.110.400.000.000 anos (tr�s trilh�es...). Quando esse dia chegar, Brahma vai deixar de existir, e todos os outros deuses e todo o universo v�o ser dissolvidos de volta para seus elementos constituintes.� )

O mesmo princ�pio se repete, de acordo com esta concep��o, no aparecimento peri�dico de seres iluminados, que - embora sejam diferentes em suas qualidades individuais ou personalidades, assim como em suas formas de apar�ncia externa - representam o mesmo princ�pio do conhecimento e da consci�ncia do supremo direito universal, que � o principal significado do termo s�nscrito dharma.

Esta semelhan�a - esta eterna presen�a do "Corpo da Lei" (dharmakaya), que � comum a todos os Budas, a todos os Iluminados � � a fonte e o alicerce espiritual de ilumina��o de todos, e � assim colocada no centro da Kalacakra-Mandala, que � a representa��o simb�lica do universo.

Kala significa "tempo" (na cor "negra"), ou seja, o invis�vel, incomensur�veis princ�pios din�micos inerente a todas as coisas, e representada na iconografia budista com figuras terr�veis de muitos cabe�as, armaduras - figuras simultaneamente aterradoras, demon�acas e de natureza divina. Trata-se de figura "terr�vel" para o ego individual, o qual � espezinhado, tal como s�o todos os deuses, criados com um ego semelhante, que s�o mostrados prostrados sob os p�s desta figura aterradora. O tempo � o poder que governa todas as coisas e at� mesmo os maiores deuses t�m de se subjugar ele.

Cakra (ou Chakra) significa "roda", ou a focaliza��o conc�ntrica da manifesta��o do princ�pio din�mico no espa�o. Na antiga tradi��o do Yoga, o cakra espacial significa o desabrochar do poder espiritual ou universal, como por exemplo nos centros cakras ou ps�quico do corpo humano ou, no caso do Cakravartin, o mundo - que encarna a normatiza��o - englobando todas as leis da moral e poderes espirituais.

Em um de seus livros sobre budismo t�ntrico, H.V. Guenther compara o Kalacakra como s�mbolo da moderna concep��o do espa�o-tempo como um �continuum�, salientando, contudo, que no budismo n�o � meramente uma constru��o filos�fica ou matem�tica, mas baseia-se na percep��o direta da experi�ncia interior, segundo a qual o tempo e o espa�o s�o insepar�veis aspectos da realidade.

S� na nossa mente temos a tend�ncia de separar o tempo das outras tr�s dimens�es do espa�o. Temos consci�ncia de um espa�o e um tempo de consci�ncia. No entanto, esta separa��o � puramente subjetiva.

De fato, a f�sica moderna tem mostrado que a dimens�o temporal n�o pode mais ser destacada da dimens�o espacial, no mesmo sentido que comprimento n�o pode ser separado da largura e espessura de uma representa��o precisa de uma casa, uma �rvore, ou que Fulano X, com seu peso, altura e largura tem uma realidade espacial objetiva ou exist�ncia independente do tempo.

Espa�o e tempo s�o dois aspectos da qualidade mais fundamental da vida que � o �movimento�.

Aqui chegamos ao fundo da experi�ncia direta, que o Buddha sublinhou na sua �nfase sobre o car�ter din�mico da realidade, ao contr�rio das no��es prevalecentes e das abstra��es filos�ficas de um Atmavada (Atman) est�tico, em que um eterno e imut�vel ego-entidade foi proclamada. (O conceito original de Atman era a id�ia de uma vigorosa r�tmica universal, o sopro da vida - compar�vel � do grego "pneuma" - que permeia n�o s� o indiv�duo mas todo o universo).

N�s geralmente falamos de tempo n�o s� como se fosse uma coisa em si, algo que poder�amos ter para conceder, mas ao mesmo tempo como apenas �um�. N�s raramente percebemos que este termo abrange uma dezena de significados diferentes, ou, mais corretamente, diferentes categorias de rela��es.

Temos por exemplo que distinguir entre tempo matem�tico, tempo sideral, tempo solar, hora local, tempo f�sico, tempo fisiol�gico, tempo psicol�gico, e assim por diante. E os dois �ltimos s�o t�o diferentes em cada indiv�duo como hora local � diferente de local para local.

Uma hora na vida de uma crian�a em rela��o a um adulto dura infinitamente mais porque a vida de uma crian�a ocorre a um ritmo muito mais r�pido do que a de um adulto ou uma pessoa idosa. E tal como o sentido de tempo sofre mudan�as subjetivas com a idade fisiol�gica, de forma semelhante o mesmo ocorre para as raz�es psicol�gicas, pois a natureza do tempo varia de acordo com os objetos considerados pela nossa mente.

O tempo que n�s observamos na natureza n�o tem exist�ncia separada. A id�ia de que estamos vendo objetos concretos se deve ao modo como observamos.
N�s mesmos criamos o tempo matem�tico.  Trata-se de uma constru��o mental, uma abstra��o indispens�vel para a cria��o da ci�ncia.

Convencionamos compar�-lo a uma linha reta, sendo cada instante representado por um ponto. Desde o dia em que Galileo o concebeu, foi-se apenas substituindo os dados concretos resultantes da observa��o direta das coisas ...

As coisas foram transformados em objetos para poder se reduzirem �s suas qualidades prim�rias - isto �, para poderem ser medidas e pass�veis de tratamento matem�tico � e com isso privou-as das suas qualidades secund�rias e de dura��o.
Esta arbitr�ria simplifica��o tornou poss�vel o desenvolvimento da f�sica. Ao mesmo tempo que conduziu a uma concep��o esquem�tica insustent�vel do mundo.

Na verdade, conduziu a uma ci�ncia que foi baseada em um "post mortem" do nosso mundo, sobre os resultados do fins-est�tico daquilo que uma vez foi vivo, um mundo de fatos e mat�ria morta.

A no��o de tempo � equivalente � opera��o necess�ria para estimar a dura��o dos objetos de nosso universo. Dura��o consiste na sobreposi��o de diferentes aspectos de uma identidade. � uma esp�cie de movimento intr�nseco das coisas ...

Uma �rvore cresce e n�o perde a sua identidade. A pessoa humana mant�m a sua personalidade ao longo de todo o fluxo dos processos biol�gicos e mentais que comp�em a sua vida. Cada ser vivo ou inanimado compreende uma mo��o (movimento) interior, uma sucess�o de estados, um ritmo que � o seu pr�prio. Essa mudan�a � inerente ao tempo. Em suma, o tempo � o car�ter espec�fico das coisas ... � realmente uma dimens�o de n�s mesmos.

Pesquisar o tempo fora de n�s mesmos ou separados dos objetos a partir da nossa observa��o - por assim dizer "no momento pr�prio" � � como isolar as dire��es do espa�o a partir da observa��o e falar de um "leste absoluta", ou um "norte como tal, "ou um" oeste em si mesmo.

"Tempo absoluto" � t�o absurdo como a 'nega��o do tempo': como �absoluto� porque o pr�prio conceito de tempo denota uma rela��o entre um assunto ou objeto, ou entre as diferentes partes de um sistema j� existente que assumiu uma correla��o de for�as ou coisas; este �ltimo (a nega��o do tempo), porque o tempo � uma experi�ncia direta definitiva, se podemos defini-lo em palavras ou n�o.

N�s tamb�m n�o podemos definir "vida", entretanto n�s n�o duvidamos de que vivemos. Na realidade, vida � a nossa experi�ncia mais real e ao mesmo tempo a mais dif�cil de ser definida.

S� objetos inanimados ou coisas que estiveram artificialmente separadas dos seus ambientes ou de suas conex�es org�nicas ou causais, ou isoladas e limitadas pelo intelecto humano podem ser definidas.

Assim, consideramos �vida� um objeto ou coisa que t�m sido artificialmente separada do seu entorno ou de suas liga��es org�nicas ou causal, e, portanto, isolada e limitada pelo intelecto humano para poder ser definida.

Uma experi�ncia da realidade (e isso � tudo que podemos falar, porque "realidade como tal" � outra abstra��o) n�o pode ser definida pelo racioc�nio em linha reta da l�gica bidimensional (m�todo da ci�ncia ocidental), mas somente de um modo conc�ntrico (m�todo da �ci�ncia� oriental), movendo-se ao redor e n�o s� de um lado, mas de todos os lados sem parar em qualquer ponto particular.

S� desta forma poderemos evitar uma perspectiva unilateral e reducionista de uma imagem distorcida, e chegar a uma situa��o de equil�brio, � percep��o de um conhecimento imparcial, sem preconceitos. Esta abordagem de movimentos conc�ntricos (que se aproxima em �torno� de seu objeto, com o ideal para se tornar �um� com ele) � exatamente o oposto do m�todo ocidental anal�tico e dissecat�rio de observa��o: � a concentra��o integrante da vis�o interior (Dhyana).

Esta integra��o da vis�o, e de uma nova concep��o de mundo que � nascido da mesma, foi formulada por um dos mais criativos e importantes fil�sofos do nosso tempo, Jean Gebser, em sua monumental obra, Fundamentos das Manifesta��es Aperspectiva do Mundo, em que escreve:

�A origem, dos quais cada momento da nossa vida � vivida, � de um car�ter divino e espiritual. Quem nega isso nega-se a si mesmo, e hoje h� muitos que fazem isso. Aquele que n�o nega j� �, com toda a simplicidade e compreens�o, um promotor da concep��o �aperspectiva� integrante da estrutura da nossa consci�ncia, que tem sua origem no processo de tornar-se consciente do todo, bem como tomar conhecimento de sua transpar�ncia.�

Isto exige um novo tipo de l�gica, que - embora conhecida na �ndia durante mil�nios - se manteve despercebido no mundo ocidental. Esta l�gica n�o � baseada no axioma de opostos mutuamente exclusivos ("ou um ou outro") e na rejei��o de uma terceira possibilidade, mas mediante uma f�rmula que quadruplicou postulados em quatro possibilidades no que se refere a um objeto, ou seja:

(1) a sua exist�ncia;
(2) a sua n�o-exist�ncia;
(3) a sua exist�ncia, assim como a sua n�o-exist�ncia;
(4) e nem a sua exist�ncia nem a sua n�o-exist�ncia.

As duas primeiras est�o relacionadas com o dom�nio dos objetos fixos ou entidades, o que nos permite falar de identidade ou de n�o-identidade.

A terceira proposta refere-se ao dom�nio da relatividade e corresponde aos processos biol�gicos da vida.

A quarta refere-se ao dom�nio da experi�ncia transcendental, para al�m do senso de percep��o e do pensamento conceitual, porque seus objetos s�o infinitos e apenas acess�vel � intui��o ou a experi�ncia de dimens�es superiores.

Na Europa, a tentativa de criar uma l�gica baseada em tr�s possibilidades evidentes ou "valores de verdade" tem sido feita por Reichenbach, que define o novo tipo de l�gica da seguinte forma:

�A l�gica ordin�ria tem dois valores, que � baseada nos dois axiomas da "verdade" e da "falsidade". No entanto, � poss�vel encontrar um meio valor de verdade, o que podemos chamar de "indetermina��o" (Bohr-Heisenberg), e podemos adicionar esta verdade de valor no grupo de declara��es que tem se chamado de "sem sentido�.

Se, no entanto, n�s temos uma terceira verdade-valor, ou seja, de indetermina��o, mas em seguida verificarmos que essa terceira condi��o n�o tem �sentido�, j� n�o � v�lida como uma f�rmula infal�vel: existe uma "terceira," um valor m�dio, por�m � representada pela condi��o l�gica de indetermina��o.�

Esta condi��o de indetermina��o (valores que no sistema indiano corresponde �s de n�s 3 e 4) pode ser considerada como um estado de integra��o dos aparentemente contradit�rios, mas, na realidade, por�m, s�o co-existentes aspectos da mesma coisa ou processo; estes foram encontrados na verdade da f�sica nuclear moderna, em que a teoria de �onda e part�cula� (do �tomo) s�o igualmente v�lidas ou aplic�veis aos fatos reais, apesar das duas teorias serem logicamente excludentes.

A �l�gica� ocidental � exatamente a contraparte da �perspectiva� ocidental, que, a partir de um �nico ponto no espa�o, projeta-se em linha reta sobre um objeto, excluindo todos os outros aspectos existentes simult�nea e objetivamente aos dados.

As tentativas da arte moderna para superar a unilateralidade da perspectiva da transpar�ncia e da sobreposi��o dos v�rios aspectos do mesmo objeto correspondem ao esfor�o para preparar o caminho para um �mundo aperspectivo� (Gebser), libertando-nos dos grilh�es de uma l�gica puramente dualista e nos levar a uma experi�ncia da totalidade, de uma realidade unificada em que o nosso mundo se torna mais e mais transparente com o despertar da mente.

O que � o tempo m�dio do ponto de vista da experi�ncia?

A maioria das pessoas responderia: dura��o, dura��o. Mas temos algo mais do que isso, mesmo quando n�o h� experi�ncia do tempo, como no sono profundo. A experi�ncia do tempo, por isso, � algo mais do que �dura��o�: trata-se de �movimento�. Movimento de qu�?  De n�s mesmos ou de alguma coisa, dentro ou fora n�s.

Mas agora o paradoxo:

Quanto menos avan�amos em nossa evolu��o ou se simplesmente nos sentirmos angustiados... mais cientes estaremos do tempo; por�m, quanto mais avan�amos, menos cientes ficamos.

Uma pessoa que se sente corporal e mentalmente inativa percebe o tempo como um fardo, ao mesmo tempo que um indiv�duo ativo dificilmente sentir� � passagem do tempo.

Aqueles que se deslocarem em perfeita harmonia com o ritmo do seu ser mais interno, com o ritmo pulsante dentro do seu universo, s�o �atemporal�, no sentido de encontrarem-se em perfeita sintonia com a experi�ncia.

Aqueles que vivem em desarmonia e avan�ar com este ritmo interior, sem a exist�ncia de uma dura��o inerente, ou seja, apenas uma exist�ncia moment�nea sem sentido ou continuidade espiritual, para ele a vida n�o ter� nenhum significado.

O que n�s chamamos "eterno" n�o � um per�odo indeterminado de tempo (que � uma mera constru��o do pensamento, alheio a qualquer experi�ncia), mas a experi�ncia de vig�ncia. Tempo n�o pode ser invertido. Mesmo se voltar n�o ser� o mesmo, porque a seq��ncia de marcos estar� mudada, e al�m do mais, iremos v�-lo a partir do sentido oposto - ou como na mem�ria, com um conhecimento j� acrescido �s experi�ncias anteriores.

A �experi�ncia� do tempo se deve ao movimento acrescido de mem�ria (a partir do ponto de refer�ncia interno de um �ego�, sentido como 'invari�vel' e �separado� do fluxo incessante de mudan�a e transforma��o de tudo que vive).

Mem�ria � compar�vel �s camadas de um ano dos an�is em uma �rvore. Cada camada n�o � somente uma mera experi�ncia material, mas modifica o valor de qualquer experi�ncia nova, de modo que at� mesmo uma repeti��o nunca poder� produzir resultados id�nticos.

A vida - assim como o tempo - � um processo irrevers�vel, e aqueles que falam da eterna recorr�ncia de eventos id�nticos e individuais (como Ouspensky, em seu livro "Um Novo Modelo do Universo) cometem o erro de considerar o ritmo ou periodicidade como uma repeti��o mec�nica.

� a vis�o mais superficial que pode chegar qualquer pensador, e que mostra o dilema com que o determinismo cient�fico � obrigado a enfrentar. � t�pico do intelecto que tenha perdido sua conex�o com a realidade substituir a vida com os fantasmas da abstra��o vazia. Este tipo de racioc�nio puramente mecanicista do mundo leva a uma estagna��o, que termina em um beco sem sa�da.

Se o universo como um todo pode mudar ou n�o � totalmente irrelevante, o importante � que haja um antecedente verdadeiramente criativo para o indiv�duo, e que o passado, que � cada vez maior no horizonte como uma amplia��o da experi�ncia e sabedoria possa continuar de forma a crescer at� que o indiv�duo tenha chegado ao estado em que o universo se torna consciente de si como um organismo vivo, e n�o apenas como uma mera unidade ou um estado sem tra�os caracter�sticos de unicidade. Esta � a dimens�o mais elevada de consci�ncia.

O que n�s entendemos por "dimens�o"?

A capacidade de estender ou se deslocar numa determinada dire��o. Se nos movermos para fora, s� podemos faz�-lo em tr�s dimens�es, isto �, n�o podemos ir al�m do espa�o tridimensional.

O movimento que produz e cont�m estas dimens�es � sentido como tempo perdido devido o movimento-tempo n�o ser percebido como sendo mais uma (4�) das dimens�es do espa�o, ou seja, n�o ser concebido como um conjunto completo em quatro dimens�es.

Assim, a sensa��o do momento � a sensa��o de incompletude, de que algo est� �faltando�. Por esse motivo n�o h� �tempo� em momentos de consci�ncia mais elevada ou perfeita vis�o intuitiva da realidade. N�o h� tempo para a Universidade Iluminada.

Isso, por�m, n�o significa que para um iluminado a mem�ria foi extinta ou tornou-se um mero borr�o. Pelo contr�rio, o passado deixa de ser uma qualidade do tempo e torna-se uma nova forma de espa�o (espa�o interior), na qual coisas e eventos que temos vivido de forma fragmentada podem ser vistos simultaneamente, na sua totalidade, no aqui e agora.

Assim, Buda, no seu processo de ilumina��o ap�s in�meras vidas anteriores, teve de alargar cada vez mais sua vis�o at� o ponto de englobar todo o universo.

Somente se reconhecermos o passado como "uma verdadeira dimens�o de n�s mesmos", e n�o apenas como uma experi�ncia pertencente ao �tempo� passado, seremos capazes de ver-nos em boa perspectiva para compreender que o universo n�o � um elemento estranho que nos rodeia misteriosamente, mas o pr�prio corpo do nosso passado, em cujo ventre encontra-se o sonho de despertarmos para a liberdade da ilumina��o.
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