F� e Toler�ncia no Budismo
A atitude �tica do homem religioso � determinada pela sua f� ou pela sua convic��o interior. O humanitarismo �, por outro lado, uma possibilidade e capacidade do homem, independente da no��o de f�. Esta capacidade pode ser, no entanto, sensivelmente amplificada e aprofundada sob a influ�ncia de urna religi�o que acredita no valor da humanidade e na dignidade e liberdade de pensamento do indiv�duo. A influ�ncia humanizadora do budismo mostra-se especialmente n�tida na hist�ria do Tibete, que, no decorrer de poucos s�culos, transformou-se de uma das mais temidas e combativas na��es da �sia em uma das mais pacificas e religiosas.

Apesar de profundas convic��es religiosas e de uma hierarquia religiosa bem organizada (� qual tinha acesso at� mesmo o campon�s mais humilde), havia perfeita toler�ncia entre as diversas seitas e formas de f�. A liberdade de convic��o individual nunca foi posta em quest�o. At� mesmo mission�rios crist�os foram recebidos com hospitalidade e n�o s� tolerados como tamb�m convidados para expor seus ensinamentos religiosos. Apesar de seu manifesto interesse, esses ensinamentos n�o exerceram nenhum efeito duradouro, n�o por serem desconhecidos, mas porque eram em muitos aspectos semelhantes aos ensinamentos tibetanos e n�o puderam por isso representar nenhum enriquecimento � vida religiosa do Tibete. Um outro motivo de impedimento foi a exig�ncia de exclusividade do cristianismo, que amea�ou a liberdade da convic��o individual.

Religi�es que concedem todo o direito � individualidade do homem transformam-se automaticamente em benfeitoras da humanidade. Aquelas, por�m, que t�m pretens�o de ter a posse exclusiva da verdade ou que avaliam minimamente o m�rito do indiv�duo e suas convic��es individuais, podem se tornar inimigas da humanidade � e mais ainda quando a religi�o se transforma em uma for�a pol�tica e social.

Quanto mais o seguidor de uma cren�a se isola dos de outras, maior torna-se o perigo da parcialidade da intoler�ncia. O conv�vio com os seguidores de outras cren�as � a pedra de toque para o m�rito de uma f�. Este conv�vio for�a cada um a uma tomada de posi��o individual quanto aos problemas da pr�pria religi�o e das outras, quanto � reflex�o e conscientiza��o das raz�es e motivos da pr�pria f�. Tanto as semelhan�as como as diferen�as das religi�es podem se tornar fonte de inspira��o. Cada religi�o encontrou, � sua maneira, o acesso � viv�ncia religiosa profunda, e desenvolveu caminhos pr�ticos de realiza��o, que podem ser cultivados a partir de todas as outras formas de f�, sem prejudicar as particularidades das mesmas.

O efetivo amor ao pr�ximo e caridade do cristianismo; a inclus�o do corpo na ora��o e da ora��o na vida di�ria no islamismo; a instru��o de medita��o do budismo antigo; a multiplicidade da concep��o de Deus dentro de um sentimento de unidade universal no hindu�smo; o caminho para a unidade interior na ioga e para a espontaneidade no zen; a uni�o com a natureza no tao�smo e a profunda humanidade do confucionismo; o paralelismo de acontecimentos mundanos e transcendentais no tantrismo; o profundo temor a Deus e a auto-responsabilidade do juda�smo; o universalismo do rnahayana e a inclus�o de todas as criaturas na conjuntura da salva��o: todas estas s�o caracter�sticas n�o-dogm�ticas que se empregam em toda pr�tica religiosa e com as quais cada religi�o pode lucrar, assim como cada �rvore lucra com a �gua, o ar e a luz, apesar da diversidade de suas formas e de seus frutos.

A exist�ncia de diversas orienta��es dentro da mesma religi�o n�o se op�e � sua pretens�o de verdade, visto que esta mesma verdade (ou realidade) tem tantas dimens�es quanto formas de concep��o. J� que n�o pode existir algo corno �uma f� verdadeira�, o homem pode encontrar uma resposta individual a perguntas religiosas tamb�m fora das religi�es aceitas por conven��o. � mais importante o homem encontrar um acesso � religiosidade do que professar uma f� reconhecida. Quanto mais profunda for nossa compreens�o para com quest�es religiosas, maior ser� nossa capacidade de reconhecimento do real.

N�o � necess�rio, contudo, estar informado sobre todas as possibilidades de exegeses (interpreta��es) religiosas de mundo, ainda que um saber desta natureza seja �til, resguardando-nos da intoler�ncia e da estreiteza mental. As pr�prias comunidades religiosas deveriam fomentar tal saber para terem certeza de que aqueles que se declaram partid�rios dela n�o o fazem por ignor�ncia de outros caminhos religiosos, por indol�ncia mental ou devido a vantagens sociais, mas sim por verdadeira convic��o. Em conseq��ncia disto, as religi�es deveriam se restringir �queles que realmente as ap�iam e n�o se fundar em prerrogativas pol�ticas ou sociais.

Com um interc�mbio espiritual estimulado por todas as religi�es, seria poss�vel chegar a um maior entendimento e talvez a uma maior aproxima��o entre as diferentes religi�es, mas certamente n�o a uma fus�o ou prevalecimento de uma sobre a outra. � t�o dif�cil uma religi�o prevalecer sobre outra como um tipo de temperamento sobre outro. Todavia, as religi�es n�o s�o dependentes s� do temperamento, mas de certas formas primitivas da psique humana que s�o determinadas pelo clima, ra�a, l�ngua, cultura e na��o. Q significado desses modelos ou s�mbolos supra-individuais da consci�ncia profunda humana (que foi adulterada na psicologia ocidental para �inconsciente� e por isso amplamente desvalorizada aos olhos de nossos contempor�neos, apesar da tentativa her�ica de Jung de libertar esses conceitos dos preconceitos negativos de Freud) depende da maneira como est�o atualmente relacionados um ao outro ou como se tornam parte de uma esfera de contempla��o fechada em si.

O mesmo s�mbolo pode ter sentidos opostos em diferentes esferas de contempla��o. A aura de chamas � qual se imputa na simbologia crist� o sentido de emana��es infernais � considerada na tibetano-budista como s�mbolo do conhecimento, O drag�o, que no Ocidente tem a mais alta representa��o de tudo o que � mau, � no Oriente um s�mbolo de elevada espiritualidade. O sol, que no hemisf�rio norte � um amigo dos homens, torna-se, nos pa�ses quentes das zonas tropicais e subtropicais, um elemento agressivo � vida. Por isso o islamismo, que teve origem no quente deserto da Ar�bia, enaltece a lua como s�mbolo mais elevado, e n�o o sol; e no misticismo da ioga hindu, a energia solar da vida individual voltada para o exterior oculta o veneno da morte, enquanto a energia lunar, voltada para o interior cont�m o elixir da imortalidade. Tais exemplos podem ser, conforme queiramos, multiplicados.

Por�m a maior parte dos mal-entendidos ou falsas interpreta��es est�o no �mbito da linguagem e, tamb�m aqui, n�o s�o as indiscut�veis diferen�as de terminologia que freq�entemente levam a mal-entendidos, mas justamente os conceitos e id�ias que parecem id�nticos. A mesma palavra n�o tem o mesmo significado ou o mesmo valor nas diferentes religi�es ou culturas. Pode haver algo mais amb�guo do que a palavra �Deus�? Para um significa uma pessoa, para outra um princ�pio, uma lei, um poder impessoal ou suprapessoal. E at� mesmo entre aqueles que v�em em Deus uma pessoa, seu car�ter � bastante variado, conforme a posi��o que ele ocupe em seus valores ou imagem de mundo.

Nas religi�es do antigo testamento ele � um juiz e um detentor do poder severo e freq�entemente temido; segundo a f� crist�, � um pai bondoso; em conhecidas seitas hindu�stas, desempenha o papel de um namorado ou amante; segundo outras concep��es de f� indianas, � o criador do mundo, e o mundo � o seu sonho, onde ele mesmo vive entre o sem-n�mero de diferentes seres assim criados � at� o despertar de seu sonho. Maior ainda � a variedade nas concep��es daquelas religi�es que v�em em Deus um poder impessoal ou suprapessoal. Pode ser visto aqui como imanente ou transcendente, como o que tem a �ndole do mundo ou o que o excede, ou como uma express�o da viv�ncia humana interior, um s�mbolo da realidade interior ou da proje��o f�sica.

Um coletivo n�o defin�vel pode ser o motivo para todas essas no��es e conceitos, o que � a qualidade de todo s�mbolo. Por�m, somente sua rela��o com a parte restante da imagem de mundo dominante d� ao s�mbolo o seu significado. A natureza de cada religi�o ou concep��o de mundo constitui-se, por conseguinte, nas rela��es de conceitos e s�mbolos de experi�ncia delas caracter�sticas, n�o em meias afirma��es que, independentemente do todo, se deixam comparar com as afirma��es de um outro sistema espiritual ou ser refutados pelo mesmo:

"Na verdade � natural que cada um que acredita ter encontrado uma verdade esteja tamb�m convencido de que esta seja a verdade n�o s� para ele, mas v�lida para todos, contanto que pudessem adotar seus fundamentos. Esse pressuposto absolutismo, por�m, n�o � um sinal prim�rio da verdade, mas somente a exegese (interpreta��o) natural de irresistibilidade da pr�pria viv�ncia da ades�o.

Pode, portanto, n�o se tratar de penetrar em um reino de verdades vigentes, que em algum lugar existe, mas unicamente de organizar um tal reino da verdade frente a todas as conting�ncias e labirintos de atos verdadeiros de pensamento, reino este onde aquela antecipa��o de sua perfei��o possa atuar, nunca como totalmente acess�vel, mas como aspira��o do ideal a servi�o da id�ia da verdade.�

Em outras palavras: a verdade de uma religi�o ou concep��o de mundo n�o pode nunca ser o objeto de uma comprova��o � assim como a exist�ncia ou n�o de um deus comprovado seria um deus finito, despido portanto de sua divindade. Uma religi�o que se deixasse comprov�-lo seria, do mesmo modo, despojada de seu car�ter de infinidade e, portanto, de seu valor religioso. �Um deus demonstrado, adorado como real, seria um fetiche pior que o bezerro de ouro�, disse certa vez Keyserling.

A verdade consiste na coordena��o pr�tica de dados teores de experi�ncia na mente humana, portanto em um ato criativo cujo valor de realidade e de efeito (assim como o de uma obra de arte) depende da concord�ncia perfeita, isto �, sem contradi��o, de todos os componentes uns com os outros e com o conjunto resultante, pois a id�ia do todo n�o pode nunca ser esquecida na representa��o do uno. A partir deste ponto de vista, tornam-se compreens�veis estas palavras de Kungsfutse: N�o � a verdade que engrandece o homem, mas o homem que engrandece a verdade. Em conformidade com isto, poder�amos dizer: n�o � a religi�o que engrandece o homem, mas o homem que engrandece a religi�o; pois n�o � o fato de pertencermos a alguma religi�o que nos torna pessoas melhores, mas sim o que fazemos dela, ao mesmo tempo em que a realizamos e preenchemos com nossa pr�pria vida. O valor de uma religi�o manifesta-se somente atrav�s do n�vel �tico e mental de seus seguidores.

Enquanto uma religi�o puder unir novamente (re-ligio, de re-ligare � religar) sei s�quito �quela zona profunda universal de suas consci�ncias � ao imperec�vel, sem tempo ou fronteiras, a universal origem divina de toda exist�ncia �, ter� cumprido sua finalidade. Pois somente uma religi�o que seja capaz de dar sentido � nossa exist�ncia no mundo em que vivemos e, ao mesmo tempo, de sublimar os dons manifestos e a pouca intelig�ncia do indiv�duo em favor de uma realidade superior, que podemos conquistar atrav�s do pr�prio esfor�o � somente tal religi�o tem valor e raz�o de ser.

Eis porque, no futuro, o crit�rio da religi�o n�o ser� mais um dogma intelectual ou estabelecido por uma revela��o, mas sim a viv�ncia religiosa, cujo teor de realidade d� � vida humana dire��o e dignidade. Nisto, o desenvolvimento atual de rela��es inter-religiosas, n�o obstante as diferen�as religiosas, aponta para as confiss�es, at� agora em competi��o e luta, que enterraram suas armas no reconhecimento de que em um interc�mbio m�tuo de experi�ncia cada uma dessas religi�es tem mais a ganhar do que a perder. Tal interc�mbio de experi�ncias como o, por exemplo, organizado pela Fondazione Cini em seu centro cultural na Isola San Giorgio Maggiore em Veneza, ano de 1960, e do qual o redator deste texto teve oportunidade de participar como representante do budismo (mahayana), indicou claramente a grande mudan�a que se deu na vida religiosa da Europa no passar das �ltimas d�cadas.

Representantes do cristianismo (entre os quais alguns dos mais elevados dignit�rios da Igreja Cat�lica) sentaram-se lado a lado com os do islamismo, do hindu�smo, do budismo (orienta��o nortista e sulista), do xinto�smo, do juda�smo e do jainismo, para trocarem durante uma semana suas experi�ncias religiosas, nas quais ora��o e medita��o constitu�ram-se nos principais temas. Foi uma alegria ver que ap�s s�culos de lutas e mal-entendidos religiosos, reuniu-se o s�quito das diferentes comunidades religiosas tendo em mente a aten��o m�tua e a boa vontade, n�o para demonstrar a superioridade de uma religi�o sobre a outra, mas para aprenderem a compreender melhor umas �s outras e para fortalecer aquilo em comum que une todas as pessoas que acreditam na vida do esp�rito.

No interc�mbio das id�ias e experi�ncias, mostrou-se logo que a esfera da concord�ncia m�tua era bem maior do que os assuntos em que diverg�amos uns dos outros � isso pelo simples motivo de que n�o nos ocupamos com nossos dogmas, mas sim com a viv�ncia religiosa. Nosso intelecto, nosso racioc�nio, nossa interpreta��o do mundo e nossa posi��o nela e para com ela s�o determinadas predominantemente atrav�s de fatores hist�rico-culturais e sociol�gicos, de nossa educa��o e grau de instru��o; nossas viv�ncias mais profundas pertencem, contudo, a uma esfera que � comum a todas as pessoas: � terreno comum sobre o qual todos nos apoiamos e de onde brotam todos os movimentos religiosos. Somente sobre esta base pode dar frutos o di�logo, o interc�mbio espiritual e a coopera��o entre as diversas religi�es do inundo, sem levar a um nivelamento dos valores religiosos ou a uma anula��o ou enfraquecimento da heterogeneidade e das formas de express�o caracter�sticas de cada religi�o. Pelo contr�rio: o reconhecimento claro e honesto da heterogeneidade pode n�o significar perigo algum na base segura do terreno comum, mas sim um enriquecimento da vida cultural.

Como j� expusemos anteriormente, a verdade de urna religi�o consiste assim como a beleza de uma obra de arte na correla��o �nica e inimit�vel de s�mbolos vivos de formas, que, como express�o da viv�ncia espont�nea, unem-se em um todo harm�nico, em urna vis�o de mundo org�nica. Assim corno n�o existe urna arte �nica, v�lida para todas as �pocas e todas as pessoas, ou uma obra de arte �nica, t�o perfeita que esgote o significado da arte e da beleza, n�o existe nenhuma forma de religi�o t�o perfeita que possa ser v�lida para todas as �pocas e para todas as pessoas, ou que possa esgotar o significado do mundo.

Este � o motivo pelo qual devem surgir continuamente novas orienta��es e escolas, mesmo dentro de urna mesma religi�o, pois a religi�o deve manter sua vitalidade e proximidade com a realidade (que sentimos como verdade) pois vida significa crescimento, que � transforma��o cont�nua em dire��o � lei interior. Uma religi�o que n�o se transforma est� morta. Mas, visto que transforma��o n�o � mudan�a arbitr�ria, a identidade essencial de uma religi�o se mant�m preservada, apesar de toda transforma��o. Podemos dizer francamente que a for�a da sua individualidade e de seu cunho espiritual aflora na sua capacidade de transforma��o, pois crescimento � um processo tanto de desdobramento das qualidades inerentes quanto de assimila��o e de integra��o: um processo de enriquecimento. ɒ o mist�rio da vida que passa por aqueles que, agarrando-se �s coisas e n�o querendo mudar, se entregam � morte espiritual.

N�o �, portanto, a diversidade das religi�es que se op�e � sua harmonia ou � sua compreens�o m�tua, mas sim o empenho for�ado de fundi-las em uma unidade, de ajust�-las urnas �s outras, de coloc�-las sob o mesmo denominador intelectual ou de subordin�-las ao mesmo dogma. Assim como o valor dos diferentes frutos est� justamente na sua particularidade, e como esse valor n�o aumenta mas, pelo contr�rio, acaba, quando indistintamente misturados, uma mistura, ainda que bem intencionada, de formas simb�licas e meios de express�o religiosos n�o leva tamb�m a urna religi�o superior, mas somente ao exterm�nio de todos os valores religiosos vivos.

O coletivo, que est� na origem de todas as religi�es, n�o � urna verdade fundamental abstrata (isto �, uma formula��o mental ou um princ�pio abstrato), mas sim a viv�ncia de urna realidade supra-individual. Essa realidade - mesmo se fosse inteiramente apreens�vel - deve sempre conter o ponto de vista espiritual evolutivamente condicionado e o temperamento do indiv�duo que a vivencia, e o teor dessa viv�ncia s� pode ser representado nas respectivas formas vivas e compreens�veis de express�o de uma determinada �poca e cultura.

A unicidade de tal exposi��o n�o significa contudo uma redu��o do teor de realidade, mas um aumento, uma intensifica��o, id�ntica � rela��o de uma obra de arte, que n�o chega a esgotar a natureza de um assunto�, como por exemplo uma paisagem, e n�o obstante nos d� mais do que urna mera reprodu��o da mesma. Milhares de artistas talentosos reproduziriam uma mesma paisagem de milhares de maneiras diferentes, e o valor desses trabalhos estaria exatamente na variedade de formas de express�o, sem preju�zo do mesmo, e cada um deles representaria uma reprodu��o competente do efetivamente visto e vivenciado.

O mundo interior vivenciado por um Buda, por um Lao Tse, por um Cristo ou por um Maom� n�o � somente um reflexo da realidade, mas uma realidade intensificada no foco de uma poderosa viv�ncia, cujo irresist�vel poder de convic��o envolveu seus contempor�neos, continuando a agir em c�rculos cada vez mais abrangentes durante s�culos. Os testemunhos escritos ou oralmente transmitidos dos contempor�neos destes grandes e de seus seguidores s�o somente um fraco reflexo da luminesc�ncia do esp�rito que os movia. Somente quando conseguimos nos colocar no estado do vivenciar � que nos defrontamos com os grandes do esp�rito e chegamos �quilo que une todas as religi�es, sem amalgam�-las ou confundir seus contornos. � aquela viv�ncia universal profunda para a qual cada cren�a representou um caminho e cada religi�o oferece toda sorte de recursos de que cada um pode se servir. Pertencem a esses recursos: ora��o, contempla��o, medita��o, introspec��o, unifica��o, �tica, caridade, miseric�rdia, amor ao pr�ximo, compaix�o para com os semelhantes, abnega��o, sinceridade, estudo da consci�ncia, desejo de conhecimento, intelig�ncia, serenidade, calma e assim por diante.

Ao lado da imponderabilidade dos s�mbolos concretos e ling��sticos que s�o caracter�sticos de cada sistema religioso, de cada forma de F� organicamente nascida, que n�o se deixa transplantar arbitrariamente ou traduzir-se no conceitual e no l�gico, existe um amplo dom�nio de coopera��o pr�tica e entendimento espiritual, que faz de todas as religi�es membros de uma grande fam�lia humana. Tal fam�lia humana s� pode existir com base no respeito e no reconhecimento do car�ter pessoal de cada membro. Somente com respeito, por�m, � que podemos tratar aquele que se mant�m como n�cleo incomensur�vel de cada religi�o ou que se priva da nossa compreens�o.

Valores �ticos como os acima mencionados, que s�o reconhecidos por todas as religi�es do mundo e que desempenham o papel principal como mecanismo de sua realiza��o, s�o os fundamentos em que se baseiam os direitos humanos, como proclama a carta das Na��es Unidas e as constitui��es de todos os estados civilizados. A miss�o das religi�es � manter esses valores vivos, de modo que sejam cumpridos, n�o somente pela vontade de estados ou de leis internacionais, mas pelo indiscut�vel sentimento pela vida, pelo respeito inato pela dignidade e pela liberdade de consci�ncia do homem, perten�a ele a qualquer classe, ra�a ou religi�o. Nenhuma press�o externa, nenhuma coordena��o estatal ou pol�tica pode produzir valores �ticos. Estes devem fluir do mais profundo interior do homem, espontaneamente, como de uma fonte natural que derrama sua riqueza e fartura no mundo e, nesse fluxo de auto doa��o, encontra sua liberdade e sua liberta��o. Somente tal liberdade pode nos preservar da arbitrariedade de objetivos ego�stas e tornar-se a liberdade de todos.



Extra�do do livro "Reflex�es Budistas", do Lama A. Govinda, ed. Siciliano
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