Doutrina da Reencarna��o e Ci�ncia
Um cientista que se sentisse atra�do pela �tica do budismo, mas que n�o soubesse o que fazer com a doutrina do renascimento, julgaria que se essa doutrina tivesse um fundo real deveria ser com o tempo tamb�m cientificamente comprov�vel � por meio de recorda��es corretamente demonstradas, que Buda defendeu e que, em casos isolados, ainda que n�o examinadas com suficiente cr�tica, parecem existir em nossa �poca.

Esta exig�ncia est� perfeitamente correta. Mas a prova aqui exigida de recorda��es demonstradas de forma incontest�vel foi apresentada muitas vezes e, caso os cientistas quisessem ter o trabalho de estudar essas provas e de examinar criticamente o material existente, a ci�ncia estaria em pouco tempo t�o bem informada a esse respeito como est� sobre a vida dos micr�bios e do sistema de estrelas da Via L�ctea.

O fato de o homem, por parte da ci�ncia, at� agora n�o ter se dado a esse trabalho, indica somente animosidade de alguns de seus representantes, assim como a defici�ncia da vis�o de mundo cient�fica � e n�o a impossibilidade da reencarna��o.
Um cientista deveria, ent�o, logicamente ter a seguinte posi��o: eu mesmo n�o tive, at� o momento, nenhuma experi�ncia desse tipo, tampouco pude averiguar se outros, que acreditam lembrar-se de nascimentos anteriores, poderiam apresentar provas concludentes para isto. Deixo assim essa pergunta em aberto, at� que tenha provas suficientes em m�os.

Aqui se demonstra, por�m, uma falta de verdadeira imparcialidade cient�fica. O cientista citado passa repentinamente e sem motivo l�gico para a asser��o oposta: se a ci�ncia n�o sabe nada sobre reencarna��o isso significa que tal coisa n�o existe e que Buda fez uma afirma��o incorreta.

Mas ser� que os microsc�pios e os telesc�pios intermedeiam uma realidade mais objetiva do que a viv�ncia da realidade, acess�vel a todos no pr�prio �ntimo, do que o testemunho de um Buda e de incont�veis outros que seguiram seu caminho?
Ser� o caminho da ci�ncia, que se volta para o externo, um pouco menos antropoc�ntrico do que aquele da vis�o interior? Quem se serve ent�o do microsc�pio e do telesc�pio sen�o o olho humano, e quem interpreta o observado sen�o a mente humana? Deixe o tibetano, intocado pelo saber moderno, olhar pelo microsc�pio, e ele ver�, l� dentro confirmados, seus dem�nios da doen�a; deixe-o olhar por um telesc�pio e ele reconhecer� os mundos irradiantes de suas contempla��es.

O cientista que toma suas observa��es por objetivas e por verdade absoluta � bem mais ing�nuo que o tibetano sem conhecimento cient�fico que, apesar da realidade desigualmente mais forte de suas contempla��es e viv�ncias de medita��o, acredita firmemente que nenhuma forma vis�vel, aud�vel ou imagin�vel � realidade, mas somente a manifesta��o de uma realidade, que adota outra forma de express�o em cada fase do conhecimento segundo o instrumento da observa��o.

Esta relatividade n�o desvaloriza os resultados da observa��o: ou da experi�ncia, somente indica a eles o seu lugar. Possibilita compreender as observa��es da ci�ncia e da viv�ncia religiosa, cada uma � sua maneira, e aproveit�-las conforme o seu car�ter. Este �tanto como� �, para os ocidentais defensores de dogmas da ci�ncia e da teologia, extremamente penoso, pois encontram-se, como disse t�o bem C. G. Jung (no seu pref�cio para o livro tibetano dos mortos), �ainda na fase da idade m�dia pr�-psicol�gica, onde somente as afirma��es s�o ouvidas, esclarecidas, defendidas, criticadas e argumentadas, mas onde a inst�ncia que faz as afirma��es � colocada � considerado como um programa fora da ordem do dia, segundo acordo geral�.

Essa ci�ncia, limitada a defini��es, que se esquece do compreens�vel em favor de puros conceitos, defronta-se com a realidade da viv�ncia. Disse Paul Dahlke:

�O momento art�stico da viv�ncia � no fundo livre de conceitos de realidade em forma��o, realidade in statu nascendi. S� podemos julgar o valor da ci�ncia a partir de conceitos. A ess�ncia do conceito, por�m, � a de que ele d� a realidade somente em forma hipot�tica, provis�ria. Uma �rvore � uma �rvore, no sentido conceitual, somente de forma provis�ria. A defini��o ��rvore� s� existe no tempo. Houve um tempo em que aquilo que eu defino agora como �rvore era semente, e haver� um tempo em que aquilo que defino agora como �rvore n�o mais o ser�, mas sim novamente semente, ou madeira morta ou ainda alguma outra coisa. A ess�ncia da intui��o art�stica (assim como a da meditativa), afinal de contas � que, olhando-se por sobre a forma conceitual, v�-se o �la�o de uni�o� como Goethe o viu em sua Metamorphose der pflanzen (Metamorfose das plantas).

Assim, compreendemos que perdura o momento do hipot�tico, do condicional de toda ci�ncia; que toda defini��o, toda forma��o de conceito, mesmo que n�o definitivo, � provis�ria, e que nos habituamos, em boa hora, a limitar o verdadeiro valor da ci�ncia. O rigor da l�gica com que a ci�ncia trabalha ou pode trabalhar n�o modifica em nada esta avalia��o condicional: a l�gica n�o � s� aplic�vel a pressupostos hipot�ticos, mas tamb�m a fict�cios, j� que a l�gica � at� mesmo mais rigorosamente exeq��vel quanto mais puramente hipot�ticas, mais fict�cias forem essas condi��es pr�vias, isto �, quanto menos confundidas com a realidade e menos a realidade do contexto as danificar. - A l�gica pura s� � adquir�vel �s custas do teor de realidade. - E, assim, sempre se repete: o homem, trocando a vida espiritual da humanidade pela raz�o, perde o melhor: a pr�pria realidade.�

A concess�o de que a ci�ncia, apesar dos futuristas ultramicrosc�pio e supertelesc�pio, possa mostrar e estudar somente o mundo das manifesta��es, e n�o o mundo como ele realmente �, n�o � um �empr�stimo ao transcendente�, como acredita o cientista citado no in�cio. � senso comum que em todos os triunfos do conhecimento cient�fico se manteve objetividade e mod�stia suficientes para reconhecer que n�o �existe somente um mundo, a saber, o mundo que se mostra aos nossos sentidos�, mas sim tantos mundos quantas dimens�es de consci�ncia existirem, isto �, infinitos.

Esta admiss�o aceita a ci�ncia no seu pr�prio �mbito, sem por isso excluir outros m�todos e esferas de investiga��o, como as da psicologia e os da experi�ncia meditativa. Tamb�m a�, onde m�todos exato-cient�ficos como os usados na f�sica e na matem�tica n�o podem ser empregados e onde opera��es de racioc�nio puramente l�gico n�o s�o suficientes para apresentar resultados ou provas, n�o prevalece nenhuma arbitrariedade, como sup�e nosso cientista, quando diz que em tal caso toda afirma��o, assim como o seu oposto, pode estar correta.

Descobrir um Buda e outros grandes no dom�nio da mente requer, como j� mencionado, metodologia r�gida e aprendizado mental que � � sua maneira � podem levar a resultados e observa��es �objetivas� do mesmo modo que os m�todos da ci�ncia. O cientista, que necessita de um rigoroso aprendizado na sua �rea, acredita contudo ser capaz de opinar sem o menor esfor�o e aprendizado em assuntos da experi�ncia ps�quica. � como se um colegial que mal dominasse a tabuada quisesse dar um parecer sobre a teoria da relatividade de Einstein � que aparentemente contradiz todo o racioc�nio l�gico euclidiano.

� um difundido erro de racioc�nio considerar iman�ncia e transcend�ncia como dois opostos que se excluem, em vez de admitir que aqui se trata de termos relativos � assim como no caso do �objetivo� e �subjetivo�. Aqueles que consideram iman�ncia e transcend�ncia fatores constantes partem do falso pressuposto de que os limites da consci�ncia humana s�o imut�veis e que, por isso, tudo o que excede a mesma � transcendente. Os defensores de dogmas das ci�ncias f�sicas e naturais n�o v�em que a consci�ncia pode modificar-se e tornar-se maior que os limites caracter�sticos do ser humano m�dio ou maior que o arbitrariamente considerado:

�N�o o racioc�nio l�gico, mas somente uma consci�ncia superior (bodhi) resolve a contradi��o em que se envolve sem esperan�as o racioc�nio comprometido com o f�sico, com o inferior.�

Quem nega esta possibilidade de consci�ncia superior para fazer do budismo um servo da ci�ncia o rebaixa ao n�vel de uma mera doutrina moral, que se esgota com os modelos usados ao bel-prazer do caminho das oito fases, das quatro verdades sagradas e, eventualmente, em uma doutrina casualista materialista mal compreendida, deixando de lado, contudo, �o la�o de uni�o�, ou seja, a solidariedade universal ou manifesta��o universal da consci�ncia, em que se baseia a doutrina do renascimento, assim como a id�ia-Anatta.

Algu�m que acredita que Buda s� assumiu a id�ia do renascimento �por motivos mission�rios�, isto �, por vantagens externas e contra sua convic��o maior � embora Buda explique formalmente t�-la conhecido pela pr�pria experi�ncia (o reconhecimento do renascimento constitui uma parte importante de seu processo de ilumina��o) � qualifica Buda como um charlat�o mesquinho. � dif�cil entender porque algu�m que defende tal opini�o se importe em trivializar o �irrefut�vel reconhecimento da ci�ncia� em rela��o aos ensinamentos do budismo.

Quem veio ao budismo acreditando que este concorda com os resultados da ci�ncia moderna (que amanh� n�o ser� mais moderna!) teria feito melhor se permanecesse na ci�ncia. O fato do budismo estar de acordo com muitos conhecimentos da ci�ncia n�o deve ser posto em quest�o. N�o �, no entanto, o budismo, cuja verdade � assim confirmada, que se aproxima da ci�ncia, mas sim a ci�ncia que finalmente, ap�s 2.500 anos, se aproxima dos conhecimentos do budismo. Que tenhamos finalmente a coragem de permanecer em nossas mais profundas e mais �ntimas convic��es, sem a muleta da ci�ncia sem nos importarmos se nossos contempor�neos concordam conosco ou n�o.



Extra�do do livro "Reflex�es Budistas", do Lama A. Govinda, ed. Siciliano
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