| Terceira Nobre Verdade | |||||||
| Cessa��o do Sofrimento da Exist�ncia
A Terceira Nobre Verdade � a completa cessa��o do sofrimento, ou extin��o da desarmonia entre o Eu idealizado e o mundo real. � conseguida pela total erradica��o de todas as formas de desejo, levando ao Nirvana. Nir, em s�nscrito, significa �n�o� e vana significa �cord�o�; assim, Nirvana pode ser traduzido literalmente como �n�o estar preso�, ou �estar liberto�. O Nirvana � realizado pela completa ren�ncia; n�o simplesmente ren�ncia aos objetos exteriores, mas, na realidade, pela ren�ncia interna �s liga��es com o mundo exterior. Deve-se notar que a mera cessa��o do sofrimento, ou mera destrui��o do desejo n�o � o Nirvana. Se assim fosse, equivaleria � aniquila��o, por�m nada � aniquilado. O fogo se apaga porque n�o h� mais combust�vel para aliment�-lo. � portanto a aniquila��o da ilus�o de separatividade do eu pessoal, do total dos apegos, afei��es para consigo mesmo, apetites de sede de desejos que envolve e suporta essa ilus�o; s�o todos destitu�dos juntamente com a ignor�ncia, o �dio, a ambi��o, a lux�ria e o mal que os acompanha. Eles morrem por falta do nutrimento que os sustentava para nunca mais retornar. Para eliminar completamente dukkha, deve-se eliminar sua raiz principal � �o desejo�. Por isso, Nirvana � tamb�m conhecido como a �extin��o da sede de desejo�, que se apresenta sob tr�s formas, como j� vimos na Segunda Nobre Verdade: desejo de prazer dos sentidos, desejo de existir e vir-a-ser (eternalismo); desejo de n�o-exist�ncia (aniquilamento). Assim, para que se d� o dissipar da ilus�o, � preciso destruir o �ser�, que � impermanente, ef�mero, perec�vel, nascido da ilus�o. Para isto torna-se necess�rio eliminar o desejo. Sensa��o do Arahant � Nagasena, aquele que n�o vai renascer est� sujeito �s sensa��es dolorosas? � Algumas. Outras, n�o. � Quais? � Pode ter sofrimentos f�sicos. Mentais, n�o. � Por qu�? � N�o desapareceu a causa. A causa dos sofrimentos f�sicos n�o desapareceu, mas extinguiu-se a causa dos sofrimentos mentais. O Bem-Aventurado disse: �Ele s� pode ter uma esp�cie de sensa��o, a f�sica, n�o a sensa��o mental.� � Se ele sofre, por que n�o realiza logo a sua extin��o pela morte? � Maharaja, o Arahant est� livre de apego e de avers�o. Os s�bios n�o querem o fruto verde, colhem-no quando est� maduro. Sariputra disse: �N�o desejo a morte. N�o desejo a vida. Aguardo minha hora como o servidor espera o seu sal�rio.� Serm�o a Radha sobre o que � o Ser Em Savathi, o vener�vel Radha dirigiu-se para junto do Bem-Aventurado e depois de sentar-se a seu lado perguntou: � Eu sempre ou�o falar do ser. Digna-se o Bem-Aventurado a explicar-me o que � o ser? � Esse desejo, essa sede, essa vontade, essa cobi�a, que t�m por objeto o corpo, que est�o enraizados no corpo e solidamente enraizados nele, constituem o ser. Esse desejo, essa vontade, essa cobi�a, que t�m por objeto as sensa��es, as percep��es, as forma��es mentais, a consci�ncia, enraizados no corpo, solidamente enraizados nele, constituem o ser. Imaginai, Radha, meninos ou meninas que se divertem a erguer castelos de areia. Enquanto eles n�o deixam de ter desejos, vontade, cobi�a, ou uma paix�o ardente por estes pequenos castelos de areia, eles os querem, divertem-se com eles, t�m-nos em grande apre�o e s�o ciosos deles. Mas, Radha, desde que estes meninos, ou estas meninas, deixem de ter desejo, vontade, cobi�a, ou paix�o ardente por estes pequenos castelos de areia, ali mesmo os desmantelam com os p�s e com as m�os, os derrubam e p�em abaixo, sem lhes encontrar o menor atrativo. Assim, Radha, reduzi e deixai de encontrar atrativos no corpo, aplicai-vos a destruir todo desejo que ele vos desperta. E do mesmo modo agireis com as sensa��es, percep��es, forma��es mentais e consci�ncia. Em verdade, Radha, a destrui��o do desejo � o Nirvana. (Samyutta Nikaya.) Os ensinamentos do Mestre foram explicados de diversos modos, empregando palavras diferentes de acordo com o desenvolvimento e capacidade de assimila��o das pessoas. Desta forma, nos textos, defini��es e descri��es se repetem de diferentes modos. Assim, encontramos v�rias defini��es e descri��es de Nirvana: �A cessa��o da continuidade e do vir-a-ser � Nirvana.� �O abandono e a destrui��o do desejo e da avidez pelos seus Agregados do apego � a cessa��o de dukkha.� � Bhikkhus, o que � o Absoluto (Incondicionado)? � a extin��o de todas as formas do desejo, do �dio, da ilus�o. Desta forma GAutama Buda definiu o Absoluto como Nirvana. Freq�entemente, Buda emprega, sem equ�voco, a palavra Verdade em lugar de Nirvana: �Ensinarei a Verdade e o Caminho que leva � Verdade.� �A liberta��o fundada na Verdade � inquebrant�vel. O que � irreal � falso; a Realidade � a Verdade Absoluta � Nirvana.� �Foi descoberta esta verdade, profunda, dif�cil de se ver, dif�cil de compreender, que apazigua o cora��o, que � sublime, que escapa a racioc�nio e n�o pode ser conhecida, sen�o pelos s�bios.� A Humanidade vive, agita-se e permanece no turbilh�o do mundo. Ser�, por conseguinte, dif�cil a Humanidade compreender o encadeamento das causas e efeitos, e mais dif�cil ainda compreender a entrada no repouso de todas as forma��es, o desprendimento das coisas da terra, a extin��o da concupisc�ncia, a cessa��o do desejo, o Nirvana.� Onde, pois, est� o Nirvana, esse algo que � de fato o Real, a Verdade que libera e apazigua o cora��o, conforme nos afirmam as cita��es de Gautama Buda? Se em parte alguma encontramos o Real e se, analisando as individualiza��es f�sicas e biol�gicas e o nosso pr�prio eu, n�o encontramos nada permanente, onde encontrar o Real? O que nos impede de conhec�-lo � a nossa concep��o errada face � pluralidade do mundo das formas, onde a nossa mente se perde, perdendo assim a unidade do Universo; considerando-o como multiplicidade de coisas reais, n�s damos realidade a coisas que, em si mesmas, n�o a t�m, e essa confus�o se estende � ilus�o de um eu real e eterno. S� quando compreendermos que tudo no Universo � impermanente, ef�mero, uma cadeia de causas e efeitos sem realidade substancial, e que tudo aquilo que julgamos ser eu � apenas um agregado impermanente, ef�mero, n�o-real, s� ent�o a compreens�o da unidade do todo se d� e, com isso, o dissipar da ilus�o. Assim, a realidade permanente existe, n�o, por�m, na base do nosso eu, onde a procur�vamos, nas formas individualizadas, pelo nosso ponto de vista ilus�rio. Quando esse erro se dissipa e os falsos desejos une oriundos se extinguem, o permanente se revela, � o Nirvana. A Verdade n�o se liga a nenhum Eu; � universal e conduz � equanimidade. Assim, interpretamos o Nirvana como a aniquila��o da ilus�o da falsa id�ia de um �eu pessoal�, onde toda no��o de consci�ncia de individualidade cessa. Um dos sin�nimos comumente encontrados � Liberta��o, Liberdade absoluta, isto �, liberdade de estar livre da ignor�ncia, do desejo, do �dio e de todos os conceitos de dualidade, relatividade, tempo e espa�o. �O dissipar da ilus�o do eu � o Despertar completo, � a permanente Vigil�ncia ou Plena Aten��o.� N�o conhecemos a Verdade porque n�o somos vigilantes e, por isso, n�o nos conhecemos a n�s mesmos. Nossa a��o � sempre uma �rea��o� em fun��o dos desejos ou menos inconscientes que d�o conte�do ao ser. Face aos est�mulos do mundo exterior, reagimos em fun��o das nossas limita��es que s�o representadas por esses desejos. Ao mesmo tempo, alimentamos, consolidamos e obedecemos ao determinismo c�rmico o qual estamos submetidos. O dissipar da ilus�o � um estado de permanente vigil�ncia, em fun��o da qual h� autoconhecimento e dissolu��o do determinismo c�rmico. �Aos olhos do Buda, a procura do Nirvana � semelhante � a��o de vigiar dia e noite�. Assim, Nirvana � o estado de permanente Plena Aten��o, � o fim dos renascimentos. Para termos uma id�ia do Nirvana como Verdade absoluta, existe um not�vel discurso, no Majjhima-Nikaya, onde o Mestre dirigiu a palavra a Pukkusati, cuja s�ntese se segue. Tudo o Que a Mente Concebe � Cria��o Mental � Seis s�o os elementos que constituem o homem: solidez, fluidez, calor, movimento, espa�o e consci�ncia. O disc�pulo os analisa e descobre que nenhum deles � �eu� ou �meu�. Analisando, compreende como a consci�ncia surge e desaparece, como as sensa��es agrad�veis, desagrad�veis ou indiferentes surgem e desaparecem. Em conseq��ncia desse conhecimento, sua mente se desapega. Percebe, ent�o, em si mesmo uma equanimidade pura, que ele pode dirigir alcan�ando um dos mais elevados estados espirituais. Ele sabe que esta pura equanimidade perdurar� por um longo per�odo de tempo. Mas observa: Se dirijo esta pura e clara equanimidade at� a Esfera do Espa�o Infinito e se se desenvolve uma mente correspondente, � uma cria��o mental. Se dirijo esta pura e clara equanimidade em dire��o � Esfera da Consci�ncia Infinita, ou em dire��o � Esfera onde n�o existe Percep��o, nem n�o-Percep��o, e se se desenvolve uma mente correspondente, � uma cria��o mental. Logo, ele n�o mais cria mentalmente, nem deseja a continuidade, o vir-a-ser, ou a aniquila��o. N�o se apegando a nada neste mundo, n�o sentindo apego, n�o est� ansioso; como est� liberto de toda ansiedade, est� completamente apaziguado (a chama do desejo est� completamente extinta dentro de si). Ele sabe: �Terminou o renascimento, a vida pura foi vivida, fiz o que tinha de fazer.� Ap�s isto, quando experimenta uma sensa��o agrad�vel, desagrad�vel ou indiferente, sabe que todas s�o impermanentes, n�o se apega a elas, nem as experimenta com paix�o. Qualquer que seja a sensa��o, ele a experimenta sem apego, ou avers�o. Sabe que, com a dissolu��o do corpo, essas sensa��es se apaziguar�o, como a chama de uma l�mpada quando o combust�vel e o pavio se consomem. Conseq�entemente, bhikkhus, uma pessoa assim dotada possui a Sabedoria absoluta, porque o conhecimento da extin��o total de dukkha � a nobre e absoluta Sabedoria. Aqueles que s�o desapegados, neste mundo, daquilo que foi visto, entendido ou pensado, de toda virtude e de todas as obras; que ap�s terem-se desapegado de toda esp�cie de causa e terem penetrado a ess�ncia do desejo s�o) sem paix�o, a esses eu chamo homens que atravessaram a correnteza. Referindo-se ainda ao Nirvana, Buda disse: �Bhikkhus, existe o n�o-nascido, o n�o-tornado a ser (n�o-causado, incriado, inconstitu�do, o n�o-condicionado). Se n�o existisse o n�o-nascido, o n�o-causado, o n�o-condicionado, n�o haveria nenhuma possibilidade de liberta��o para o nascido, o causado, o condicionado.� Na descri��o sobre a origem de dukkha vimos que o ser, a coisa, ou sistema, se tem dom de produzir-se, possui em si a natureza, o germe da sua cessa��o, da sua destrui��o. Dukkha, o ciclo da continuidade � samsara �, tem por natureza o aparecimento; portanto, tem a natureza de cessar. Dukkha surge por causa do desejo ardente, da �sede� (tanha) e cessa devido � Sabedoria. Sede e Sabedoria encontram-se inclu�das nos Cinco Agregados, como j� foi visto. Se tua conduta, bhikkhu, foi caridosa e pura, ent�o na plenitude da alegria, ter�s posto termo ao sofrimento. O Nirvana � �alcan�ar o c�u�, do nosso ponto de vista ocidental, n�o sendo necess�rio esperar a morte para realiz�-lo. O Nirvana n�o � uma condi��o negativa, ou positiva. As no��es de �negativo� e �positivo� s�o relativas e pertencem ao dom�nio da dualidade. O Nirvana est� al�m do pensamento de dualidade e de relatividade; portanto, est� fora das nossas concep��es do bem e do mal, do justo e do injusto, da exist�ncia e da n�o-exist�ncia. Mesmo a palavra �felicidade�, usada para descrever o Nirvana, tem um sentido completamente diferente. Sariputra disse uma vez a Udayil: - Amigo, Nirvana � a felicidade. � Mas, amigo Sariputra, que felicidade pode ser, se n�o h� sensa��o? A resposta de Sariputra � altamente filos�fica: � N�o tendo sensa��o � isso mesmo � que � felicidade. Estes termos, portanto, n�o podem ser aplicados ao Nirvana; a Verdade Absoluta est� al�m da dualidade e da relatividade. O Nirvana � um estado incondicionado de inef�vel bem-aventuran�a, de paz e alegria sem limites, como se atesta pelas declara��es daqueles que o alcan�aram. Aquele que realizou esta Verdade � Nirvana � � o mais feliz dos seres. Sua sa�de mental � perfeita, n�o se arrepende do passado, nem se preocupa com o futuro; vive o momento presente, est� livre da ignor�ncia, dos desejos ego�stas, do �dio, da vaidade, do orgulho, livre das dificuldades e dos problemas que atormentam os outros. Torna-se um ser puro, meigo, cheio de amor universal, compaix�o, bondade, simpatia, compreens�o e toler�ncia. Presta servi�o aos outros com a maior pureza, pois n�o pensa egocentricamente, n�o procura lucro, nem acumula coisa alguma; nem os bens espirituais, porque est� livre da ilus�o do �eu�, da sede e desejo de vir-a-ser. Naquele que � caridoso, a virtude crescer�. Naquele que se domina a si pr�pr�o, nenhuma c�lera pode aparecer. O homem justo rejeita toda maldade. Pela extirpa��o da concupisc�ncia, do �dio e de toda ilus�o, tu atingir�s o Nirvana. Onde Est� o Nirvana? Certa vez, o br�mane Kutadanta perguntou ao Buda: � Vener�vel Mestre, onde est� o Nirvana? � Onde quer que se obede�a � Lei (Doutrina). Kutadanta replicou: � Ent�o o Nirvana n�o est� em parte alguma e, portanto, n�o tem realidade. O Bem-Aventurado disse: � N�o me entendeste. Escuta e responde. Qual � a morada do vento? Onde habita? � Em parte alguma. � Ent�o n�o existe o vento? � uma ilus�o? Kutadanta n�o soube responder, e o Buda tornou a perguntar: � Dize-me, � br�mane, onde reside a sabedoria? Est� em algum lugar? � A sabedoria n�o tem lugar determinado, disse Kutadanta. E o Bhagavad disse: � Dir�s que n�o h� sabedoria, nem justi�a, nem salva��o porque, como o Nirvana, elas n�o t�m lugar determinado? Assim como a brisa veloz atravessa o mundo durante o calor do dia, tamb�m o Tathagata veio aliviar a mente humana com o delicado e suave sopro que alivia o calor de todo sofrimento. Faze com que tua mente repouse na Verdade, difunde a Verdade e p�e a Verdade em teu ser. E na verdade, viver�s eternamente! O apego ao eu e � personalidade � morte cont�nua, ao passo que quem vive e se move na Verdade, alcan�a o Nirvana. O Nirvana n�o pode ser descrito porque n�o h� nada em nossa experi�ncia mundana com o qual possa ser comparado, e nada que possa ser usado para fornecer uma analogia satisfat�ria. Ainda � poss�vel alcan��-lo e experiment�-lo enquanto com o corpo vivo e, desse modo, obter a inabal�vel certeza de sua realidade como um Dharma (Doutrina) que � independente de todos os fatores da vida condicionada. Este � o estado que Buda alcan�ou em vida e que possibilitou aos outros o atingirem, depois dele. Ele mostrou o Caminho com o convite: �Venha e veja por voc� mesmo�. Tem-se perguntado o que acontece ao Buda (Arahant) ap�s sua morte (Parinirvana). Existe uma palavra que � empregada para indicar a morte de um Arahant que atingiu o Nirvana: � Paranibuto e significa �totalmente morto�, �totalmente extinto�, porque um Buda (indiv�duo que atingiu o Nirvana) n�o renasce em nenhum plano depois da morte. Respondendo a um asceta, o Buda disse que termos como �nascido� ou �n�o-nascido� n�o se aplicam a um Arahant, porque coisas como mat�ria, sensa��o, percep��o, atividades mentais, consci�ncia, com as quais os termos �nascido� ou �n�o-nascido� acham-se associados, est�o completamente destru�dos e desenraizados para n�o mais surgirem ap�s a morte. Quando se desenvolveu e cultivou a Sabedoria de acordo com a Quarta Nobre Verdade, que descreveremos a seguir, as coisas s�o vistas na realidade tais como s�o. Descobrindo-se a Verdade, todas as for�as que produzem a continuidade do samsara se acalmam, tornam-se incapazes de produzir novas forma��es c�rmicas, pois n�o h� mais ilus�o, nem �sede de desejo� para manter a continuidade. Seguindo o caminho com paci�ncia e aplica��o e se conscientemente nos exercitarmos e purificarmos seriamente, se alcan�armos o desenvolvimento espiritual necess�rio, chegar� o dia em que nos ser� poss�vel experimentar o Nirvana em n�s mesmos sem nos embara�armos com palavras enigm�ticas ou misteriosas. Esta Terceira Nobre Verdade ser� melhor compreendida pelo conhecimento da Nobre Senda �ctupla, que constitui a Quarta Nobre Verdade. |
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