| Quarta Nobre Verdade | |||||||||
| Caminho que Leva a Cess�o do Sofrimento
Caminho �ctuplo A Quarta Nobre Verdade � a que indica o Caminho que leva � extin��o do sofrimento, conseguido pela trilha da Senda �ctupla, tamb�m conhecida como �Caminho do Meio�, porque evita os dois extremos: primeiro, o da auto-indulg�ncia, conforto e prazer f�sico que traz apego �s paix�es (� pr�prio dos indiv�duos que procuram a felicidade atrav�s dos prazeres dos sentidos); segundo, o da autotortura, automortifica��o, ou sofrimento f�sico que traz perturba��o � mente: uma psicose, mediante diferentes formas de ascetismo. Nem o ascetismo, nem o prazer permitem realizar o Caminho. � preciso abandonar esses dois extremos e seguir o Caminho do Meio. Certa ocasi�o, Buda estava na Montanha dos Abutres junto � cidade de Rajagaha. Num bosque pr�ximo, um monge de nome Sona estava entregue � medita��o; aplicava-se bastante, mas, n�o realizando a ilumina��o e sentindo-se desnorteado, veio ter com o Buda e perguntou: - Mestre, estou fazendo exerc�cios sever�ssimos. Dentre todos os disc�pulos, n�o h� quem me iguale em zelo. Por que, ent�o, n�o consigo realizar a ilumina��o? Talvez seja melhor que eu volte para casa. Tenho bens que me permitem levar uma vida feliz. N�o � melhor que eu abandone este caminho e volte ao mundo? - Sona, antes de seres monge, eras um ex�mio harpista, n�o? - Bem, eu tinha certa habilidade com esse instrumento. - Ent�o responde: quando as cordas da harpa est�o muito tensas, obt�m-se bom som? - N�o, Mestre. - Quando as cordas est�o frouxas, obt�m-se bom som? - Tamb�m n�o, Mestre. - Ent�o, como fazer para obter bom som? - As cordas n�o devem estar nem tensas, nem frouxas demais. - O mesmo se d� com a pr�tica do Dharma, Sona. A aplica��o demasiada traz inquieta��o � mente, e a despreocupa��o traz neglig�ncia. � necess�rio seguir o Caminho M�dio entre esses dois extremos. Desde ent�o, Sona passou a exercitar-se segundo tais instru��es, realizando, por fim, a ilumina��o. Gautama Buda, tendo experimentado esses dois extremos e reconhecendo a inutilidade deles, descobriu por experi�ncia pr�pria o Caminho do Meio que condensa o esp�rito da moral budista, conhecido como Caminho �ctuplo, e consiste dos seguintes princ�pios: 1. Palavra Correta (perfeita) 2. A��o Correta (perfeita) 3. Meio de Vida Correto (perfeito) 4. Esfor�o Correto (perfeito) 5. Plena Aten��o Correta (perfeita) 6. Concentra��o Correta (perfeita) 7. Pensamento Correto (perfeito) 8. Correta Compreens�o (perfeita) Estes oito fatores est�o entrela�ados entre si e cada um contribui para o aparecimento e desenvolvimento dos outros. S�o estas as poderosas for�as morais e mentais que, reunidas, nos ajudam a nos libertar do desejo. A finalidade destes oito fatores � facilitar o aperfei�oamento dos tr�s elementos essenciais no treinamento da disciplina budista, que s�o: 1) Conduta �tica; Moralidade (Sila) II) Disciplina mental: Concentra��o e Medita��o (Samadhi) III) Introspec��o: Sabedoria (Panna) 1. Conduta �tica: Moralidade (Sila) � baseada na ampla concep��o de amor universal e compaix�o para com todos os seres; n�o somente os humanos, mas todos os seres vivos. Segundo o Budismo, para que um ser humano seja perfeito, deve cultivar igualmente duas qualidades: compaix�o e sabedoria, que devem permanecer insepar�veis. A compaix�o inclui o amor no sentido universal (n�o condicionado a s�mbolos, conceitos, etc.), a caridade, a toler�ncia, assim como todas as nobres qualidades do cora��o (lado afetivo); ao passo que a sabedoria representa as qualidades da mente. Se um indiv�duo desenvolve somente o seu lado afetivo e descuida o lado mental, ser� um tolo de bom cora��o; se, ao contr�rio, este mesmo indiv�duo desenvolve seu lado mental e descuida o lado afetivo, � prov�vel que se torne um intelectual insens�vel, frio, sem nenhum sentimento para com os demais. Desta forma, estes dois homens nunca alcan�ar�o a perfei��o. A conduta �tica, baseada no amor e na compaix�o, consta de tr�s fatores do Caminho �ctuplo: 1.�) Palavra Correta, 2.�) A��o Correta, 3.�) Meio de Vida Correto. 1.�) Palavra Correta, ou linguagem pura, � a que traduz honestidade, verdade, paz, carinho; que � cort�s, agrad�vel, ben�fica, �til, moderada e sens�vel. Significa absten��o das mentiras, difama��o, cal�nia e de todas as palavras capazes de provocar �dio, inimizade, desuni�o e desarmonia entre indiv�duos, ou grupos sociais. Abster-se de linguagem rude, brutal, descort�s, ofensiva ou injuriosa; enfim, abster-se de conversa��es sem sentido, f�teis e v�s; abster-se de linguagem err�nea e perniciosa. Deve-se dizer a verdade em ocasi�o oportuna, empregando palavras amig�veis, ben�volas, agrad�veis, doces, significativas e �teis. Nunca falar negligentemente, mas sempre com conveni�ncia de tempo e de lugar. Quando n�o se tem nada de �til a dizer, deve-se �guardar o nobre sil�ncio�. Para desenvolver a palavra correta, isto �, evitar as err�neas maneiras de falar, n�o basta apenas boa inten��o, pois esta falha � constante; � indispens�vel haver uma cultura mental que, desenvolvendo a concentra��o, leve o indiv�duo ao autocontrole e � sabedoria interior. A palavra correta � dirigida pelo pensamento correto e a��o correta. �Melhor que mil palavras sem sentido, � uma s� palavra sensata, capaz de trazer paz �quele que a ouve.� (Dhammapada) 2.�) A��o Correta, ou conduta pura, tem por fim cultivar uma conduta moral honrada e pac�fica e ajudar os outros na mesma finalidade, a qual nos exorta, tamb�m, a evitar destruir vidas, fazer uso de t�xicos que perturbam a mente, ou fazem perder a consci�ncia; roubar ou explorar, assim como o mau uso das rela��es sexuais. Aquele que destr�i uma exist�ncia, que mente, que rouba, que cobi�a o c�njuge alheio e se entrega �s bebidas alco�licas ou t�xicas, este, j� neste mundo, est� destru�do. A a��o correta � dirigida pelo pensamento correto. 3.�) Meio de Vida Correto, ou meios de exist�ncia puros, conduzem o indiv�duo � aquisi��o do bem-estar material e espiritual pr�prio, ajudando os demais na mesma finalidade. Significa que se dever� evitar ganhar a vida numa profiss�o ou ocupa��o que possa ser nociva a outros seres vivos, como com�rcio de armas ou instrumentos mort�feros, ca�a, pesca e matadouros, bebidas alco�licas, venenos, entorpecentes, jogos que possam causar preocupa��es, etc. Fazer profiss�o de poderes ps�quicos, tais como magnetismo ou hipnotismo, na cura de pacientes, previs�es sobre o futuro baseadas em cartomancia, astrologia etc. O meio de vida correto � dirigido pelo pensamento correto. Quaisquer sistemas de moral e �tica est�o enquadrados nesses tr�s aspectos: palavra correta, a��o correta e meio de vida correto. Sem esses tr�s fatores, nenhum desenvolvimento espiritual ser� poss�vel. II. Disciplina Mental: Medita��o (Samadhi) Compreende os tr�s seguintes fatores do Caminho �ctuplo: Esfor�o Correto, Plena Aten��o ou Vigil�ncia Correta e Concentra��o Correta (n.�s 4, 5, 6), por meio dos quais se alcan�a o desenvolvimento mental e a vis�o interior (intuitiva). 4.�) Esfor�o Correto, ou aplica��o pura, � a arma que possu�mos para enfrentar corretamente a luta contra o mal; consta do seguinte: a) Esfor�o de evitar e destruir os pensamentos negativos j� existentes. b) En�rgica vontade de impedir ou superar o aparecimento de pensamentos maus e nocivos. c) Fazer surgir pensamentos bons e sadios ainda n�o existentes. d) Manter, cultivar e desenvolver, at� � perfei��o, os pensamentos bons e sadios j� existentes. 5.�) Plena Aten��o Correta, ou Vigil�ncia Correta, consiste numa aten��o vigilante com tomada de consci�ncia nas atividades do corpo � kaya �, nas sensa��es � vedana �, nos diferentes estados da mente � citta � (nas id�ias, pensamentos, etc.), e na investiga��o da Doutrina � Dharma � (Verdade sobre o nosso ser). A Plena Aten��o mental correta � um dos principais fatores do Caminho �ctuplo, pois � necess�rio que esteja presente para o desenvolvimento dos demais fatores. Desta maneira, para desenvolver a palavra correta, a a��o correta e o meio de vida correto � necess�ria a Plena Aten��o mental para que no momento exato n�o nos deixemos levar pelas err�neas maneiras de falar, pelas a��es demerit�rias, ou pelo incorreto meio de vida. A Plena Aten��o mental correta � chamada �Guarda da mente�; � a vigia da mente, que est� sempre observando, porque a mente, por si s�, vaga a todo instante. No treinamento da medita��o, a pr�tica da concentra��o na respira��o, embora existam outras t�cnicas, � um dos exerc�cios mais divulgados em rela��o ao corpo, contribuindo para o desenvolvimento mental. Pela medita��o realiza-se autodisciplina, autocontrole e auto-conhecimento � pureza e ilumina��o (Sabedoria). Quanto �s sensa��es, � necess�rio ter clara consci�ncia de todas as suas formas: agrad�veis, desagrad�veis e indiferentes; de como surgem, se desenvolvem e desaparecem. No que se refere aos diferentes estados da mente, deve-se estar atento e analisar todos os movimentos mentais; se neles est�o presentes o �dio, ou n�o, a cobi�a, ou n�o; se eles se deixam levar por uma ilus�o, ou n�o, se a mente est� distra�da, ou atenta, e estar consciente de como surgem e desaparecem. Enfim, quanto �s id�ias, pensamentos e concep��es das coisas, devemos distinguir sua natureza, saber como surgem, se desenvolvem e desaparecem, como s�o suprimidos ou destru�dos, e assim sucessivamente. (Estas quatro formas de treinamento mental de medita��o s�o tratadas pormenorizadamente no cap�tulo �Medita��o ou Desenvolvimento Mental�.) 6.�) Concentra��o Correta � a condi��o indispens�vel para todo e qualquer desenvolvimento espiritual. Qualquer religi�o ou pr�tica, sem concentra��o, torna-se fr�gil e, na ora��o, as palavras tornam-se in�teis. Quanto mais concentra��o nas palavras de uma ora��o, mais poderosa ela se torna. A ora��o feita desta forma � um tipo de medita��o. O poder dos raios solares dispersos em todas as dire��es se torna maior quando concentrados num ponto por uma lente. Da mesma maneira nossa mente est� constantemente dispersa; quando concentrada num objetivo �nico, ela se torna poderosa e com isso desenvolve a sabedoria interior. A Concentra��o Correta � o terceiro e �ltimo fator da disciplina mental � samadhi �, estado em que o indiv�duo � levado � abstra��o de si mesmo pelo treino da medita��o nas quatro etapas de dhyana. Na primeira etapa de dhyana s�o afastados os desejos apaixonados, pensamentos impuros como sensualidade, m� vontade, confus�o, agita��o e d�vida c�tica. Mas est�o presentes os sentimentos de alegria, de felicidade, assim como certa atividade mental. Na segunda etapa, desaparecem todas as atividades mentais e desenvolvem-se a tranq�ilidade e a fixa��o unificadora da mente; no entanto os sentimentos de alegria e felicidade ainda est�o conservados. Na terceira etapa, o sentimento de alegria, que � uma sensa��o ativa, desaparece tamb�m, persistindo ainda uma disposi��o de felicidade com equanimidade consciente. Finalmente, na quarta etapa de dhyana, toda sensa��o, mesmo de felicidade ou infelicidade, de alegria ou pesar, desaparece, restando somente a equanimidade e a lucidez mental. Recolhimento ou Concentra��o � Nagasena, qual � a caracter�stica da concentra��o? � A supremacia. Os estados salutares da mente subordinam-se � concentra��o. Esta � o cume do qual esses estados da mente s�o as encostas, as ladeiras e o sop�. � D� uma compara��o. � Quando um monarca mobiliza o seu ex�rcito para a guerra, os elefantes, os cavalos e a infantaria est�o sob seu comando, obedecem �s suas ordens. D�-se o mesmo com a concentra��o. Recomendou o Bem-Aventurado: �Religiosos e leigos, cultivai a concentra��o. O homem na concentra��o v� a realidade.� Desta forma a mente fica disciplinada e desenvolvida por meio do Esfor�o Correto, Aten��o Correta e Concentra��o Correta. III. Introspec��o: Sabedoria (Panna) Consta dos dois fatores restantes da Nobre Senda �ctupla (n.�s 7 e 8): o Pensamento Correto e a Correta Compreens�o. 7.�) Pensamento Correto, ou pensamento puro, � o correto pensar com sabedoria, com equanimidade e contempla��o. � o pensamento dirigido no sentido da ren�ncia, do desapego, da compaix�o, do amor universal, da n�o-viol�ncia, estendendo-se a todos os seres vivos. Desenvolvendo estas qualidades, eliminamos todo pensament6 ego�sta de apego, m� vontade, �dio, viol�ncia ou crueldade, seja de ordem individual, social ou pol�tica, que � fruto da ignor�ncia. O pensamento correto n�o aparece quando existem pensamentos ligados aos apegos dos sentidos. �Tudo o que somos � resultado do que temos pensado (cria��o mental). Se um homem fala ou age com uma mente impura, o sofrimento acompanha-o t�o perto como a roda segue a pata do boi que puxa o carro. Se o homem fala ou age com a mente pura, a felicidade o acompanha como sua sombra insepar�vel.� (Dhammapada) Donde se conclui que do nosso pensamento s� colhemos bons e maus frutos. Os pensamentos corretos s�o interdependentes da compreens�o correta. No seu discurso sobre o Amor Universal � Metia sutta �, Buda nos d� um ensinamento que auxilia a vencer os pensamentos negativos: utiliz�-los como tema de medita��o. 8.�) Correta Compreens�o, a compreens�o que, pela contempla��o pura, permite reconhecer e penetrar na realidade da exist�ncia da insatisfa��o universal, criada pela desarmonia entre os seres e o mundo exterior. No Budismo h� duas formas de compreens�o: a primeira forma de compreens�o � a do conhecimento, mem�ria acumulada, capta��o intelectual de um assunto, segundo certos dados etc. � designada pelo nome de �conhecer segundo. . .� � Anubodha � que � o conhecimento pelos conceitos; n�o � muito profunda. A compreens�o verdadeiramente profunda denomina-se �penetra��o� � Patirodha. Consiste em ver uma coisa em sua verdadeira natureza, sem nome ou r�tulo. Esta penetra��o s� � poss�vel quando a mente est� livre de toda impureza e quando completamente desenvolvida na pr�tica da medita��o. A compreens�o pela �vis�o interior � a mais alta sabedoria que o homem pode atingir, e somente atrav�s dela poder� realizar a Realidade �ltima, que consiste na compreens�o das coisas tais como s�o, sem condicionamentos. As Quatro Nobres Verdades as explicam claramente. Na Primeira Nobre Verdade, a natureza da vida, seu sofrimento, tristezas e alegrias, sua insatisfatoriedade, sua imperman�ncia e sua insubstancialidade; devemos compreend�-la como fato claro e completo. Quanto � Segunda Nobre Verdade, origem de dukkha, que � acompanhado de todas as paix�es, vilezas e impurezas, a simples compreens�o n�o � suficiente; torna-se necess�rio afastar, eliminar, destruir a origem desse desejo. Quanto � Terceira Nobre Verdade, que � a cessa��o de dukkha, o Nirvana, a Verdade Absoluta, a Realidade �ltima, precisamos compreend�-la e realiz�-la. Em rela��o � Quarta Nobre Verdade, que � o que conduz � realiza��o da Liberta��o, ou experi�ncia do Nirvana, apenas o conhecimento do Caminho, por mais completo que seja, � insuficiente. Torna-se necess�rio segui-lo e manter-se nele. Gautama Buda afirma que aquele que v� qualquer uma das Quatro Verdades, v� tamb�m as outras. Assim, dizia: �Aquele que v� imperman�ncia (dukkha) v� tamb�m a origem de dukkha, v� a cessa��o de dukkha e tamb�m v� o caminho que conduz � cessa��o de dukkha�. Esta resumida exposi��o apresenta um modo de vida que pode ser praticado e desenvolvido por qualquer indiv�duo. � uma disciplina do corpo, da palavra e da mente, sendo, assim, um autoconhecimento e uma autopurifica��o. Isto nada tem a ver com cren�as, ora��es, adora��es ou cerim�nias. Neste sentido, n�o cont�m nada que possa ser chamado popularmente �religi�o�; � um caminho que conduz � compreens�o da Realidade �ltima, � liberdade, � felicidade e � paz, mediante a perfei��o moral, intelectual e espiritual. Nos pa�ses budistas h� costumes e cerim�nias simples. Elas, entretanto, t�m pouca rela��o com o verdadeiro Caminho que Buda ensinou ser pura ci�ncia e filosofia de vida, por�m s�o �teis e v�lidas, at� certo ponto, para satisfazer certas emo��es e necessidades m�sticas dos povos. |
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