| Budismo como Ciência, Moral e Filosofia | ||||||||
| “Evitar o mal, fazer o bem, purificar a mente” são os preceitos de todos os Budas.
O Budismo é uma filosofia de caráter essencialmente psicológico, uma maneira de viver, tendo em vista a Correta Compreensão, isto é, o reconhecimento da existência do sofrimento, a verdade da causa do sofrimento, “o eterno auge da felicidade” — Nirvana — e o verdadeiro Caminho que leva à cessação do sofrimento, conhecido como NOBRE CAMINHO ÓCTUPLO — Caminho da Correta Compreensão, Caminho do Meio. A palavra Buda, significando “o Iluminado”, expressa literalmente “aquele que atingiu a Completa Compreensão”; vem da palavra Bodhi, que em pali quer dizer “Suprema Compreensão, Iluminação”; o termo Budismo, pelo qual ficaram sendo conhecidos todos os seus ensinamentos, significa Caminho da Correta Compreensão. Daí o Budismo, que é orientado no sentido da Correta Compreensão, torna-se uma filosofia viva, que pertence a todos que procuram as verdades reais, sendo por isso adaptável a todos, em qualquer época, sem distinção de raça, religião ou credo. Tais ensinamentos, de uma forma ou de outra, fazem parte integrante da espiritualidade e da essência de todas as religiões, pois só existe uma Verdade, como todas as águas refletem a mesma lua. O termo Budismo, com o decorrer do tempo e a inclusão de rituais e outras formas externas, tornou-se um rótulo de aparência sectária, como todo rótulo religioso. Buda e Budismo tornaram-se, assim, termos convencionais; contudo, os budistas preferem a denominação da Doutrina do Buda (Buda Dharma). A Doutrina do Buda não determina uma crença ou credo, mas um “venha e veja”; é uma filosofia viva cujos ensinamentos não foram ultrapassados pela Ciência ou Psicologia modernas. No Budismo está a resposta aos que procuram o sentido da vida, a resposta aos vários problemas psicológicos e sociais, espirituais ou místicos dos nossos dias; ele não é baseado em teorias e especulações. As Quatro Nobres Verdades ensinadas por Buda são o caminho da libertação de todo o sofrimento da existência, aqui mesmo nesta vida. Ao longo de toda a sua gloriosa existência, Gautama Buda sempre fez questão de ressaltar sua natureza humana, não se atribuindo nenhuma inspiração divina ou algum poder sobrenatural. Atribuiu sua iluminação, isto é, a percepção direta e total da Verdade, somente ao esforço próprio, paciência e inteligência estritamente humanas. Encontrou e indicou o Caminho que conduz à libertação ou Nirvana e provou que o homem possui em si a possibilidade de alcançar tal estado. Ensinava e encorajava todos no sentido de conseguirem sua própria libertação, ou emancipação. Segundo o Budismo, é o homem quem traça a rota do seu próprio destino. Assim, Gautama Buda exortava seus discípulos a que eles mesmos fossem seus próprios refúgios, ou ajudas. Estimulava em cada um o autodesenvolver-se, porque, mediante seu próprio esforço e dedicação, o homem tem em suas mãos o poder de libertar-se da escravidão, da ignorância e de todo o sofrimento. O Budismo ensina o homem a ser seu próprio mestre, a libertar-se dos condicionamentos, dentre os quais principalmente os preconceitos, a não permanecer dependente de cultura ou análises intelectuais, como também a não se apegar a nenhum instante passado, nem a nada ainda não acontecido, a viver integralmente o presente e a reconhecer o mundo e a si próprio tais como são. Diferentes Escolas Buda nada escreveu; seus ensinamentos foram puramente verbais e ficaram na memória de seus discípulos que os transmitiram oralmente por repetição e recitação nos mosteiros da Índia; mais tarde surgiram diversos tratados que constituem o cânone sagrado dos livros budistas, conhecidos como Tipitaka em pali, ou Tripitaka em sânscrito. Os ensinamentos de Gautama Buda se revestem de um caráter psicológico, filosófico e moral, e ele sempre aparece como um mestre, um pensador, um sábio, um verdadeiro cientista, que estuda e analisa a fisiologia da mente humana. Nos seus ensinamentos não há lugar ara adorações e preces. Devido à pouca divulgação do budismo no mundo ocidental, esta doutrina sofre interpretações as mais variadas e algumas delas completamente errôneas. Pode-se verificar que tanto Gautama Buda como outros grandes mestres não fundaram nenhuma religião em particular, seus discípulos e adeptos mais tarde divulgaram e interpretaram seus ensinamentos de diferentes modos, adaptando-os ao meio ou país em que viviam; como aconteceu no Budismo, aconteceu no cristianismo, Islamismo etc. O Budismo, com o passar dos tempos, expandiu-se em muitos países, sofrendo adaptações, adquirindo diferentes aspectos tanto filosóficos como religiosos, porém não se afastando demais da sua essência. Havendo a necessidade de fixar os ensinamentos autênticos do Mestre, dentre as diversas interpretações que pretendiam ser fiéis, foram realizados quatro grandes concílios. O primeiro Concílio realizou-se pouco após a morte de Gautama Buda, e dele participaram mais de quinhentos monges, entre os quais Ananda, discípulo predileto primo-irmão do Mestre, que o acompanhou nos seus últimos vinte anos de vida. Devido a divergências nas interpretações da doutrina do Mestre, formaram-se diferentes escolas que se agruparam em duas correntes principais. Assim, surgiu a Escola Theravada (Escola dos Anciãos), que se conservou fiel ao budismo primitivo, considerado a forma ortodoxa e original do Budismo, não se deixando influenciar demais por tendências místicas. Mais tarde formou-se outra escola. Os defensores desta nova corrente intitulavam-se a si mesmos Mahayana, ou Grande Veículo, em oposição à Escola Theravada a que chamaram, incorretamente, Hinayana, ou Pequeno Veículo. Acentuam os Mahayanas o aspecto social e a preocupação com a salvação dos demais, dando grande ênfase ao ideal do Bodbisattva, indivíduo altamente espiritualizado que, levado pela compaixão, retardava o estado de suprema Iluminação — Nirvana —, para ajudar os demais a encontrar a salvação. Entre as características próprias da Escola Mahayana, observamos maior interesse pela especulação filosófica. Seus adeptos procuram uma interpretação mais profunda da Lei, uma “sabedoria superior e transcendente”, dando lugar às escolas metafísicas do Budismo. A esse respeito, o 14.° Dalai-Lama conclui: “Muitas vezes na literatura budista Mahayana nota-se o desprezo pelo Theravada (Sravakayana), às vezes chamado ‘Hinayana’ (Pequeno Veículo), termo desagradável, com história bastante dúbia, de modo que é melhor evitá-lo sempre que possível. Sentimento de superioridade que resulta em depreciação é, afinal de contas, orgulho ou presunção, uma poderosa mancha mental." Convém lembrar que os Mahayanas começaram a ser mais numerosos só a partir de 800 d.C., quando o Budismo declinou definitivamente na Índia. Antes os Mahayanas e Theravadas viviam juntos nos mesmos mosteiros e durante muito tempo seguiram as mesmas regras monásticas, como diz o relato de I-Tsing, do ano 700: “Os adeptos do Theravada e do Mahayana praticam as mesmas regras monásticas, reconhecem as mesmas cinco categorias de erros, atêm-se às mesmas Quatro Nobres Verdades. Os que veneram os Bodhisattvas e lêem os sutras Mahayana, chamam-se Mahayanas; os que não o fazem, chamam-se Hinayanas ou Theravadas.” Por isso, no Tibete, é usada a palavra Sravakayana, que significa “Veículo dos Discípulos”, em lugar de Hinayana. A Escola Theravada difundiu-se, desde as primeiras missões enviadas pelo rei Asoka Piyadasse, no Ceilão, 300 a.C. Mais tarde, estendeu-se para a Birmânia, Tailândia, Camboja, Laos, Paquistão Oriental. O budismo Mahayana se desenvolveu ao Norte da Índia, Tibete, Mongólia e mais tarde, por volta do século V, na China, Coréia e posteriormente no Japão. Para se ter uma pequena idéia das numerosas e diferentes escolas budistas, enumeramos apenas as mais importantes, pois não é este o objetivo deste trabalho. Na Escola Theravada ou Hinayana (Escola dos Anciãos ou da Doutrina Ortodoxa budista) encontramos a Escola Realista — Sarastivada; a Escola dos Seguidores de Sutras — Sutrantica; a Escola da Pessoa — Pudgalavada, etc. Na Escola Mahayana encontramos: a Escola do Vazio — Sunyavada —, ou a Doutrina da Vida Média — Madhyanika, de Nagarjuna; a Escola da Mente ou da Consciência — Vijnavada ou Yogacara, de Asanga e Vasubandu e outras. No ano 520 d. C., o monge indiano Bodhidharma levou o budismo para a China, ficando aí conhecido pelo nome de Ch’an (termo chinês correspondente ao sânscrito Dhyana). Da China passou para a Coréia em 630 d.C. e para o Japão em 1200 d.C., ganhando nestes países, respectivamente, as denominações Sun e Zen. Ainda no Japão, uma nova corrente do budismo se formou, levando o nome de seu fundador, Nichiren. No ano 700 d.C., vários monges budistas indianos, dentre os quais se destacaram Santaraksita e Padmasambhava, levaram o budismo para o Tibete, onde fundaram diversos mosteiros — viharas —, que se tornaram sede do ensino da Doutrina de Gautama Buda, juntamente com a disciplina e prática tântrica (antiga tradição de meditação). Com o decorrer do tempo, o budismo indiano foi lentamente reabsorvido pelo hinduísmo, do qual se originou, tornando-se o maior movimento espiritual em grandes regiões da Ásia. As variadas modalidades do Budismo, na realidade, nada mais são do que diferentes roupagens do mesmo corpo da Lei, a doutrina do Buda, como diz Christmas Humphreys: “O símbolo mais perfeito para representar as duas escolas é o de dois círculos concêntricos. O Theravada forma um compacto e bem definido círculo interno, e o Mahayana um círculo mais nebuloso em torno dele. Este último não é uma escola, mas um conjunto de escolas, todas altamente especulativas.” O Budismo, no decorrer de seus 2.500 anos, aos poucos adotou numerosos e diferentes cultos, rituais e superstições que quase nenhuma relação tem com os preceitos originais de Gautama Buda. Os Rótulos não Devem Condicionar a Mente As diferentes denominações, Judaísmo, Bramanismo, Budismo (Theravada, Mahayana em suas diferentes formas: Tibetano, Zen etc.), Cristianismo (Catolicismo, Ortodoxo, Protestantismo etc.) como rótulos não são fundamentais. — “Que importância tem um nome? O que chamamos uma rosa, se tivesse outro nome continuaria com o mesmo perfume.” (W. Shakespeare). A Verdade não tem rótulos. Ela não é budista, judaica, cristã, hindu ou muçulmana. Não é monopólio de quem quer que seja. Estes e outros rótulos sectários são obstáculos à Compreensão da Verdade, porque germinam no homem o individualismo, que é o espírito da separatividade e condicionamentos, como os preconceitos e outros, prejudiciais à sua mente. Isto é válido tanto em assuntos intelectuais como em espirituais, e também nas relações humanas. Quando encontramos alguém, não o consideramos simplesmente um ser humano. Logo o identificamos com um rótulo: inglês, francês, alemão, japonês, judeu, branco ou preto, católico, protestante, budista etc. Imediatamente o julgamos com todos os preconceitos e atributos associados ao rótulo condicionado em nossa mente. E, não raro, acontece, na maioria das vezes, que o referido indivíduo está inteiramente isento dos atributos que lhe conferimos. Apaixonamo-nos de tal modo pelos rótulos discriminativos, que chegamos ao ponto de aplicá-los às qualidades e sentimentos humanos comuns a todos. Falamos de diferentes “tipos” de caridade como, por exemplo, a caridade budista, ou a caridade cristã e desprezamos os outros tipos de caridade. No entanto, a caridade não pode ser sectária, pois se o for, já não é mais caridade. A caridade é a caridade e nada mais; não é nem budista, nem cristã, hindu ou muçulmana. O amor de uma mãe para com seu filho é simplesmente o amor maternal, e este não é budista ou cristão, nem pode ter outras das classificações. As qualidades, os defeitos e os sentimentos humanos como o amor, a caridade, a compaixão, a tolerância, a paciência, a amizade, o desejo, o ódio, a má vontade, o orgulho, a vaidade etc. não são rótulos sectários e não pertencem a uma religião em particular. O mérito ou demérito de uma qualidade, ou de uma falta, não se engrandece nem diminui pelo fato de ser encontrada num homem de uma determinada religião, ou mesmo sem nenhuma. Para quem procura a Verdade, não é importante saber de onde vem uma determinada idéia, ou qual a sua origem, nem é necessário saber se o ensinamento provém deste ou daquele mestre; o essencial é vê-la e compreendê-la. No Budismo não há dogmas; a dúvida cética é um dos impedimentos à clara compreensão da Verdade, do progresso espiritual, ou de qualquer outra forma de progresso. As raízes do mal estão na ignorância, causa das idéias errôneas. É um fato indiscutível que, enquanto houver dúvida cética, perplexidade, incerteza, nenhum progresso é possível. Para progredir, precisamos libertarmo-nos da dúvida e para isso é necessário ver claramente, o que só é possível quando a Verdade vem através da visão interior, adquirida pelo autoconhecimento. Da Responsabilidades de Aceitar as Coisas Certa vez, Gautama Buda visitou uma pequena vila chamada Kesanitra, no reino de Kosala, cujos habitantes se chamavam Kalamas. Eles fizeram a seguinte pergunta ao Buda: “Senhor, alguns anacoretas brâmanes que passaram por nossa vila divulgaram e exaltaram suas próprias doutrinas e condenaram e desprezaram as doutrinas dos outros. Depois, passaram outros que também, por sua vez, divulgaram e exaltaram as suas doutrinas e também condenaram e desprezaram as doutrinas dos outros. Mas nós, Senhor, estamos sempre em dúvida e perplexos, sem saber qual desses veneráveis expôs a verdade e qual deles mentiu.” Então o Buda respondeu: “Sim, é justa a dúvida que sentis, pois ela se originou de um assunto duvidoso. Agora prestem atenção: não vos deixeis guiar pelas palavras dos outros, nem por tradições existentes, nem por rumores. Não vos deixeis guiar pela autoridade dos textos religiosos, nem por simples lógica ou dedução, nem por aparências, nem pelo prazer da especulação sobre opiniões, nem por verossimilhanças possíveis, nem por simples impressão ou pela idéia: ‘Ele é nosso mestre.’ Mas, Kalamas, desde que souberdes e sentirdes, por VóS mesmos, que certas coisas são desfavoráveis, falsas e ruins, então renunciai a elas.., e quando souberdes e sentirdes, por vós mesmos, que certas coisas são favoráveis e boas, então deveis aceitá-las e segui-las.” Respondendo aos bhikkhus (monges) disse: “Um discípulo deve examinar a questão mesmo quando o Tathagata (o próprio Buda) a propõe, pois o discípulo deve estar inteiramente convencido do valor do seu ensinamento. Não acreditem no que o mestre diz simplesmente por respeito à personalidade dele.” (Anguttara-NikayaIII, 65.) Asoka, imperador da índia no III século a. C., seguindo o nobre exemplo de tolerância e compreensão de Gautama Buda, honrou e sustentou todas as religiões do seu vasto império. Hoje ainda é legível inscrição original de um de seus editos gravados na rocha: “Não devemos honrar somente nossa religião, condenando as outras; devemos acima de tudo respeitar todas as crenças, pois sempre há algo a ser apreciado por esta ou aquela razão. Agindo desta forma, glorificamos nossa própria crença e prestamos serviço às demais. De outro modo, prejudicamos a nossa própria religião e fazemos mal a outros. Por conseguinte, que todos escutem e estejam dispostos sem se fecharem às doutrinas professadas pelos demais.” Esse espírito de mútua compreensão deveria ser aplicado não somente em matéria de doutrina religiosa, mas também em assuntos nacionais, políticos, sociais e econômicos. O Budismo se apresenta sob a forma de um sistema psicológico, moral e filosófico baseado na raiz dos fatos, que podem ser testados e verificados pela experiência pessoal, pois é racional e prático, isento de doutrinas esotéricas (ocultas). O espírito de tolerância e compreensão foi sempre um dos ideais da cultura e civilização budista. A seu crédito deve ser dito que, durante um período pacífico de 2500 anos, nenhuma gota de sangue foi derramada em nome do Budismo e nenhuma conversão jamais foi quer pela força, ou por qualquer outro método de repressão. Ver Por Si Mesmo e Não Crer Uma das características essenciais do Budismo é a rejeição de qualquer fé prévia. Crer é aceitar o que não sabemos se realmente existe. Nos textos budistas muitas vezes encontramos a palavra saddha, que significa “confiança nascida da convicção”. O Budismo é baseado na visão das coisas pelo conhecimento e compreensão, e não pela fé ou crença cega. A crença surge quando não há visão — visão em todo o sentido da palavra. No momento em que vemos, a crença desaparece e a fé cede lugar à confiança baseada no conhecimento. Nos antigos textos existe um dito: “Compreender como se vê uma jóia na palma da mão”. Se eu vos digo que tenho uma jóia escondida na minha mão fechada, a crença surge em vós porque não a vedes. Porém, se abro a mão e mostro a jóia, vós a vereis por vós mesmos e a crença se dissipará, não tendo mais razão de ser. Um discípulo de Buda, chamado Musila, falando a um outro monge, disse: “Amigo Savittha, sem devoção, fé, crença, sem tendência ou inclinação sem preconceito ou tradição, sem considerar as razões aparentes, sem especulação das opiniões, eu sei e vejo que a cessação do vir-a-ser é o Nirvana.” Ouvindo isto o Buda disse: “Ó bhikkhus, declaro que a destruição das corrupções e impurezas é para aquele que sabe e vê, e não para aquele que não sabe e não vê.” Sempre é uma questão de conhecimento e visão, e não de crença. Como vemos, o ensinamento budista sempre nos convida para “vir e ver”, e não vir para crer; convida a abrir os olhos e ver livremente, e não fechá-los, dando ordem a crer. Isto foi mais apreciado numa época em que a tolerância da ortodoxia bramânica insistia sobre a crença e aceitação de sua religião como única verdade incontestável. Certa vez, um grupo de sábios brâmanes foi visitar Gautama Buda, com o qual teve uma longa discussão. Então um jovem brâmane, chamado Kapatika, perguntou ao Mestre: “Venerável Gautama, as antigas e santas escrituras dos brâmanes foram transmitidas de geração em geração, mediante uma ininterrupta tradição verbal, através da qual os brâmanes chegaram à conclusão absoluta de que a única verdade seria a deles e qualquer outra seria falsa. Ouvindo isto, Buda perguntou: — Entre os brâmanes haverá um só indivíduo que pretenda pessoalmente saber e ter visto, por própria experiência, que “esta é a única verdade e qualquer outra coisa é falsa”? — Não, Senhor — respondeu o jovem com toda a franqueza. — Então, haverá um só instrutor, ou instrutor de instrutores dos brâmanes, anterior à sétima geração, ou ao menos um dos autores originais destas escrituras, que pretenda saber e ter visto por própria experiência que esta é a única verdade e qualquer outra é falsa? — Não, Senhor! — Então, é como uma fila de homens cegos; cada um se apoiando no precedente: o primeiro não vê, o do meio não vê e o último não vê tampouco. Por conseguinte, parece-me que a condição dos brâmanes é semelhante a esta fila de homens cegos. Nesta ocasião Buda deu a esse grupo de brâmanes um ensinamento de extrema importância: “Um homem que sustenta a verdade deve dizer: ‘esta é a minha crença’, mas por causa disto ele não deve tirar a conclusão absoluta e dizer: ‘Só há esta verdade, qualquer outra é falsa’.” Coragem e Determinação Nem sempre a vida do Buda correu em meio ao reconhecimento geral e tranqüilidade. Ao contrário, existem dados que mostram obstáculos e calúnias que o Mestre enfrentava no meio dos ascetas e brâmanes para os quais ele, como verdadeiro guerreiro, se fortalecia e firmava o significado da sua conduta. Para os primeiros ele dizia: “Se o homem pudesse conseguir libertar-se dos grilhões que o prendem à terra, apenas pela recusa do alimento ou condições físicas desfavoráveis, o cavalo e a vaca já teriam atingido isto há muito tempo.” Para os segundos: “Pelo que faz o homem ele é um sudra (casta inferior), da mesma forma é um brahmana (casta superior, sacerdotes). O fogo aceso pelo brâmane, ou pelo sudra, tem a mesma chama, calor e luz. Por que a separatividade?” Sentia-se coragem e intrepidez no fundo de suas afirmações: “Não há verdadeira compaixão e renúncia sem coragem, sem coragem não se pode alcançar a autodisciplina; sem paciência e coragem, não se pode penetrar no fundo do real conhecimento e alcançar a sabedoria de um Arahant.” “Vigoroso e alerta, tal é o discípulo, ó irmão. Seguindo o Caminho do Meio, suas energias são equilibradas; não é nem ardente sem medida, nem dado à intolerância. Ele está compenetrado desse pensamento: Que minha pele, meus músculos, meus nervos, meus ossos e meu sangue se dessequem, antes que eu renuncie a meus esforços, até atingir o que pode ser atingido pela perseverança e pela energia humana.” Certa ocasião, no meio de um discurso, quando a maioria dos ouvintes se retirou, Buda declarou: “A semente se separou da polpa, a comunidade forte em convicção está estabelecida; ótimo que esses orgulhosos tenham se afastado.” Compaixão Para com Todos os Seres Vivos Certa vez o Mestre observava um rebanho de carneiros que avançava lentamente conduzido pelos pastores. Chamou-lhe a atenção uma ovelha com dois cordeirinhos, sendo que um deles, ferido, caminhava penosamente. Buda tomou o cordeirinho ferido em seus braços e exclamou: — Pobre mãe, tranqüiliza-te. Para onde fores, levarei teu querido filhote. — E pensou: “É preferível impedir que sofra um animal, a permanecer sentado nas cavernas contemplando os males do universo.” Sabendo pelos pastores que, por ordem do rei, o rebanho seria levado, à noite, para o sacrifício e imolado em honra aos seus deuses, Buda então falou: — Quero ir convosco. — E os seguiu pacientemente, carregando o cordeirinho nos braços. Chegando à sala dos holocaustos, observou os brâmanes recitando mantras e avivando o fogo que crepitava no altar. Um dos sacerdotes, apoiando a faca no pescoço estirado de uma cabra de grandes chifres, exclamou: — Eis aí, ó deuses, o princípio dos holocaustos oferecidos pelo rei Bimbisara. Regozijai-vos vendo correr o sangue e gozai com a fumaça da carne tostada nas chamas ardentes; fazei com que os pecados do rei sejam transferidos a esta cabra e que o fogo os consuma ao queimá-la; vou dar o golpe fatal. Aproximando-se, Buda disse docemente: — Não a deixeis ferir, ó grande rei! — E ao mesmo tempo desatou os laços da vítima, sem que ninguém o detivesse, tão imponente era seu aspecto. Então, depois de haver pedido permissão, falou da vida que todos podem tirar, mas ninguém pode dar; da vida que todas as criaturas amam e pela qual lutam; a vida, esse dom maravilhoso e caro a todos, mesmo aos mais humildes; um dom precioso para todas as criaturas que sentem piedade, porque a piedade faz o homem doce para com os débeis e nobre para com os fortes. Emprestou às mudas bocas do seu rebanho palavras enternecedoras para defender sua causa; demonstrou que o homem que implora a clemência dos deuses não tem misericórdia, ele que é como um deus para os animais; fez ver que tudo o que tem vida está unido por um laço de parentesco; que os animais que matamos nos deram o doce tributo do seu leite e de sua lã e colocaram sua confiança nas mãos dos que os degolam. E acrescentou: — Ninguém pode purificar com sangue sua mente; se os deuses são bons, não podem comprazer-se com o sangue derramado; e se são maus, não podem lançar sobre um pobre animal amarrado o peso de um cabelo dos pecados e erros pelos quais se deve responder pessoalmente. Cada um deve dar conta de si mesmo, segundo esta aritmética invariável do universo, dando a cada um sua medida segundo seus atos, suas palavras e seus pensamentos; esta lei exata, implacável e imutável vigia eternamente e faz com que todos os futuros sejam frutos do passado. Falou assim, com palavras tão misericordiosas e com tal dignidade, inspirado pela compaixão e justiça, que os sacerdotes se despojaram dos seus ornamentos e lavaram suas mãos vermelhas de sangue. E o rei, aproximando-se, saudou o Buda com as mãos juntas. Sermão sobre a Injúria O Bem-Aventurado observou os costumes da sociedade e notou quanta miséria decorre da malícia e de estúpidas ofensas feitas somente para satisfazer a má vontade e o orgulho. Disse, então, o Buda; - Se um homem insensatamente me faz mal, eu o pago com a proteção de meu desinteressado amor. Quanta mais mal vir dele, mais bondade sairá de mim. Certo homem insensato, sabendo que Buda seguia o princípio de amor que recomenda revidar o mal com o bem, começou a insultá-lo; Buda permaneceu em silêncio lamentando sua insensatez. Quando o homem terminou de insultar, Buda o chamou dizendo: - Filho, se um homem declina aceitar a dádiva que lhe é feita a quem esta pertencera? — E ele respondeu — Neste caso a dádiva pertencerá ao ofertante. Prosseguindo, Buda disse: - Meu filho, tu me injuriaste, mas eu declino aceitar teus insultos, rogo-te guardá-los tu mesmo. Não te será isto uma fonte de desgosto? Como o eco pertence ao som e a sombra à substância, assim o mal recairá sobre quem o causou; abstém-te, pois de atos maus! O insultante não respondeu e Buda continuou: — O homem perverso que censura o virtuoso é como aquele que olha para o alto e escarra para o céu: o escarro não mancha o céu, mas recai e suja a própria pessoa. O caluniador é como aquele que arremessa pó sobre o outro, quando o vendo sopra ao contrário; o pó recairá sobre quem o lançou. O homem virtuoso não pode ser atingido e o mal, que o outro pretendia infligir-lhe, volta-se contra ele. O insultante partiu envergonhado, mas voltou depois, e refugiou-se em Buda, no Dharma. O Budismo está repleto de um espírito de completa tolerância, extensiva aos homens e a todos os seres vivos. Foi Gautama Buda quem, pela primeira vez na história da civilização, tentou abolir a escravidão, proclamando a igualdade de castas, assim como também a emancipação da mulher, afirmando que ela pode alcançar o grau superior de conhecimento da mesma maneira que o homem, pois a “libertação transcende as formas e, por conseguinte, não depende do sexo. Certa vez, brâmanes perguntaram à discípula Soma: “Se a condição de sábio é dificilmente alcançada por um homem, como pode a mulher atingir tal estado com a mente limitada?” - “Quando o coração está completamente tranqüilo, quando a consciência se alarga, vê-se, então, a realidade; mas logo que pensam: ‘eu sou mulher’, ou ‘eu sou homem’, ou ‘sou isso ou aquilo’ — então a ilusão (Mara) se apodera desses seres.” Buda pode ser considerado o mestre dos livres pensadores, não impondo seus ensinamentos, dando plena liberdade de deliberar sobre eles, podendo cada um julgar a seu modo, até encontrar a Verdade dentro de si. De acordo com a filosofia budista a situação humana é suprema. Diz o Buda: “O homem é seu próprio refúgio, quem outro poderia ser?” Conforme esse princípio de responsabilidade individual, Buda dava toda liberdade de pensamento a seus discípulos, coisa indispensável para a emancipação do homem, porque dele depende a própria compreensão da Verdade. Esta não é privilégio vindo de um determinado Ser Supremo ou força exterior, mas está no interior de cada um de nós. Estritamente falando, o Budismo não é uma religião, nem um sistema de fé e culto, não possuindo qualquer vinculação com um Ser Supremo. É um caminho que guia o discípulo, mediante uma vida pura e pensamentos puros, à Suprema Sabedoria e libertação. Não se Apegar nem à Verdade Buda ensinou que estar apegado a uma coisa, “sob um ponto de vista”, e desprezar outras coisas, “outros pontos de vista”, chama-se vínculo. Certa vez Buda explicou a seus discípulos a doutrina de causa e efeito, e eles disseram que a viam e a compreendiam claramente. Então disse: — Ó bhikkhus, esse ensinamento, que compreendeis de uma maneira tão pura e clara, se vos apegais a ele como a um tesouro, então não compreendeis que o ensinamento é semelhante a uma jangada que é feita para um determinado fim, e não para ser continuamente carregada às costas. E, assim, deu o seguinte exemplo: Um homem, viajando, chaga à margem perigosa e assustadora de um rio de vasta extensão d’água. Então vê que a outra margem é segura e livre de perigo. Pensa: “Esta extensão de água é vasta e esta margem é perigosa, aquela é segura e livre do perigo. Não há embarcação ou ponte com que eu possa atravessar. Acho que seria bom juntar troncos, ramos e folhas e fazer uma jangada com a qual, impulsionada por minhas mãos e pés, passe com segurança à outra margem.” Então esse homem executa o que imagina, utilizando suas mãos e seus pés, e passa para a margem oposta sem perigo. Tendo alcançado a margem aposta, ele pensa: “Esta jangada me foi muito útil e me permitiu chegar a esta margem. Seria bom carregá-la à cabeça ou às costas onde quer que eu vá.” — Que pensais, bhikkhus? Procedendo dessa forma, esse homem agiria adequadamente em relação à jangada? — Não, Senhor! — responderam os bhikkhus. — Como agiria ele adequadamente em relação à jangada? Tendo atravessado para a outra margem, esse homem deveria pensar: “Esta jangada me foi de grande auxílio e graças a ela cheguei com segurança; agora seria bom que eu a abandonasse à sua sorte e seguisse o meu caminho livremente.” Assim, lembrou aos monges, contra um dogmatismo excessivo: “A doutrina se assemelha à jangada; deve ser considerada não como um fim, mas como um meio; da mesma forma, a jangada é um meio para atravessar, mas não para se apegar.” Com esta parábola ficou claro que Gautama Buda era um instrutor prático; só ensinava o que era útil e o que poderia trazer paz e felicidade ao homem, não dando atenção à especulação intelectual. Achava indispensável ter um ponto de vista não egocêntrico e impessoal, único capaz, aos seus olhos, de amenizar os inevitáveis sofrimentos da vida. Contra Especulações Metafísicas Certa vez, na floresta Simsapa do Kosambi (perto de Allahabad), pegando algumas folhas na mão, perguntou aos discípulos: — Que pensais, bhikkhus? Quais as mais numerosas? Essas poucas folhas na minha mão, ou as que estão na floresta? — Senhor, certamente as folhas da floresta são muito mais numerosas! — Da mesma forma, bhikkhus, do que sei não disse tudo e o que não divulguei é muito mais. E por que eu não lhes disse? Porque isto não é útil e não conduz ao Nirvana. O Mestre comparava o número das coisas por ele ensinadas ao número das folhas de uma só árvore, e o número das coisas que lhe foram reveladas ao sem-número imenso das folhas de toda a floresta. Da mesma forma, Buda não discutia questões metafísicas, pois são puramente especulativas e só criam problemas imaginários. Ele as considerava “um deserto de opiniões”. Malunkyaputra, um de seus discípulos, não se conformando com essa atitude, fez ao Mestre as clássicas perguntas sobre problemas metafísicos, entre as quais as seguintes: — Senhor, quando estava meditando, veio-me este pensamento: o universo é eterno ou não é eterno? O universo é finito ou infinito? A alma é uma coisa e o corpo outra coisa? Existe o após a morte ou não existe o após a morte, ou ambas as coisas simultaneamente existem ou não após a morte? O Sublime não me explicou esses problemas; se o Senhor sabe que o universo é eterno, explique-me, mas se não sabe, seja franco em dizer: “Não sei, ou não vejo.” [A resposta dada é de grande utilidade para muitos, que até hoje perdem um tempo precioso em questões metafísicas dessa natureza, perturbando inutilmente a paz de suas mentes.] - Disse eu alguma vez: “Vem, Malunkyaputra, leva uma vida pura sob minha direção, que eu te explicarei todas essas questões?” Ou você mesmo me perguntou: “Se eu levar uma vida pura sob sua direção, terei as respostas às minhas perguntas?” — Não, Senhor! — Malunkyaputra, se alguém disser: “Não levarei uma vida santa sob a direção do Sublime, até que ele me elucide essas questões”, morrerá certamente antes de receber a resposta desejada do Tathagata. Prosseguindo, Buda deu o seguinte exemplo: se um indivíduo, ferido por uma flecha envenenada, fosse levado por seus amigos e parentes a um cirurgião e dissesse: “Não deixarei extrair esta flecha antes de saber quem a disparou, se um ksatrya [casta dos guerreiros], ou um brahmana [casta dos sacerdotes], um vaisya [casta de mercadores] ou sudra [casta inferior dos camponeses], qual seu nome, qual o nome de sua família, se é alto, baixo ou de estatura mediana, qual a cor de sua tez, de que aldeia ou cidade veio. Não permitirei extrair esta flecha antes de saber com que espécie de arco foi disparada, antes de saber que corda foi empregada nesse arco, antes de saber que penas foram utilizadas na flecha, antes de saber de que material foi feita a ponta da flecha”, como terminaria isto, monges? Esse homem morreria certamente sem saber todas essas coisas. Assim também, Malunkyaputra, quem disser; “Não levarei a vida pura sob a direção do Sublime até que ele me explique se o universo é ou não eterno etc., etc., - certamente morrerá sem que o Mestre lhe tenha explicado essas questões. Buda explicou a Malunkyaputra que a vida espiritual não depende de opiniões metafísicas. Qualquer que seja a opinião sobre esses problemas, existe sempre o nascimento, a velhice, a decrepitude, a morte, a desgraça, as lamentações, a dor, a angústia. — “Logo, declaro: a cessação de tudo isto é o Nirvana ainda nesta vida.” — Por conseguinte, Malunkyaputra, considere explicado o que expliquei, e o que não expliquei, como não-explicado. Não esclareci se o universo é eterno, ou não, etc., etc., porque não é útil e não está fundamentalmente relacionado com a vida espiritual, não conduzindo ao desapego, à cessação, à tranqüilidade, à penetração profunda, à realização, ao Nirvana. Estes são os motivos pelos quais não falei. Que foi que expliquei? Expliquei a existência do sofrimento, o aparecimento ou origem do sofrimento, a cessação do sofrimento e o caminho que conduz à cessação do sofrimento. E por que expliquei isto? Porque é útil e está fundamentalmente relacionado à vida espiritual que conduz ao desapego, à cessação, à tranqüilidade, à penetração profunda, à libertação, ao Nirvana. Buda não ensinava o objeto do Conhecimento, mas os meios para chegar a ele. Só a iluminação poderia responder as perguntas; os ensinamentos de Gautama Buda, como vimos e veremos no decorrer deste estudo, são pura ciência, moral, psicologia e filosofia de vida, e nada têm a ver com conceitos religiosos. É uma doutrina que leva o indivíduo à Correta Compreensão pela análise e meditação. Notação: Tantra: A palavra Tantra significa “uma teia”. As correntes psíquicas nadis — passando do corpo sutil (astral ou psíquico) para o corpo físico, formam uma tela invisível em toda a estrutura do corpo sutil “como os fios de uma teia de aranha”, daí a origem da palavra tantra. Sutta (pali) ou sutra (sânscrito): discursos de Gautama Buda, em prosa, que podem ser facilmente compreendidos. Bhikkhu: monge budista da Escola Theravada. Mantra: palavra ou frases consideradas sagradas pelo Hinduísmo. |
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