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Soube da morte do Costinha uma hora antes do seu enterro. Peguei um táxi em Botafogo e mandei tocar para o cemitério. Durante o percurso, só conseguia pensar nas longas conversas de mesa de bar em que meu amigo se queixava das humilhações e maus-tratos que o diretor do banco onde trabalhava lhe impingia diariamente.
O Costinha falava do dr. João como quem fala do diabo, e ele não era de exagerar. Paciente, meticuloso, honestíssimo, caiu numa dessas armadilhas da vida que nos amarram, ainda que temporariamente, a pessoas terríveis. Quando isso dura muito, pode-se até morrer.
O Costinha gostava de ler Dostoiévski nas horas vagas, e repetia sempre que o dr. João era um legítimo Karamasov. “O pior deles, o pior deles”, desabafava entre goles de chope. Falávamos de outras coisas. De mulheres, corrida de cavalos e filósofos prediletos e no fim ele ficava silencioso.
De repente exclamava, voltando à sua obsessão: “Miserável, canalha!”. E não havia nada que o consolasse, uma vez que o salário era razoável e o Costa nutria uma paixão pela Renê, uma secretária do diretor. O doloroso era exatamente isso, a sua humilhação diante da Renê. “Cachorro!”
Mal desci do táxi, no portão do cemitério, e a primeira pessoa que vi de longe foi o vilão da história, que eu já conhecia de vista. Baixo, calvo, com um bigode reforçado à tinta, seria o modelo do Scrooge, se Dickens fosse brasileiro. Dei meus pêsames à irmã do morto e me encostei perto de uma janela. Olhava o homenzinho de perto e parecia ouvir a voz do Costinha.
O dr. João ia a todo enterro de conhecido, por mais humilde que fosse, somente para pegar na alça do caixão. Era mais um que ele enterrava, alguém a quem havia sobrevivido. Fiquei observando o sujeito e maquinei uma vingança.
Seguimos pelas aléas do cemitério e eu me agarrei a uma alça do caixão vizinha à do banqueiro. “A morte, ninguém escapa dela”, comentei. Ele me olhou de lado e balançou a cabeça. “O consolo é a nossa fé”, acrescentei. “É verdade”, ele concordou esperançoso. Fiz uma pausa e continuei: “Mas a nossa fé às vezes nos engana.”
O homem parecia cansado, tropeçando um pouco. “Como engana?”, perguntou. Levantei a lança, preparando o ataque: “Às vezes, somos nós que inventamos essa fé, por medo da doença, da dor, principalmente da morte. Nunca ouvi dizer que a fé tenha salvado alguém de morrer, o senhor já?” Arregalei os olhos com a pergunta e mergulhei em silêncio.
Ele agora suava e tropeçava. “Vou parar um pouco. Alguém pode me substituir?”, falou, olhando em volta. Um menino se adiantou e o dr. João foi ficando para trás.
A comitiva parou no canto mais distante e pobre do cemitério e o homenzinho havia sumido. Olhei para trás e ainda o vi saindo pelo portão; o braço levantado para chamar seu motorista.
Quanto a mim, sentia um estranho alívio, como se tivesse reparado um mal. Talvez o Costinha estivesse me dizendo obrigado de algum ponto perdido no Universo. Mas talvez alguém mais acima dele tivesse nesse mesmo instante algum motivo de queixa contra mim.
Lisboa, Luiz Carlos jornalista e escritor, é autor de ‘O Jejum do Coração’
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