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Além do império americano, o império dos sentidos
"...Gore Vidal dá o que parece ser o último acabamento no conjunto de sua obra, e numa coletânea de ensaios reúne o melhor que escreveu sobre um tema para ele tão caro quanto a própria vida..."
Se essa não é a sua frase mais famosa, é certamente a afirmação mais típica do escritor-celebridade norte-americano Gore Vidal, dada em 1972 a uma revista, num repente de sinceridade: "Não há problema humano que não possa ser resolvido, se as pessoas simplesmente seguirem meus conselhos." Nos últimos 30 anos, nos seus ensaios, romances e entrevistas, ele opinou sobre política, cultura, história, administração e comportamento. Com a coletânea Sexually Speaking - Collected Sex Writings (Falando de Sexo - Textos Reunidos), Vidal está uma vez mais, segundo acredita, contribuindo para resolver os problemas da humanidade, agora na área delicada e controvertida da sexualidade.
Com Myra Breckenridge, em 1968, ele investiu pela primeira vez pesadamente nesse terreno, estudando um personagem masculino que morre e volta como mulher. Quatro anos antes, Gore Vidal havia publicado Juliano, romance que inaugurava um autor em parte ficcionista e em parte historiador, sem qualquer conflito com essa conciliação. Viriam depois sete romances examinando a história dos Estados Unidos do ponto de vista de grandes personagens históricos, desde a guerra pela Independência até o final do século 20. Muito a seu modo, Vidal inovou outra vez quando quebrou a série de biografias romanceadas com livros de um gênero que chamou "romance de invenção", onde se destacaram Duluth (1983) e Ao Vivo do Gólgota (1992). Ao fim de tudo, depois do romance The Golden Age (A Era Dourada), mandou para seu editor a coleção revista dos seus últimos ensaios políticos, The Last Empire (O Último Império, 2001).
Pouco antes desse longo ritual, ainda na despedida que alguns críticos comparam a uma sinfonia inacabada, o escritor quis abordar o tema que esteve sempre sob sua pele, desde o primeiro romance em 1946, Williwaw, inspirado nas experiências do jovem autor na 2.ª Guerra Mundial: a sexualidade, ou dizendo melhor, sua homossexualidade. Alguns desses ensaios saíram na revista Playboy, outros na Partisan Review, no The New York Review of Books, na The Nation e no suplemento literário do solene The Times, de Londres, versando os mais variados aspectos desse assunto até há pouco proibido. A segunda parte da coletânea reúne entrevistas dadas por Gore Vidal, onde ele se isenta um pouco da responsabilidade pela abordagem de temas pessoais, cedendo a culpa naturalmente aos entrevistadores.
A desinibida, intencional e até certo ponto obscura obra de Henry Miller (que só teria de bom mesmo Trópico de Câncer) é alvo de algumas franquezas de Vidal, com as quais concordam talvez muitos leitores. Porque não puderam ser publicados nos Estados Unidos, os livros de Miller se transformaram em "cult", e ele ficou rico de repente. Para Vidal, Sexus é um hino de louvor a Henry Miller, entoado por ele mesmo. Finalmente, Vidal acusa Miller de saber todas as respostas - aquilo mesmo de que acusam o próprio Vidal. Ainda bem que também nesse caso "não há problema humano que não possa ser resolvido".
Aí vêm os direitos da mulher, o casamento e a chamada "normalidade", assunto que sempre boliu com a paciência de Gore Vidal, e sobre o qual ele silenciou no passado, em nome da sua sobrevivência literária. Mas hoje ele não admite que se calou por prudência calculada.
Paixão e agonia
A verdade é que argumentação atrevida e demolidora é coisa recente entre os ensaístas norte-americanos, porque a sisudez protestante gravada a fogo na educação estadunidense (ver Max Weber e outros), manteve esses intelectuais acuados, sobretudo os da chamada opção gay. O autor cita Germaine Greer, tentando trazer de volta o estilo Oscar Wilde. E adiciona um tempero para semear a desconfiança no mundo para ele estranho dos heteros:
"As mulheres não fazem idéia de como os homens as odeiam." Por isso, sexo e violência andam juntos por aí, pelo menos nos Estados Unidos, argumenta o autor. O casamento deve ser preservado porque sempre existiu? Ora, diz ele, o mesmo argumento foi levantado para conservar a escravidão, e nem por isso foi levado a sério pela sociedade.
Eleanor Roosevelt é paixão de alguns historiadores, e pensando bem não teria sido mau se o autor de Lincoln tivesse dedicado a ela um dos seus livros de ficção histórica. Vidal comenta com fascínio a obra Eleanor and Franklin, estudo biográfico do casal Roosevelt, da depressão econômica até a 2.ª Guerra, de autoria de Joseph Lash. E ele se recorda do instante em que viu pela primeira vez Eleanor, no banheiro da casa de verão do presidente, quando ela colocava uma braçada de flores no vaso sanitário, para que naquele dia de verão elas se refrescassem com a água. E conta como a primeira dama sofreu quando descobriu o romance do marido com uma mulher (todas mulheres pareciam mais belas do que ela) em Washington.
O ensaio sobre Tennessee Williams é o mais saboroso, pela liberdade e as fraquezas humanas que revela do grande dramaturgo, bem como pela paixão e a agonia de sua vida. Nascido em 1911 no sul dos Estados Unidos, onde "protestantes tementes de Deus impunham seus valores e viam em tudo que era prazer a presença do pecado", Williams foi, segundo Gore Vidal, uma espécie de mártir da intolerância no seu tempo. Quando o escritor descobriu que o teatrólogo tinha mais quatro anos de idade do que havia declarado, este se justificou dizendo que resolvera suprimir de sua vida o tempo em que havia trabalhado numa loja de sapatos.
Oscar Wilde e Somerset Maugham mereceram, por seu talento e sua preferência sexual, análises e depoimentos de Vidal. O prefácio do Dorian Gray e as histórias de fadas de O Príncipe Feliz, do primeiro, são comentados com espírito e sagacidade. De Maugham é ressaltado seu entusiasmo por Chekhov, e a comparação que Vidal faz dele com Guy de Maupassant. O notável narrador de O Fio da Navalha foi humilhado pelo filósofo George Santayana, que se referiu aos seus contos como banais. Gore Vidal cita a resposta de Maugham, segundo a qual a literatura perdeu um bom ficcionista e a filosofia foi prejudicada com a decisão de Santayana de seguir a trilha de Sócrates, em vez de voltar-se para a literatura.
Há uma briga de comadres no ar, por trás de tanto brilho e tanta inspiração não reconhecida, nesses ensaios. As entrevistas que encerram o punhado de textos de Falando de Sexo reforçam essa impressão que, afinal, não se encontra consolidada em parte alguma do livro, mas da qual ele não consegue livrar-se de todo. Porém, antes que alguém generalize da maneira habitual a questão, aludindo ao homossexualismo do autor e dos artistas que ele admira, Gore Vidal diz não sem razão no seu prefácio: "A confusão de que há duas equipes em campo - uma certa, normal, e outra errada, gay - não se abranda com a permuta dos adjetivos. É a qualidade de um grande escritor como Tennessee que prova a existência de uma só equipe em campo, a equipe humana.
O resto é política."
Lisboa, Luiz Carlos - O Estado de São Paulo - Sábado, 13 de outubro de 2001
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