OLHOS E CORES

                  

 

'VER, OUVIR, LER'

 


LUIS CARLOS LISBOA


 


"Uma dificuldade é uma luz. Uma dificuldade imensa é um sol". Paul Valéry passou uma vez essa inspiração imensa num dos seus poemas. A questão do amor, do desejo, da libido, é um desafio imenso porque envolve aquilo que somos - ou o que pensamos que somos, ou ainda o que gostaríamos de ser. Estamos portanto diante de um sol brilhante. Há muito o que dizer, ouvir e pensar a respeito.
Nossa relação com nossos pais, nossa relação com nossos filhos - esse é um laboratório extraordinário em que poucos ousam trabalhar. Sim, porque, se tenho agido como um bêbado nesse campo, isso me fará muito mal. Assim, alguma coisa em mim vai resistir a mexer nessas estruturas, a vê-las por dentro, com medo de que com ela desabe na consciência muita coisa indesejável. Mas digamos que esse receio é parte da nossa superstição a respeito daquilo que realmente somos. Vamos ousar um passeio por esse laboratório sombrio da nossa realidade interior, ainda que por um momento.
Cada indivíduo tem seu labirinto particular, nesse universo, mas em linhas gerais esses meandros se parecem um pouco. O homem médio comum (a idéia de que somos especiais é geralmente uma miragem consoladora) diz que ama seus filhos de todo o coração, e o pensar ou dizer isso dá-lhe algum conforto. A cada discordância, a cada impaciência, a cada irritação com as crianças da família, surge nele uma insatisfação, e se foi então um pouco além da conta, ele se sente mal. Falamos em amor, mas o que é exatamente esse fenômeno? O que os poetas dizem do amor não satisfaz porque não precisamos de mais palavras, precisamos de olhos bem abertos e da isenção possível para ver nossas feridas. Mas calma, esse não é um exercício sadomasoquista. 
Sentimos nosso mundo desmoronar se duvidamos do nosso amor por nossos filhos, pais e companheiros. É preciso não resistir antes de perceber, antes de ver com clareza, senão nem começamos. Nessa fase, todo fraseado é obstrução, é um cala-boca na intuição, é um inibidor do faro espiritual. Citar um autor ou fazer afirmações interiores (do tipo: 'O amor move o mundo', etc.) é bloqueio puro e simples, além de medo oculto. Temos que ficar em silêncio, interiormente, se quisermos entender esse tema delicado do amor. Se conseguirmos isso, o sol da dificuldade vai derreter nossas resistências e tentativas de pintar um auto-retrato favorável.
O que há de real no nosso apregoado amor pelas crianças e velhos com que convivemos? O que é concreto no amor que dizemos sentir pelas pessoas com as quais moramos ou nos envolvemos sentimentalmente? Palavras postas de lado, impusos para buscar uma boa auto-imagem deixados de molho, o que vemos, afinal? Talvez inicialmente nada, porque ainda estamos resistindo, mesmo que de modo mais sutil. Quem for capaz de perceber as contradições presentes no amor-desejo, no amor-proteção, no desejo de ser protegido, na relação prometida indissolúvel, no amor filial, etc., terá dado um passo na direção do sol.
Diante de tanto brilho, algumas perguntas flutuam no espírito. Sem isso, o que será de mim? Se não amo meu filho, sou alguma coisa abominável, não é assim? Toda esse literatura sobre amor que se produziu há milênios, é tudo engano? Deve haver um erro na formulação do problema. A saída pode ser ir ao cinema, ligar a televisão, contar uma anedota ou declamar um poema. Saída ou petrificação? Talvez seja possível voltar ao ponto de partida, que às vezes é menos confortável mas é sempre mais criativo.
Olhar placidamente os pontos sensíveis da nossa vida mais comum pode ser uma experiência milagrosa. Não vamos olhas para produzir esse milagre, e assim escapar daquilo que nos machuca. Olhamos na direção do que exatamente machuca. Não porque queremos sofrer, mas porque queremos entender o sofrimento, e somente em nós podemos ter uma visão clara disso. A psicanálise estava certa nisso mas se perdeu no dogmatismo das escolas, e nas formulações teóricas. Olhar tranquilamente o que somos, nos segundos que se seguem às nossas ações e reações, é a aventura máxima que alguém pode viver. 

 

                                  Lisboa, Luiz Carlos     sáb 14/12/02 21:50

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