OLHOS E CORES

 

 

 

UM MUNDO SEM PRESSA

 


LUIS CARLOS LISBOA


 



Que se saiba, o holandês Jan Vermeer pintou apenas 35 quadros em toda sua vida. Mas se tivesse pintado apenas um deles, não importa qual, gozaria assim mesmo da fama e da glória que tem hoje. Somente 15 das suas telas fazem parte da exposição A Escola de Delft, que o Metropolitan Museum of Art inaugurou estes dias. Espanta que esta cidade de Nova York, fundada pelos holandeses - esses eternos apaixonados da liberdade de criar e de filosofar - não tenha acorrido em massa ao museu para contemplar e aprender com os quadros do mestre e dos seus discípulos inspirados, que está fascinando os críticos de arte e os holandófilos em geral. 
No silêncio solene e levemente perfumado - que cheiro delicioso é esse que paira no ar dos grandes museus, no mundo inteiro? - andando de sala em sala vamos descobrindo alguma que está um pouco além da arte da pintura ou do talento para arrumar ambientes. Não é a paisagem, não são os personagens, não é somente a magia de levar para a tela a mais pura e verdadeira imagem do mundo. Talvez seja uma beleza etérea que ronda o homem, ou seu namoro com a graça e o absurdo, que transparecem no seu trabalho. 
De um modo simples, mas também muito complicado, esse mistério que se dilui a qualquer tentativa de explicação, está por inteiro na pintura de Jan Vermeer. Basta olhar esse Pátio de uma Casa em Delft para saber que não se trata apenas de lidar habilidosamente com pincéis, óleo, cavalete e tela. É a ausência de pressa dos figurantes no quadro, a graça de estar vivo a cada instante em cada um deles, que nos maravilham e nos transformam em aprendiz. 
Para quem chega inocente a tudo isso é interessante ficar sabendo que certa vez um punhado de pessoas especiais viveu num mesmo país na mesma época e que elas se encontraram em ruas, praças e salas de visitas sem se darem conta de estar vivendo um momento raro da história do homem, uma era dourada da inteligência e do espírito. É aquele tempo da Holanda que Vermeer resgata com seus quadros que mostram o que os olhos privilegiados de Rembrandt, Spinoza, Descartes (francês que viveu na Holanda), Frans Enden, Leibnitz (alemão que visitava a Holanda), Guilherme III de Orange e Johan de Witt, viram como coisa familiar e cotidiana. 
O Metropolitan achou oportuno trazer essa amostra da "era de ouro" holandesa para a Quinta Avenida do século 19, talvez porque tenha sentido que ela se faz agora mais necessária do que nunca, numa cidade como Nova York, mais do que qualquer outra. Com isso leva de novo até o homem da metrópole orgulhosa da própria pressa, a antiga mensagem que alguns inspirados (como Vermeer) sopraram sempre em seu ouvido, sem qualquer efeito - a de que toda urgência é arrogante, toda importância pessoal é enganosa e todo homem esmagadoramente ocupado é no fundo o programador do seu próprio calvário. 


http://www.jt.estadao.com.br/editorias/2001/04/22/var017.html

Lisboa, Luiz Carlos  jornalista e escritor, é autor de 'O Jejum do Coração'

 

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