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As taxas de doença mental são altas em famílias de poetas, escritores e artistas em geral, sugerindo que os mesmos genes, o mesmo temperamento e a mesma capacidade imaginativa estão atuando na insanidade e na ação criadora.
Daniel Nettle tomou Sonho de Uma Noite de Verão, de Shakespeare, como exemplo da composição traiçoeira que pode ser o consolo dos medíocres e a vergonha dos talentosos. Nesse enredo do teatro elizabetano é mostrada a dificuldade de separar inspiração e loucura, atribuídos ambos a uma "forte imaginação". Mas será tudo tão simples?
Em Strong Imagination. Madness, Creativity and Human Nature (Imaginação Poderosa. Loucura, Criatividade e Natureza Humana), Daniel Nettle, psicólogo formado em Oxford e antropólogo preparado no University College of London, além de muita vivência nas artes e ofícios do teatro da Inglaterra, vai fundo na antiga discussão sobre o alto preço da genialidade entre os homens.
No seu livro ele não é jamais ingênuo ou politicamente correto, examinando a doença mental do ponto de vista genético, na sua relação com o poder criativo, essa dádiva que poucos merecem e quase todos invejam.
A obra quer estudar o gênio saudável, dentro dos propósitos da evolução, mas não se furta a descobrir nele sua racionalização dos avanços sutis da insanidade, examinando custos e benefícios, e diferençando o aprendizado do dote hereditário, para fins de compreensão do processo. Desde logo, para saber por que a loucura existe no animal humano, contrapõe as duas formas de doença mental: a esquizofrênica e a psicótica, ou afetiva. Lembra que o psiquiatra alemão Emil Kraepelin aborda de um modo o problema, e Sigmundo Freud de outro. As observações do livro não são críticas dessa corrente ou daquela.
A esquizofrenia é a loucura em sua forma pura. A psicose maníaco-depressiva já pode expressar-se pela depressão dos poetas, de alguns existencialistas e dos infelizes de todo gênero. Segundo Nettle, a esquizofrenia e a desordem afetiva são diferentes na medida em que uma começa no pensamento e a outra na emoção. A frieza de sentimentos na esquizofrenia pode não ser falta de emocionalidade, mas a experiência de emoções inapropriadas, ou conflitantes.
Isso lembra o paciente bipolar na depressão maníaca. De uma certa perspectiva, os chamados esquizóides são simplesmente aqueles que se recusam a compartilhar as crenças comuns da sociedade em que vivem. Não seriam doentes, mas simplesmente rebeldes.
Homem comum
Investigando as diferentes formas de loucura, assim como a relação do cérebro com elas, o autor examina a fundo (sem esquecer o apelo popular do assunto) os arranjos genéticos no nosso destino, admitindo que eles não explicam tudo que desejamos saber, até mesmo porque os genes apenas predispõem, e não pré-determinam de forma absoluta. Na segunda metade da obra, Daniel Nettle estuda a aparente falta de sentido contida na presença da enfermidade mental num reservatório genético humano que se aprimora sempre. Para ele, a loucura teima em aparecer ali porque, embora desvantajosa em si mesma, está intimamente ligada a um traço raro e precioso do homem - a criatividade.
Essa então é a tese central de Strong Imagination, desenvolvida com notável brilho por Nettle nos últimos capítulos do livro. Quem primeiro brincou com a idéia, mostrando sua tremenda importância até para o homem comum, não foi algum ilustre psicólogo, geneticista ou antropólogo do nosso tempo, mas talvez o maior mestre em matéria de humanidade, William Shakespeare, na sua comédia ao mesmo tempo refrescante e profunda, Sonhos de Uma Noite de Verão.
O que ele mostrou em diálogos eternamente atuais, Nettle nos revela quando reorganiza as noções e as diferenças de esquizofrenia e psicose de afetividade, ou quando explica como funcionam as drogas bloqueadores da dopamina, ou ainda como agem no homem os mecanismos delicados e perfeitos da atenção e da cognição. Nossos delírios, zangas, depressões, simpatias, rejeições e quietude são tratados sem o excessivo apego que nos prende a velhos conceitos e a novos preconceitos.
Salvador Dali punha as coisas assim: "A única diferença entre mim e um louco, é que eu não sou louco." Por que sabemos a diferença entre idéias revolucionárias e idéias destrambelhadas? Para nós, leigos, capazes de perceber a loucura num parente mas proibidos de receitar um tratamento ou fazer oficialmente um diagnóstico, não adianta falar em timotipia e esquizotipia, bastando dizer que nosso cérebro "sabe" a diferença. Segundo Nettle, há um grande risco de psicose naqueles que se destacaram nas artes criativas. O autor mostra uma lista dos grandes artistas que resvalaram (e às vezes se recuperaram) entre um campo e outro. Os mais notórios são Nietszche, Strindberg, Van Gogh, Virginia Woolf, Guy de Maupassant e Modigliani, mas a relação completa é quase infinita. O que foi loucura em sua obra, o que foi arte na sua loucura? Nós podemos talvez saber, eles nunca souberam.
Depois de viajar por Kraepelin, Shakespeare, Schumann, insetos, caudas de pavão, genes e neurotransmissores, Daniel Nettle chega às suas conclusões finais sobre o significado das psicoses no homem. Para ele, não faz sentido crer que os interessados em criatividade devem buscar experiências de natureza psicótica, vivendo vidas conturbadas. Esse é um erro romântico que muitos cometeram. Drogas como a cocaína e um modo de vida meio louco podem caricaturar a vida criativa, mas no fundo isso é somente mímica e imaturidade. As célebres experiências da mescalina e do LSD nunca deram a ninguém algo que o experimentador já não tivesse anteriormente. Nada além de tema de conversa.
Utilidade biológica
É a psicose inevitável para os marcados geneticamente? A doença se desencadeia em cerca de 50% dos "premiados" no nascimento.
Acontecimentos traumáticos podem abrir as portas da doença mental, assim como uma vida metódica e tranqüila pode conservar o mal em latência. Na psicose, o lítio e o ácido valpróico (no paciente bipolar, que alterna depressão e mania) e os antidepressivos (no doente unipolar), são remédios bem sucedidos de manutenção, permitindo uma vida quase normal. É certo que a psicose é universal, assim como a criatividade de origem genética. A competição social que um indivíduo marcado pela criatividade e a psicose entrelaçadas tem de enfrentar é imensa nas modernas sociedades capitalistas, e às vezes pode modificar de modo dramático a estatística acima.
A esquizofrenia e as psicoses em si não têm "utilidade" biológica, e à primeira vista não justificam sua presença no mundo. Mas se as entendermos como variações anômalas da criatividade humana, dado seu paralelismo e vizinhança nos genes, vamos ter de concluir que sem essa contrapartida do gênio que é a loucura, o mundo ainda estaria engatinhando, se é que teria existido alguma vez uma coisa chamada civilização.
http://www.jt.estadao.com.br/suplementos/saba/2001/12/01/saba007.html
Luiz Carlos Lisboa é escritor e jornalista
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