OLHOS E CORES

 

                  

 

NA SELVA ESCURA DAS BIBLIOTECAS 

 


LUIS CARLOS LISBOA


 


Na selva escura das bibliotecas 

Foto Virtual: "O Estado de São Paulo"

BLOOM: Finalidade é obter um estado de consciência no leitor 




"Com
Como Ler e Por Quê, lançado recentemente nos Estados Unidos, o crítico norte-americano Harold Bloom produziu um precioso mapa de leitura, um `verdadeiro guia de auto-ajuda' como ele mesmo classifica seu livro"



O segundo presidente dos Estados Unidos e primeiro embaixador de seu país na Inglaterra, John Adams, famoso por sua vasta cultura e brilhante inteligência, aconselhava ao filho que levasse sempre consigo um livro de poesia. "Você jamais andará sozinho", dizia ele, "se tiver um poeta no seu bolso." Nos dois séculos que vieram depois, a importância de ler bons livros foi reconhecida por todos, até por aqueles que nunca os leram, tornando qualquer conselho desse tipo uma redundância. Ainda assim, um erudito respeitado, professor em Yale há três décadas, autor de 40 livros e nada menos de 900 introduções a autores e obras, como Harold Bloom, acaba de publicar um livro com o título Como Ler e Por Quê. 
Como acontece com todo guia de leitura, o de Bloom dá à primeira vista a idéia de ser uma lista pessoal de preferências literárias, que seu autor se apressa a desmentir afirmando na introdução da obra que suas escolhas têm pouco de arbitrárias ou caprichosas, sendo antes uma seleção baseada na possibilidade e na oportunidade de tornar explícito o sentido implícito de cada obra. O livro tem por finalidade a obtenção de um estado de consciência no leitor. "Lemos para adquirir conhecimento do mundo, dos outros e de nós mesmos", explica Harold Bloom. "Para fortalecer nosso eu, e conhecer seus verdadeiros interesses." E ele acrescenta: "Os poemas nos ensinam a falar a nós mesmos de um modo mais claro, e os romances podem curar-nos da inércia sombria, da depressão existencial que experimentamos no cotidiano. Nosso desespero busca um alívio, ou a cura profunda, no embalo de uma narração." 
Harold Bloom divide seu livro por gênero literário, e escolhe alguns dos contos, poemas, romances e peças teatrais que considera mais expressivos ou carregados de sentido para, iluminando-os, revelar seu significado completo, quando isso é possível. Para ele, os grandes textos precisam de desvendamento, não sendo legítimo esperar sempre de seus autores esse trabalho, que depende da paixão e da paciência de intérpretes e cicerones literários de qualidade. Como naturalmente o próprio Harold Bloom. O autor tem uma longa carreira pontilhada de interesses variados que vão da poesia romântica à filosofia gnóstica, passando pelos estudos de influência literária, os aforismos de William Blake e outras paisagens pouco visitadas pela curiosidade humana comum. 
Há pouco, Harold Bloom fez incursões, elogiadas pela maioria dos seus críticos, em áreas como a formação religiosa da América, aspectos da Bíblia e o segredo contido na essência da condição humana. Seus objetivos são ambiciosos. Em O Cânone Ocidental, publicado em 1994, impôs categorias e hierarquias no universo da literatura. Quatro anos mais tarde terminou Shakespeare: A Invenção do Humano, onde se empenhou em provar que o dramaturgo de Avon foi o verdadeiro fundador do humanismo no Ocidente. 
Agora, em Como Ler e Por Quê, Bloom produz uma obra que ele próprio define como "autêntico livro de auto-ajuda, embora não daquele tipo que os editores chamam livro de auto-ajuda". Sua meta confessada é estimular um encontro profundo (embora não acadêmico ou erudito) com a literatura clássica, tornado possível com a intermediação de um especialista no assunto. 
A obra, segundo ele, deve ser consumida aos bocados, e não devorada de uma vez. Para fazê-la, Bloom tomou conselhos com aqueles que considera seus mestres: o sábio dr. Samuel Johnson, o crítico dos críticos William Hazlitt, o romântico Thomas de Quincey e a estilista incomparável Virgínia Woolf, que nos guiam como guiaram a ele, na floresta formidável das obras literárias. A principal preocupação de Bloom, confessada de início como a motivação de seu livro, é estudar com o leitor o que há de obscuro e não revelado nas obras que toma como fundamentais, tornando explícito seu significado. Porque para o autor, a maneira de ler está profundamente ligada aos motivos e usos que se fazem da leitura. E ele cita uma obra de Virgínia Woolf, O Leitor Comum (Segunda Série), onde ela diz: "O único conselho que alguém pode dar de verdade a um outro sobre leitura é não aceitar conselho algum." 
Do dr. Johnson ele colhe a advertência: "Limpe seu espírito de todo jargão e de toda terminologia acadêmica." Em outras palavras: julgue por si, veja com os próprios olhos, acredite no discernimento profundo que de algum modo secreto mas preciso nasce do seu espírito. E o professor Bloom começa sua peregrinação pelas narrativas curtas, pelo conto tão apreciado numa época em todos os leitores se queixam da falta de tempo e de concentração. O pai do conto moderno, Edgar Allan Poe, recomendava que se lesse um conto de uma só assentada. Pois além dos contos famosos desse pioneiro, Bloom recomenda que se leiam as histórias curtas de Ivan Turguenev, em Esboços do Album de um Caçador (1852), que parecem escritas na véspera. Chekov produziu "O Beijo" quando tinha 27 anos, e pouco depois fez "O Estudante", uma história de três páginas. Ambos especialmente recomendados. 
De Guy de Maupassant escolheu a obra-prima de bom humor e loucura que é "O Estabelecimento de Madame Tellier", e a narrativa exemplar de horror de "O Horla". Melhores que seu único romance duradouro, O Sol Também se Levanta, são os contos "Montanhas como Elefantes Brancos" e "O Fim de Alguma Coisas", de Ernest Hemingway. Nenhum dos seus trabalhos curtos, no entanto, chegou aos pés de As Neves de Kilimanjaro em termos de elaboração literária. D. H. 
Lawrence dava esse conselho ao leitor de histórias curtas: "Confie no conto, não no contista." Para Bloom isso se aplica a Flannery O'Connor, um escritor preocupado com justificações religiosas, mas brilhante em "É Difícil Encontrar um Homem Bom". Para alguém que só se lembra dele em Lolita, Vladimir Nabokov surpreende como contista admirável em "As Irmãs Vane", uma história original de fantasmas. E de Jorge Luis Borges, o que Bloom vê como excepcional numa coleção de obtras-primas é "Tlön, Ukbar, Orbis Tertius". 
Seguem-se, entre os contistas, Tommaso Landolfi e Italo Calvino. No reino da poesia são apontados poemas de Blake, Landor, Tennyson, Browning, Whitman e, naturalmente, os sonetos de Shakespeare. No capítulo dos romances não faltam Dom Quixote, de Cervantes; A Cartuxa de Parma, de Sthendal; Emma, de Jane Austen; Grandes Esperanças, de Dickens e Crime e Castigo, de Dostoiévsky. 
Muitos outros livros fundamentais são enumerados, comentados e desvendados como enigmas e tesouros. Sobre educação e cultura, esses pilares do prazer, da grandeza e da importância de ler, Harold Bloom reporta o leitor desse seu Como Ler e Por Quê a um famoso pronunciamento de Emerson sobre a erudição na América, em que o filósofo diz: "Aquele que estuda deve, acima de tudo, sentir-se confiante." E Bloom complementa, no que parece ser a principal conclusão do seu livro: "Essa autoconfiança não é um dom, mas um Segundo Nascimento da mente, que não pode ser obtido sem muitos anos de leitura aprofundada." 


Lisboa, Luiz Carlos  -  O Estado de São Paulo -
Sábado, 13 de outubro de 2001 

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