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Se o gênero
biografia hoje encoraja mais do que nunca editores e autores, numa época
em que há muito mais interesse em relação pelas pessoas do que por
suas idéias e seus sonhos, os filósofos ainda intimidam uns e outros
porque geralmente sua história pessoal tem menos brilho e emoção do
que seu pensamento. Talvez por isso uma inteligência investigadora como
a de Spinoza, a que se atribui a mesma estatura de Platão por sua
profundidade, não mereceu uma boa biografia nos dois últimos séculos.
Agora, com o surgimento nos Estados Unidos de Spinoza - A Life, de
Steven Nadler (Cambridge University Press, 407 páginas), esse vazio foi
em parte preenchido, mas no mundo inteiro ainda reina um silêncio
constrangido em relação aos grandes filósofos e seus biógrafos.
A excomunhão de Spinoza não silenciou apenas um grande pensador.
Somente um século depois de sua morte, Goethe confessava à legião dos
seus leitores que a correspondência do filósofo reunida em livro,
"por si só capaz de reabilitar a humanidade", fora a obra
mais interessante que já havia lido. Na Inglaterra, Lessing exclamava
para Jacobi: "Não há filósofo maior que Spinoza!".
Colerigde e Wordsworth prepararam as Baladas Líricas inspirados no
conceito de "natureza total" de Spinoza. Novalis referiu-se a
ele como "embriagado de Deus", e Renan viajou até a cidade
holandesa de Rijnsburg para apontar a velha casa do filósofo e
exclamar: "Foi aqui talvez que Deus foi visto mais de perto por um
homem." No Ulisses, afinal, James Joyce fez Leopold Bloom gritar,
quando atormentado por anti-semitas num bar dublinense: "Freud!
Marx! Mendelssohn! Spinoza!"
Três séculos antes, quando a república holandesa rejeitou as últimas
restrições aos judeus e passou a considerá-los cidadãos com todos os
direitos, e não um agrupamento estrangeiro, o clero calvinista que
influiu nessa decisão recomendou-lhes expressamente que se mantivessem
fiéis à sua própria ortodoxia, "sem desvios da crença num Deus
onipotente e criador que Moisés e os profetas revelaram sob inspiração
divina". Isso tornou a comunidade judia sefardim de Amsterdã mais
atenta a eventuais heresias do que tinha sido no passado em Portugal e
na Espanha, onde sobrevivera a séculos e séculos de pressão para que
se convertesse, até o argumento final da expulsão.
Bento Spinoza nasceu numa comunidade de marranos - judeus que por muitas
gerações foram forçados a viver como cristãos em terra espanhola e
portuguesa. Não foi destinado a eles em Amsterdã um lugar obscuro
especial, como em outras cidades da Europa que se envergonhavam da
pobreza dos seus judeus. Mas, se não havia um gueto, existia um bairro
onde eles preferiam viver e onde residiam também não-judeus como
Rembrandt e Descartes. Amsterdã, conhecida um tempo como "Jerusalém
holandesa", não separava mas a seu modo discriminava,
identificando com muita clareza seus cidadãos, nunca esquecida de que
os donos do lugar eram os calvinistas.
Abraão Rodrigues de Spinoza partiu ainda muito jovem de Portugal com
sua irmã Sara, por volta de 1590, vivendo algum tempo em Nantes, na
França, e se instalando afinal em Antuérpia. Seu sobrinho e genro
Miguel de Spinoza chegou a Amsterdã em 1623, para trabalhar com ele.
Casou-se pela segunda vez cinco anos depois, com Ana Débora Senior, com
quem teve quatro filhos. O penúltimo deles, Bento (ou Baruch), com o
mesmo nome de seu avô materno, nasceu em novembro de 1632. Nesse mesmo
ano, para quem se interessa por astrologia (que Spinoza chamou uma vez
de tolice supersticiosa), nasceram também na Holanda o pintor Johannes
Vermeer e o cientista Van Leeuwenhoek, inventor do microscópio.
Aos seis anos, o pequeno Bento ficou órfão de mãe. Seu pai não tinha
então recursos para iniciá-lo no comércio, tendo feito a tradicional
escolha dos judeus pobres de todos os tempos ao decidir que o menino
estudaria literatura hebraica com um rabino. Em casa, falava-se o
português, rezava-se em hebraico e lia-se poesia em espanhol. O pai
Miguel nunca teve tempo de aprender devidamente o holandês. A língua
que o filósofo Spinoza usou no dia-a-dia familiar -- aquela em que
certamente meditou e fez anotações -- foi sempre, como afirmou mais de
uma vez em sua correspondência, o português. Seus trabalhos em versão
definitiva, que aliás nunca lhe serviram para a sobrevivência, foram
redigidos em latim. Quando a mania das tulipas tomou conta da Holanda
(hoje identificada com o país, ela veio de fato da Turquia no século
17, deu-se bem no norte da Europa e em breve tornou-se artigo de exportação
dos Países Baixos), os Spinoza investiram no seu comércio, mas não
foram felizes.
Spinoza era ainda pequeno quando o pintor Rembrandt mudou-se para a sua
vizinhança. Todos colecionavam quadros em Amsterdã, esperando ganhar
alguma coisa no mercado de arte, mas Bento-Baruch olhava a pintura com
uma certa frieza. Seus temas prediletos eram a religião, o sentido da
vida humana e o comportamento dos homens. Já adolescente, tomou para si
as preocupações de um vizinho que morrera há pouco e era mal visto
entre os judeus: o filósofo Descartes, que deixara a França pela
Holanda em busca da paz e da tolerância que permitem a um pensador
produzir sua obra. Quando seu pai ficou viúvo pela terceira vez e
morreu logo depois, Bento atravessou um período de profunda melancolia.
A partir de 1654 passou a fazer escolhas mais claras na sua vida
intelectual. Lia filosofia e ciência sem se importar com a fonte, dando
um crédito de confiança ao que não conhecia bem, fascinado com o que
lhe parecia conflitante. Sua amizade com um ex-jesuíta que tinha fama
de ateu, Van den Enden, contribuiu para precipitar a grande crise de sua
vida. Isolado em meio à prosperidade dos judeus portugueses de onde
provinha, Spinoza um dia viu com espanto, afixada na porta da sinagoga,
uma condenação pública de suas próprias idéias. A 27 de julho de
1656 ele foi excomungado numa declaração formal da sinagoga de
Houtgracht, por seu "ateísmo" e opiniões contra a religião.
Mais tarde, a denúncia de sua obra pelos calvinistas recebeu essa epígrafe
de fogo: "Forjada no inferno por um renegado judeu e pelo
diabo."
Contra Sinoza fora pronunciado um "cherem", banimento social
que transformava um contestador num morto-vivo, alguém que deixava de
existir para a sua comunidade. A palavra "cherem" queria
significar também destruição, alguma coisa da qual se podia sair por
um arrependimento público ou pelo suicídio, como aconteceu no passado.
Essa tradição encontrava apoio histórico teológico nos livros bíblicos
do Êxodo (22:19) e do Deuteronômio (7:1-2). O célebre filósofo e médico
judeu de Córdoba, Maimônides, discutira no seu tempo a importância
desse isolamento social e familiar como castigo para a dissidência e a
heresia. O texto do "cherem" de Spinoza excedia todos os
outros proclamados antes, em fúria e veemência. Nem ele nem seus
amigos souberam com detalhe em que consistiam as heresias de que era
acusado. Mais tarde recaiu sobre ele também a maldição dos católicos,
mas então Spinoza havia procurado a paz do anonimato em outra cidade.
Pouco antes de completar 30 anos ele já havia esboçado sua obra filosófica,
que em grande parte só foi publicada após a sua morte. Na Ética e no
Breve Tratado de Deus, do Homem e do seu Bem-Estar, Spinoza basicamente
nega que a alma humana seja imortal no sentido de desfrutar de uma vida
após a morte. Embora ele afirme que a mente, ou parte dela, é eterna e
persiste em Deus (na Natureza) para sempre, acredita que a alma pessoal
se dissolve com o corpo. Assim, não há nada a temer ou a esperar após
a morte. Para ele, a superstição, a ignorância e o preconceito estão
na origem das religiões organizadas e são manipulados por seus líderes.
Deus, ele insiste, é simplesmente a substância infinita de que é
feita a natureza. E mais: os homens não são livres nem podem fazer
nada por si próprios que contribua para a sua salvação ou seu
bem-estar.
Grupos de admiradores quacres, menonitas, cartesianos e principalmente
dissidentes cristãos conhecidos como os "Associados",
procuravam Spinoza em sua nova residência próxima de Haia. Um pensador
religioso e político radical, Adriaan Koerbagh, tornou-se amigo do filósofo
e insistiu com ele para que publicasse seu Tractatus
Theologico-Politicus, que advogava a tolerância. Isso aconteceu em 1673
e valeu-lhe a condenação da Igreja Reformada holandesa. A morte de
Koerbagh na prisão, acusado de blasfêmia, levara Spinoza a tomar
aquela decisão. Já seu Tractatus de Intellectus Emendatione, sobre o método
e o conhecimento, foi publicado no ano de sua morte. Nele, eram
estabelecidos os princípios gerais da sociedade civil, a partir do fato
de que de todas as constituições as democráticas são as preferidas.
Essa obra começa descartando os esquemas utópicos e as esperanças
idealistas de uma sociedade de indivíduos guiados pela razão.
Toda ciência política útil deve partir, em vez disso, de uma
abordagem realista da natureza humana e de suas paixões consideradas
como fenômeno natural e necessário -- em outras palavras, da
psicologia egoísta da Ética. Somente aí pode alguém deduzir os princípios
políticos que, de acordo com a experiência, servirão de base a uma
política. Mas, em fins de 1676, o trabalho de Spinoza foi de repente
interrompido quando sua saúde declinou de forma inesperada por ele. No
final de fevereiro do ano seguinte, pediu a presença de médico durante
a noite e quem chegou à sua cabeceira foi seu antigo companheiro de
discussões Lodewijk Meyer, a quem nenhuma proibição religiosa jamais
impediria de ver um amigo querido na hora da sua morte.
Luiz Carlos Lisboa,
é escritor e jornalista O Estado de S. Paulo 8 / 8
de 1999
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