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"Sou um americano nascido em Chicago - cidade sombria - e avanço pela vida a meu modo, de um jeito muito meu, batendo primeiro à porta para abrir caminho, pedindo para entrar. Às vezes, com uma batida inocente, outras vezes com uma batida não muito inocente." Em Aventuras de Audie March (1953), Saul
Bellow, autor de uma obra que nunca deixou de ser autobiográfica, resumiu assim sua caminhada pela vida, misturando em doses generosas verdade e fantasia. Bellow nasceu em Montreal, no Canadá, e aos nove anos mudou-se com a família para Chicago, nos EUA. No mais, ele é Audie
March, Herzog, Henderson e outros dos seus personagens, sem tirar nem por.
O recente Bellow - a Biography, de James Atlas (Random House, 686 págs., R$ 87,50), foi considerada por John Leonard, crítico literário da CBS e do jornal The
Nation, a biografia mais completa que ele conheceu, depois do clássico calhamaço de Boswell sobre o dr. Samuel Johnson. Leonard apelidou a nova obra de "Atlas Enciclopédico". Esse estudo exaustivo da vida de Bellow parece balançar entre definir a vida do escritor como influenciada por sua obra, ou ver sua obra como transformadora de agitada vida intelectual e amorosa do escritor. Mas nessa dúvida traz à luz um dilúvio de fatos sobre fracassos, fraquezas e problemas pessoais de
Bellow, que até agora foram escamoteados no que se conhece sobre ele.
A nova biografia retoma a discussão sobre o real valor de Saul Bellow na literatura de seu país. Não é ainda sua "biografia autorizada", mas pela primeira vez na vida o escritor abriu a alguém sua correspondência e permitiu que parentes, ex-mulheres e amigos fossem ouvidos.
Muito se escreveu sobre Bellow nos últimos 40 anos, tentando decifrar esse enigma. Muito do escrito sobre ele teve a intenção de confirmar teses e responder a perguntas. À medida que a obra do escritor crescia, no entanto, seus heróis revelavam cada vez mais surpreendentemente um pouco da personalidade e da vida do seu criador. Sabe-se que em Chicago, com oito anos, Saul foi operado de emergência devido a uma peritonite e ficou seis meses numa enfermaria de hospital, devido a complicações. Ali ele leu várias vezes A Cabana do Pai Tomás, e sob o efeito da febre teve estranhos sonhos com os personagens do livro. Foi quase um começo como o de Borges.
No outono do ano em que sua mãe morreu, Bellow entrou para a Universidade de Chicago. Travava-se ali uma guerra subterrânea entre trotisquistas e stalinistas, aguçada com a guerra civil espanhola. Um grupo editava o jornaleco
Soapbox, insultuoso com os professores e repassado de um marxismo mal assimilado. Bellow leu o "Manifesto Comunista" e ficou muito impressionado. Sua primeira viagem, quase um rito de iniciação, foi feita a Montreal com um amigo, ambos com 17 anos. Na década seguinte, escreveu desesperadamente - artigos, contos, comentários -, tentando ser publicado nos jornais da região, mas não teve sucesso.
No início dos anos 40 do século passado, a revista Commentary celebrou num simpósio a "Literatura Americana e a Geração mais jovem de Judeus Americanos", lembrando que eles não eram mais espectadores, mas participantes na vida dos EUA. Apesar disso, na época muitas das 500 empresas norte-americanas que a revista Fortune considerava as maiores ainda não aceitavam judeus em seus quadros. Nem as universidades da Ivy League os acolhia entre seus alunos. Bellow foi marcado pelo romance What Makes Sammy Run (O Que Faz Sammy Correr), de Budd
Shculberg, que diagnosticava a alienação do judeu segregado nos subúrbios como uma doença americana.
Esse tempo em Chicago inspirou a Bellow muitas passagens dos seus romances.
Em 1974, ele fez uma saudação numa cerimônia, quando se referiu de modo particular à cidade:
"Bernanos, romancista religioso francês, dizia que sua alma não podia ser separada de sua cultura, e era por isso que ele escrevera sua obra em cafés." E continua
Bellow: "Meu Deus, cafés! Eu beijaria o chão de um café. Não havia cafés em Chicago. Havia sim cafeterias de talher engordurado, ou tabernas de cadeiras com braços dobráveis. Nunca ouvi falar num escritor que tivesse trazido seus escritos para um lugar desses."
Bellow oscilava entre o ódio e o amor a Chicago. Ele escreveu em 1990:
"Passei a maior parte da vida em Chicago, mas o meio-oeste nunca pareceu apropriado para mim. Tudo ali é diferente de mim, até suas moléculas são mais gordurosas, mais obesas. Sempre pensei no leste americano como um lugar melhor." Mas foi em Chicago, desde muito cedo, que ele resolveu fazer uma carreira de escritor.
No outono de 1948 estava morando em Paris com a família. A cidade ainda tinha a beleza clássica que depois perdeu. Em Aventuras de Augie March ele fala no grande carrossel dos heróis gregos das
Tulherias, na imponência do obelisco, nos sorvetes coloridos, no Quai Voltaire na esquina da Rue du
Bac.
Harold Kaplan, americano rico de Nova Jérsei, vivia ali e seu apartamento era freqüentado por Merleau-Ponty, Albert Camus, Arthur Koestler, Czeslaw Milosz e James Baldwin. Bellow conviveu com esses autores, que já conhecia de leitura, e se sentiu provinciano ao lado deles. Para recuperar sua auto-estima, iniciou um romance com Nadine Raoul-Duval, uma jornalista que trabalhava para a revista Rapport.
Em 1950, Bellow ainda vivia em Paris e sua mulher Anita trabalhava numa agência judaica que auxiliava órfãos de guerra. Um dia escreveu a um amigo em Nova York, pedindo-lhe que alugasse em seu nome um apartamento pequeno no Queens, porque resolvera regressar. Dois anos depois, em pleno sucesso do Audie March, havia voltado a considerar Chicago seu chão natural. Lecionou em diferentes universidades, mas não mais de um ano em cada uma delas.
Exceção feita a Bard, onde os costumes eram relaxados e Bellow podia namorar à vontade, além de circular à noite. Michel Rubin, um escritor dessa época, escreveu um romance inspirado em Bellow. Seu personagem era um professor que tinha casos com as alunas, todas bem mais jovens que ele. O livro, A Trip to Town (Uma Viagem à Cidade), descreve Bellow como tendo um rosto de Apolo, simples, gentil e muito franco.
O livro Seize the Day (Agarre a Vida) apareceu em novembro de 1956. O personagem Wilhelm foi considerado contraditório pelo crítico do New Yorker porque, dizia Brendan Gill, "sentia-se arrasado com a morte de alguém e, ao mesmo tempo, estava se sentindo melhor do que nunca". Bellow respondeu que os homens eram incoerentes e muitas vezes dúplices, e quem criou o mundo é que devia ser responsabilizado por isso, não os artistas que o retratam.
Seize... não foi identificado como um retrato do autor, então, e não vendeu mais do que cinco mil exemplares. Na festa de Ação de Graças daquele ano, o escritor William Faulkner passou um abaixo-assinado entre os escritores pedindo a libertação de Ezra Pound, internado num hospício em Washington.
Bellow recusou-se a assiná-lo e escreveu uma carta indignada ao escritor sulista, lembrando as ligações de Pound com o fascismo. O Bellow polemista estava em plena ação em 1959, publicando um manifesto no New York Times Book Review sobre as distorções da crítica literária no mundo. "A crítica tornou-se um jogo de rotulação - dizia ele. Para um marxista, o baleeiro Pequod do Moby Dick é uma fábrica. Para um crítico religioso é uma catedral flutuante. Para um freudiano, o capitão Ahab sofria de um complexo de Édipo e a baleia era sua mãe." A ideologia roubava a verdade e o encanto da literatura. O romance de Bellow Henderson, o Rei da Chuva foi fundo no mesmo assunto.
Quando seu segundo casamento se desfez, Bellow passou a colecionar amiguinhas, a ponto de não ter mais tempo para escrever. Ruth Miller, uma de suas biógrafas e ex-aluna, diz: "Nessa época, ele vagou de cama em cama por muito tempo." Tinha 44 anos, era famoso, divorciado, e conservava a boa aparência dos 30. Uma vida de festas acabou por algum tempo quando Bellow conheceu Susan Glassman, de 24 anos, que foi seu terceiro casamento.
Em setembro de 1964, o crítico e romancista Julian Moynihan considerou o novo romance de Bellow, Herzog, uma obra-prima. Para V. S. Pritchett, ele "era o mais premiado dos romancistas americanos vivos", e "um escritor cujo gênio para os detalhes da vida diária ultrapassou Hemingway". Bellow não gostou muito da comparação mas se conformou. No Brasil, Otto Maria Carpeaux dizia dele, com a precisão costumeira: "O infeliz intelectual judeu, espécie de Charlie Chaplin sofisticado, é o herói dos romances de Bellow que, embora em ambiente limitado, está pintando um quadro aparentemente total da vida no fim do século 20, com estoicismo filosófico e humor chaplinesco."
Herzog é considerado o melhor romance do escritor. Seu ponto mais alto é inspirado na vida real - a traição de Sandra, mulher de Bellow, que teve um caso com Jack Ludwig, também escritor, enquanto durava o casamento de ambos.
O livro ficou 42 semanas na lista dos mais vendidos e, de fato, 142 mil exemplares da edição foram comprados pelos leitores. Livros antigos de Bellow saíram dos depósitos, e a American Library pagou ao autor US$ 77 mil no final do ano. As edições populares de Herzog e Audie March deram ao autor, pouco depois, mais de US$ 370 mil. Nos seus 49 anos e após uma vida de penúria, Bellow era então um homem rico.
Quando Lolita finalmente apareceu nas livraria dos EUA, Bellow falou mal dele: "Escrever sobre um homem de meia-idade que gosta de transar com menininhas, vá lá. Mas fazer disso uma filosofia, é demais. Eu escreveria um livro melhor - do ponto de vista de Lolita." Nabokov mandou bala de volta:
"Bellow, miserável mediocridade, não devia ter aparecido na capa de um livro a meu respeito. Mas era tarde demais quando vi, para eliminar a figura." O livro era uma coletânea de ensaios sobre Nabokov.
"Casamento obedece sempre às regras da guerra", repetia Saul Bellow, e 1966 foi um ano de novas hostilidades. Já afastado de Susan, esta descobriu que ele falava muito por telefone com uma certa Maggie Staats, e decidiu aumentar a pensão que recebia do escritor para sustento dos filhos do casal.
Veio o divórcio e ele escreveu um ensaio que chamou de "Excelentes Solteiros", sobre oito homens que nunca se casaram e foram felizes a vida inteira. "Descobri os prazeres de viver sozinho", escreveu ele. Perguntado por uma repórter se se casaria novamente, respondeu: "Idealmente, sim. Mas isso é como perguntar a alguém se viveria no Paraíso."
Bellow nunca havia feito um diário na vida. Mas naquele ano, melancólico e muito infeliz, ele anotou, falando de si próprio: "Relutância em reconhecer a realidade do presente, devido a uma ligação com algo na infância." Em 1969 ele já estava vivendo com Maggie Staats, mas pouco depois se sentia sufocado na nova relação. Crescia nessa época, enquanto cuidava do lançamento de um novo romance, O Planeta do Sr. Sammler, uma nova paixão em sua vida - Louise Glück, uma jovem poeta de 24 anos.
Quando Phillip Roth escreveu-lhe uma carta querendo discutir questões de casamento e vida comum, terreno em que também era infeliz, Bellow respondeu:
"Falar comigo sobre casamento é como falar com o diretor do zoológico sobre coelhos. Não é meu campo." Gilead Morahg, professor de literatura e autor de um estudo sobre os romances de Bellow, afirma que desde seu primeiro romance, em 1944, até Humboldt's Gift (O Legado de Humboldt), em 1975, seus livros foram tentativas teimosas de descobrir as possibilidades e a essência da auto-realização humana, examinando as maneiras de chegar a isso. Em Seize the Day essa busca atinge seu ponto mais alto.
"Bellow conta a história do romance judeu com a América", explica o crítico John Leonard, "não do judeu na América". Seus personagens são os humilhados e ofendidos de sempre, os mesmos de Isaac Bashevis Singer. Apesar disso, ele buscou em sua obra representar o homem universal, não o de uma cultura específica. De volta de Estocolmo em 1975, onde foi receber o Nobel, Bellow quis uma vez mais isolar-se para se renovar. Pouco depois escrevia a Phillip Roth: "Quando a insônia pemite, sonho com mosteiros ou cavernas de heremitas. Mas sou judeu e casado - uxorius."
Em 1985, o escritor quis ficar sozinho de novo, e se separou de Alessandra Tulcea. Os amigos se lembraram logo dos seus sonhos de eremita, e temeram um isolamento como o de J. D. Salinger. Quando Roth foi visitá-lo em casa, encontrou-o de fato solitário, na véspera de completar 70 anos. Os dois saíram para ir a um concerto, ouvir Shostakovich. Meses depois, a morte do escritor e amigo Bernard Malamud fez com que ele voltasse ao mundo dos homens por alguns dias, para chorar o amigo. Seis meses depois apareceu com um novo livro, More Die of Heartbrake (A Mágoa Mata Mais). Aos 74 anos, casou-se novamente, agora com uma mulher mais velha: Janis Freedman, de 31 anos. A partir daí, começou a contemplar a possibilidade de se mudar de Chicago, a cidade sombria.
Quando a Universidade de Boston renasceu, sob a presidência de John Silber, vários escritores e poetas da velha guarda foram reconvocados para trabalhar. O meio intelectual em Boston estava livre dos ideólogos de esquerda, que durante a guerra do Vietnã haviam expulsado quem não falava sua linguagem. Bellow tinha mostrado há pouco que estava em boa forma, lançando os ensaios de It All Adds Up (Tudo Faz Sentido). Ele então mudou-se com a nova mulher para Boston, onde está vivendo até hoje. Em abril de 2000, seu romance mais recente, Ravelstein, foi aplaudido pela crítica. Baseava-se nos últimos meses de vida do seu amigo e confidente Allan Bloom, professor e intelectual brilhante que morrera em 1992. Escrever esse livro foi para Bellow uma missão. Nele diz Chick, o personagem que fala pelo autor: "A regra dos mortos é serem esquecidos, mas Ravelstein pedia alguma coisa diferente." Em maio, o livro estava na lista dos mais vendidos do New York Times.
http://www.jewishbrazil.com/saulbellow.htm
Luiz Carlos Lisboa, jornalista e escritor, é autor de Guerra Santa do Gato
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