É mais ou menos assim que o psiquiatra, mestre em
Filosofia e responsável pelo Grupo de Ciência Cognitiva do Instituto de
Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, Henrique Schützer Del Nero,
introduz a personagem principal de seu livro O Sítio da Mente, preparando-se
para explicar à luz dos últimos conhecimentos da ciência o fenômeno que a
natureza mais se esmerou em criar, e que é considerado unanimente pelos que
se debruçam sobre a vida natural na terra como sua obra máxima neste mundo:
o cérebro humano, a mente do homem, o pequeno mas extraordinário dínamo que
permitiu a uma das espécies que habitam o planeta sobrepor-se a todas as
demais - e o que é notável -, a ter o atrevimento de fazer perguntas e dar
respostas sobre si mesma.
A mente é, por natureza, uma regra de convocação e solução
- regra dinâmica e código de convocação, diz o autor -, jamais uma
estrutura estática que possa ser a priori desenhada para tratar desse ou
daquele problema. Ela está no cérebro mas é um conjunto de funções que,
bem entendido, pode ser replicado em máquinas e em tantos meios de suporte
quantos forem capazes de manter a lógica de recrutamento e conexão de
elementos. O cérebro é um hardware, a mente um software. A partir dessa
compreensão, Del Nero mostra, num capítulo um pouco mais árduo para o
leitor comum porque árdua é a questão, de que modo se deu a substituição
do behaviorismo pela ciência cognitiva como teoria da mente. Tratando da
disfunção mental, diz ele que "grande parte das ilusões que se vendem
hoje em dia sob o rótulo de tratamento para a mente encontra ouvidos porque não
se educam e instruem as pessoas com uma teoria série da vida mental".
Alguns capítulos de seu livro se agrupam no estudo de
eixos básicos da psiquiatria que podem auxiliar "na obtenção daquilo
que dissemos ser uma pista de que a mente não está de posse de todos os seus
instrumentos de ação".Outras páginas tratam do mecanismo das
patologias e dos problemas da atenção, da linguagem, da percepção, da
personalidade e da memória. A última função examinada é o sonho, que pode
ter importância fundamental na abordagem da mente, mas não há evidência até
hoje, diz a obra no seu extraordinário realismo, de que o sonho possa ser
usado como instrumento diagnóstico. Seu estudo mostra que a consciência tem
uma parte fortemente ligada ao cérebro e outra ao meio.
A última parte de O Sítio da Mente é sobre a mente
sitiada. É uma avaliação de resultados e é também uma exposição sobre o
que aconteceu com esse conjunto complexo criado pela seleção natural, ao fim
de muitos milênios. A mente está sitiada quando privilegia um discurso de
opinião e de doutrinas rivais, quando o que está em jogo é um problema biológico
de adaptação e seleção. Os que fazem da ideologia um motivo de credo e não
de ciência acabam por não perceber que, se ela é a personalidade do corpo
social, ou esse corpo se torna uniforme e equilibrado ou morre devido à
assimetria de seus membros.
Para Del Nero é urgente lembrar que, se temos um planeta
que nos fornece energia, alimento e ar para respirar _, obsessão moderna, de
feitio unilateral _, também a sociedade é um prolongamento da biologia, e a
mente com ela. a soberania do mercado é discutível. Fosse ele senhor das
decisões sobre a ciência, estaríamos até hoje agarrados a mecânica da
Terra no centro do universo, porque ela convinha mais à época que
predominou. Em resumo, a idéia de que a satisfação pode ser critério de
avaliação de teorias é um arremedo de biologia evolutiva. E não reconhecer
a necessidade de resgate da massa humana excluída do processo constitui ameaça
à espécie.
O novo tempo que surge na passagem do milênio não poderá
desistir da racionalidade que domina e aplaina a emoção. Essa mesma
racionalidade que introduz a salvaguarda para que o crescimento seja pleno e
harmonioso, não apenas cronológico. Uma racionalidade que coloque a ciência
a serviço da transformação do ser humano, e não a faça apenas ferramenta
geradora de tecnologia de bem-estar. E não se trata de abandonar uma visão
espiritual da mente _ de vez que aquilo que se pretende espiritual é com freqüência
confusa superstição escapista _, mas sim de reconhecer a como que
sacralidade da natureza biológica.
Um livro que expõe em sua grande parte a maneira como a
mente emerge no cérebro humano dedica uma exposição final à forma como
essa mente pode verse sitiada por uma freqüência de falsas pressuposições
que ainda predominam em nossa época. Se ela já não é assediada pela ilusão
de que o mundo e o universo giram em torno dela, é chegado o tempo dela girar
em torno do cérebro, o que equivale a liberdade. Aí, ser e dever, natureza e
moral, deixam de ser antagonismo gerados pela natureza e a cultura, para serem
forças que se equilibram na mente biológica do ser humano.