OLHOS E CORES

                  

 

 

 O PROFETA LOIRO QUE OS BEDUÍNOS ADORAVAM SEGUIR

 


LUIS CARLOS LISBOA


 

Nova biografia de Lawrence, o coronel inglês que sabia falar ao coração dos árabes 

Tal como tem ocorrido com Shakespeare, Napoleão, Houdini e outros, os estudos e ensaios biográficos sobre o coronel Thomas Edward Lawrence -- celebrado no noticiário dos jornais e no cinema como Lawrence da Arábia -- parece que nunca vão ter fim. Alguns só se repetiram, retirando dados dos antecessores, mas outros, como os assinados por Liddell Hart, David Garnett e Jeremy Wilson, iluminaram cantos escuros na vida do herói, tentando separar lenda e história. Na biografia que acaba de aparecer nos Estados Unidos, Lawrence, o Rei não Coroado da Arábia (Overlook Press, 420 páginas), Michael Ascher examina a conquista pessoal e o envolvimento político exercido pelo coronel inglês que liderou o primeiro movimento de unificação árabe ocorrido desde as conquistas heróicas do começo histórico do Islamismo. 
Autor também do estudo O Último Beduíno, Michael Ascher é um especialista em cultura do Oriente Médio. Erudito e aventureiro nômade ao mesmo tempo, apesar dos títulos de seus livros ele é profundamente realista nas buscas e análises que empreende. A partir da obra famosa do próprio Lawrence, Os Sete Pilares da Sabedoria, e depois de extensas viagens pelo Egito, a Jordânia e a Arábia Saudita nos passos de Lawrence, Ascher traçou um perfil do personagem e fez uma espécie de meditação sobre a política da Europa em relação aos países árabes neste século. O modo como Lawrence se aproximou de Husain-ibn-Ali, vindo de Meca, de seu filho Faisal e em seguida dos grandes xeques da região, pouco teve de calculista para o autor. O que moveu o jovem oficial inglês foi um profundo interesse e, a partir de certo ponto, um sincero fascínio pelas tradições e a realidade social e política das nações árabes. 
Segundo Asher (e a frase é essencial na compreensão de Lawrence), "embora ele tenha tentado de fato ver as coisas do ponto de vista dos árabes e ter conseguido isso melhor do que a maioria, sua técnica de empatia nunca deixou de ser um método de controle. Lawrence acreditava que os árabes tradicionais eram moralmente superiores aos europeus porque eram primitivos e portanto inocentes, mas não eram superiores intelectualmente." E Asher, assim como o seu biografado, mostra o beduíno como uma espécie de nobre selvagem, dono de uma fé e de uma certeza quase infantis, capazes de sufocar seu espírito teimosamente racional. Usando essa paixão coletiva para conquistar confiança e gerar entusiasmo, Lawrence aproximou-se de líderes como Faisal (mais tarde Faisal I do Iraque), tornou-se seu conselheiro e os convenceu da viabilidade de uma revolta bem-sucedida contra os turcos que os dominavam. 
O Lawrence que Ascher pretende ter exumado nessa biografia é um hábil "massageador da verdade", alguém que a seu modo manipulou a opinião pública a seu respeito depois de ter modelado o pensamento dos líderes beduínos que soube encantar com sua conversa. De tal maneira que a revolta árabe contra a dominação turca acabou tomando a feição de sua rebeldia pessoal contra o establishment europeu e a rígida estratificação social na vida civil e na carreira militar britânicas. Se o uso de uma terminologia psicanalítica não corresse o risco de limitar a verdade, um observador próximo de Lawrence seria tentado a dizer que seu ódio reprimido pelo mundo preparou-lhe uma situação capaz de drenar toda uma energia que de outro modo se manifestaria possivelmente no desespero ou na loucura. E assim ele se tornou o inventor dos métodos modernos de guerrilha urbana e rural. 
T.E. Lawrence era filho ilegítimo de sir Thomas Chapman, dono de vastas propriedades na Irlanda que abandonou seu passado para fugir da armadilha de um primeiro casamento infeliz na Inglaterra vitoriana. Os detalhes dessa paternidade ele só descobriu em 1919, quando teve de abandonar a Conferência de Paz em Paris (onde assessorava a delegação britânica) para acompanhar o enterro do pai. A essa altura já se acostumara a repetir para si mesmo a frase de Nietzsche - de quem era leitor afeiçoado - segundo a qual todo espírito profundo necessita de uma máscara. Lawrence já escolhera a do paradoxo, sonhando com a fama e aparentando desprezá-la. Sir Harold Nicolson dizia dele que havia descoberto muito cedo que mistério gerava notícia. 
Persuasão - Seus instrumentos de persuasão foram primeiro o percebimento intuitivo do que se pode chamar de inconsciente islâmico, em seguida o árabe que aprendeu no Egito e finalmente a memorização de alguns versículos colhidos no Corão para ser usados na ocasião própria. A verdade é que os beduínos nunca foram guerreiros defensivos, de modo que Lawrence teve de aconselhar-lhes a ofensiva como única estratégia possível. Na oportunidade, isso não pedia mais do que umas tantas caixas de dinamite e algumas metralhadoras, e ele prometeu-lhes tudo isso em nome dos ingleses. Seu primeiro encontro com Faisal prolongou-se pela madrugada, entre muitas xícaras de café e chá. Falando baixo e totalmente desprovido da arrogância européia que os árabes abominavam, o inglês louro falava um árabe razoável e aconselhava modéstia (seus recursos militares eram modestos) e fé na própria iniciativa (como Maomé já aconselhava ao pregar a Jihad libertadora). 
Faisal, seu irmão Abdalah, Zaki Bey, al-Mukhlis e os outros ficaram fascinados com aquele inglês que mais parecia enviado por Deus do que pela Rainha Vitória. Segundo Asher, Lawrence estava longe de estar apenas representando, porque de fato deixava-se empolgar por algumas emoções que nasciam e se desdobravam nele próprio. As forças otomanas foram finalmente expulsas da região, depois que a estrada-de-ferro Damasco-Medina foi dinamitada, e em 1918 os árabes tomaram a capital da Síria. Logo em seguida, Lawrence voltou para a Inglaterra. No ano seguinte, ressurgiu incorporado à delegação britânica na Conferência de Paz em Paris, vestindo trajes de beduíno e defendendo sem sucesso a causa da independência árabe. Na época, foi assessor de Winston Churchill para assuntos do Oriente Médio. Usando talvez o que seus adversários diziam ser a máscara aconselhada por Nietzsche, dizia-se cansado de tanta luta e queria um tempo de anonimato. Retirou-se para escrever Os Sete Pilares da Sabedoria, que pagou inicialmente do próprio bolso mas que só foi editado um ano após sua morte. 
Seu amor pela aventura fez com que se alistasse na Royal Air Force e mais tarde se integrasse a um grupo motorizado do Exército. Em ambas as ocasiões adotou nomes falsos para evitar o desconforto da celebridade entre os companheiros. A imagem de Lawrence como um eterno guerreiro sedento de sangue ganhou grande reforço no célebre filme de David Lean Lawrence da Arábia, mas ela não correspondeu jamais à realidade, segundo Asher. A própria cultura beduína é avessa à violência desnecessária e cultiva não somente um grande respeito na relação entre indivíduos como prestigia muito a palavra sábia. O livro Os Sete Pilares da Sabedoria revela essa cultura nas suas linhas gerais. Fred Peake, que serviu num destacamento de camelos logo após a partida de Lawrence e mais tarde escreveu sobre os mesmos temas, conta que a fama do Coronel Lawrence era a de um líder magnânimo com os adversários, que proibiu sempre seus homens de maltratar os prisioneiros turcos. 
A versão definitiva de Os Sete Pilares só surgiu nas livrarias após a morte do autor num acidente de motocicleta em 1935. Antes, uma edição resumida chamada Revolta no Deserto conheceu um discreto sucesso. O livro completo foi recebido com elogios por figuras tão eminentes quanto George Bernard Shaw, Thomas Hardy e H.G. Wells. Para Asher, o hábito de ocultar sentimentos e de reduzir expressões ao estritamente necessário teria prejudicado o livro, "uma vez que escrever se refere à clara comunicação de idéias", e algumas de suas passagens parecem obscuras, enquanto outras careceriam de espontaneidade. 
Datas e dados - Que papel teria Lawrence desempenhado na criação da própria lenda? Sua sensibilidade e sua tendência a projetar o mundano no mitológico desempenhou de fato um enorme papel nisso. Em conversa com Lowell Thomas nos seus últimos meses de vida, ele confessou que não tivera muito cuidado com datas e dados na feitura de seu livro. "A história, você sabe disso, não tem muitas ligações com a verdade", teria comentado. 
Lawrence nunca mais voltou à Arábia, depois de suas grandes vitórias. Achava que havia feito o melhor possível a seu alcance por uma grande causa e agora queria cuidar da própria vida. Desapegado de fato ou simplesmente seduzido por outros interesses, teria recusado um convite feito por Churchill para ser o Alto Comissário do Egito, sucedendo McMahon e Allenby. 
Toda paga que desejava por seus serviços ele a buscou da maneira mais estranha que se possa imaginar: ser novamente soldado raso nas forças armadas, o mesmo sonho dos seus 17 anos, quando tomou a decisão de fugir de casa. Quando Michael Asher quis terminar essa biografia de T.E. Lawrence fazendo um resumo do homem e se esquecendo do mito, disse simplesmente: "Em vida ele não foi um autoritário, mas alguém cuja sensibilidade fazia com que sentisse empatia por homens - e por mulheres - de todos os credos, as raças e classes. Alguém cuja marcada ausência de uma forte identidade permitia-lhe ser qualquer coisa e qualquer pessoa que ele imaginava que outros esperavam encontrar nele. Lawrence não foi um herói imaginário, mas um homem real com uma verdadeira mistura de fraqueza e força - um líder, um estrategista, um motivador, um pensador, um fazedor, um romanceador, um elaborador, um manipulador de mitos." 


Lisboa, Luiz Carlos
O Estado de S.Paulo Domingo, 14 de novembro de 1999 

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