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“ Sobre a questão do orgulho intelectual ,Allan Watts dá um curioso depoimento no prefácio de seu livro SUPREME IDENTITÝ: “ Sou daqueles que acreditam não seja uma virtude necessária ao filósofo passar a vida defendendo a mesma posição. E certamente uma espécie de orgulho espiritual evitar pensar alto e não desejar que uma tese seja impressa até que se esteja em condições de defendê-la até a morte”
A frase, que ele repete em O Homem , a Mulher e a Natureza ( tradução recente da Record) , conclui : “ A filosofia como a ciência é uma função social , pois um homem não pode pensar corretamente sozinho e o filósofo deve publicar seu pensamento , ainda que seja somente para aprender, através da crítica , a contribuir com uma parcela para a sabedoria . Se, portanto , algumas vezes faço afirmações autoritárias e dogmáticas ,é com o propósito de contribuir para a clareza e não com o desejo de parecer um oráculo”.
O desejo de preservar uma imagem pessoal faz com que o pensador - condição comum a todo o homem , independentemente de diplomas ou de qualificações especiais - siga uma série de rituais ridículos que embotam o próprio discernimento e tornam artificial o pensamento. O pensar alto a que se refere Watts - ensaísta inglês radicado nos Estados Unidos , falecido recentemente - não é mais que o descobrir e verificar a realidade simples do dia-a-dia , sem a idéia fixa da coerência e continuidade que leva à esclerose da mente. O descobrimento de si mesmo e do mundo é tarefa de uma vida inteira , incompatível com as idéias de “ obra completa” e “ conclusão final “ . A obstinação num mesmo conceito é geralmente produto do orgulho intelectual , causa de toda fossilização do pensamento humano e de todas as contradições de nosso tempo . Quem se importa em preservar uma imagem pessoal , em detrimento dos fatos fundamentais que vão sendo assimilados a cada dia - e que vão compondo um mosaico infinito - , está mais interessado no pesquisador o que na pesquisa. E o que interessa realmente é o furto da pesquisa.
Quando Watts diz que “ um homem não pode pensar corretamente sozinho “ , está fazendo alusão a uma verdade antiga, qual seja a de que a coletividade humana forma um só bloco indivisível , no qual a mente é um patrimônio de todos - embora se expresse individualmente . Sendo os homens todos fundamentalmente iguais , o que diz respeito a um interessa a todos - o que não quer dizer que as inclinações e os talentos sejam idênticos. As descobertas essenciais são de cada um , o desejo de partilhar essa riqueza é humano , a contribuição dos demais nesses desbravamentos interiores é imensa . O eremita isolado no deserto ´pode - e esse é um fato inegável - abrir portas em seu próprio espírito. Após o encontro consigo mesmo , porém, ele se voltará fatalmente para os outros , os irmãos com os quais partilha o mundo. E essa volta é celebrada simbolicamente, na sabedoria de todos os tempos , como uma participação generosa que enriquece a todos. Permanecer indefinidamente no isolamento seria antinatural , principalmente porque a parte só significa alguma coisa em relação ao todo.
O sentido maior da comunicação consiste exatamente nesse movimento perene de dar e receber , em que não há líderes infalíveis , nem discípulos eternos , em que todos aprendem e todos ensinam, - sem qualquer noção estatística que tenha como finalidade alimentar vaidades ou subtrair responsabilidades. “ Ainda que seja somente para aprender “ , segundo Watts ,é necessário divulgar nosso pensamento . Porque , de fato , o pensamento é menos nosso do que imaginamos geralmente , sendo antes resultado das mil contribuições do mundo , isto é , dos outros , dos que estão vivos e dos que já viveram.Se há vaidade no ato de divulgar , isso deve ser levado à conta da superficialidade do divulgador, incapaz de perceber , ainda, que o que ele pensa estar dando na verdade não lhe pertence , uma vez que é patrimônio humano. Como pode alguém se envaidecer de possuir o que não lhe pertence?Narciso, que se enamorou da própria imagem , foi sempre um símbolo de futilidade incurável.
Como qualquer exposição do pensamento humano exige um veículo , e esse veículo é freqüentemente a linguagem , pequenos desacertos desta resultam em mal-entendidos . O que parecem afirmações dogmáticas não passam de simples colocações - que de resto querem evitar repetições do tipo “ penso que “ , “ julgo que” , “ a mim parece que “ , etc. Por isso Allan Watts lembra que seu propósito é contribuir para a clareza , estando longe de pretender afirmações autoritárias . E para não “ um oráculo “ que ele insiste em pensar alto , examinando , juntamente com outros , certos aspectos da vida que não têm interessado seus contemporâneos de maneira muito intensa. Sem afirmar ou negar , ele se propõe olhar na mesma direção de dois ou mais outros. A partir daí é possível um encontro. A atitude típica do intelectual movido pelo orgulho - ou levado ´pela necessidade de compensar sua insegurança ´ e a de realizar a obra perfeita e acabada , ou deixá-la na gaveta , longe da crítica e da controvérsia incômoda. Essa recusa de se comunicar diretamente , a cada momento, cria o monólogo elitista em que o pensamento é estrangulado , pela esclerose e pela mesmice. A forma verdadeiramente humana de comunicar é pensar alto , de modo que o patrimônio de todos seja enriquecido por obra de cada um e da coletividade . Essa forma de comunhão enseja contribuição e crítica, permite aprimoramento e revisão , resulta em humildade e criatividade
Olhos de ver ouvidos
de ouvir. Rio de Janeiro difel 1977
DIGITAÇÃO VERA MUSSI -
DEZEMBRO 2002
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