O SOM DO SILÊNCIO

                  

 

OS DEMÔNIOS

 


LUIS CARLOS LISBOA


 


A religião e a psicopatologia costumam às vezes designar de maneira diferente as mesmas realidades. Mas as designações - podemos descobrir diretamente, quando já não remos diretamente nelas - são apenas referências indicativas de objetos, sentimentos e idéias, símbolos úteis mas incapazes de transmitir a essência daquilo a que estão aludindo. A ira, a possessão, a paranóia, a hiperexcitação da personalidade psicopática, onde termina uma e começa a outra? A patogenia da mente humana, ainda difícil de sondar com os instrumentos fornecidos pelo pensamento cartesiano, dualista e analítico, modifica as relações humanas, fomenta ódio entre grupos e etnias, levanta nações em guerra, fabrica uma colossal massa de informação supérflua, e confunde o mundo. Todas as formas de violência nascem desses desacertos do espírito humano, e a ele voltam como sofrimento, dor e ódio reprimido.
Há uma realidade que podemos chamar de "demoníaca" , à falta de outro termo melhor, e que se caracteriza no homem por uma irresistível inclinação para o ressentimento, a inveja, a frustração, a intolerância, e pelo desejo de moldar o mundo à sua concepção. Este último elemento é fundamental. A certeza de que é preciso modificar os outros homens, a sociedade, o planeta, talvez o universo, é constante nesse tipo de natureza. Poucas pessoas revelaram tanta familiaridade com esse gênero de perversão quanto Dostoiévski, que no seu extraordinário Os Demônios (publicado como folhetim em jornal russo, entre 1870 e 1872) desdobra o tema com impressionante maestria. Nunca talvez, antes ou depois dele, alguém expôs de maneira tão intensa esse aspecto tenebroso da alma humana.
Um dos principais personagens da brilhante galeria dostoievskiana é Vierkhoviénski, figura demoníaca inspirada em personagens reais ( os revolucionários Psiechniov e Nietcháiev, que Dostoiévski conheceu de perto). Filho de um intelectual pomposo, de excelente memória mas incurável mediocridade, o jovem Vierkhoviénski revela inesperadamente sua natureza "demoníaca" que se disfarça por trás de ideais mais ou menos obscuros e contraditórios, mas basicamente "heróicos". 
Stavróguin é outra figura inesquecível de Os Demônios, amoral geladamente pragmático. Incapaz de amar, diz o autor, "é da raça dos demônios". Outros desfilam no livro como Kirilov, torturado na meia loucura e no mais radical ateísmo, Karmázinov ( inspirado em Turguéniev ) e a generala Stravóguina uma possessiva atormentada pela vaidade. Em seu demonismo os personagens se acotovelam no mundo artificial da pequena cidade russa do século XIX e antecipam, em suas obsessões, o que chegaria quatro décadas depois para a Rússia. De Dostoiévski diz Fülop-Miller: "Foi o profeta da revolução russa."
Dostoiévski quis mostrar, em Os Demônios ( uma antiga tradução brasileira tinha por título Os Possessos ), como alguns homens dominados pela divisão interior, pelo egocentrismo, por tormentos típicos do dualismo, contaminavam a vida ao seu redor. Cínicos e insensíveis, viviam atrás de um pretexto para odiar, ferir e destruir. À época, os pretextos disponíveis eram excelentes: o cientificismo, o niilismo, o europeísmo, o "liberalismo" irresponsável, todos recém-chegados a uma Rússia onde a insatisfação crescia de maneira escandalosa. A ânsia de justiça, o desejo de buscar o equilíbrio existiam também e eram aspiração geral. A exceção, a minoria demoníaca que andava à cata de justificativa para a sua violência, é que fascinou Dostoiévski. O cenário russo da segunda metade do século XIX servia bem para o trabalho que pretendeu fazer um corte vertical no ser humano de todas as épocas. E que conseguiu isso magistralmente
Stefan Trofimovich não sabe explicar o motivo do seu horror diante de Liputine, que vem visitá-lo. O homenzinho é um "demônio de segunda classe" mas tem em si toda a malignidade que um homem pode conter. O que seria chamado hoje de personalidade psicopática - talvez impropriamente - esta bem representado no personagem que chega. Os mais intuitivos percebem o potencial de insanidade de alguém, à primeira vista. Tudo o que acontece depois confirma a primeira impressão. Liputine expressa sua doença discordando do mundo, recusando a autoridade onde quer que ela esteja, e até mesmo só a aparência de autoridade. O ódio represado ganha respeitabilidade revestido de idéias, naturalmente. A "guerra santa", a não-conciliação das classes sociais, a "defesa dos nossos ideais', a "pureza racial" - são variados os pretextos e múltiplas as acrobacias intelectuais que tentam conferir alguma aparência de dignidade ao ódio animal que fermenta nesses exemplares humanos que Dostoiévski chama de demônios.
Os ideais levam Liputine, Vierkhoviénski, Stavróguin e Kirilov a um estado permanente de violência interior, capaz de desencadear ação violenta imprevisível, fonte geradora de dor, sofrimento, injustiça e arrependimento. Não importa o nome que médicos e stárietz dêem ao fenômeno, e muito menos o que Marx, Freud e os outros fundadores de correntes de pensamento explicaram a respeito. Dostoiévski usa o privilégio do ficcionista de não Ter que definir ou dissecar metodicamente. Limita-se a narrar com sua genialidade própria, revelando a vida tal como a encontrou no mundo, e como a deixou ao partir. Os homens eram assim antes do escritor, e continuaram assim depois dele. O mérito do artista consistiu em reunir, numa montagem vasta, o fundamental e o corriqueiro, reproduzindo o primeiro com fidelidade e registrando o segundo como depoimento de uma época - fútil, violenta e pretensiosa, como a nossa.


Lisboa, Luiz Carlos jornalista e escritor
O Estado de São Paulo - Jornal da Tarde - 04-08-78

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