OLHOS E CORES

 

 

 

O PASTOREIO POLÍTICO

 


LUIS CARLOS LISBOA


 

 

   O século que se orgulha de grandes conquistas no terreno dos direitos  humanos e das liberdades públicas é o mesmo em que se desenvolveram as formas mais requintadas e esmagadoras de dominação política e de intimidação coletiva. Essa contradição flagrante, escândalo do nosso tempo é pouco analisada porque estamos todos muito imersos nela. E, portanto, comprometidos demais para fazermos um juízo exato  a seu respeito. Esse comprometimento inclui vitimas e algozes, e cega a ambos da mesma forma. O costume, os condicionamentos mínimos e sutis fazem com que o homem se habitue a todos os absurdos, como o personagem do trapézio em Kafka, que já não podia entender como era possível a alguém viver sempre com os pés no chão sem subir pelo menos uma vez  ao dia às barras volante do circo. Mergulhamos num oceano de pressões, conceitos e imagens muito valorizados, somos levados - principalmente em determinados grupos, classes e profissões - a falar nos mesmos temas, sempre com enfoque idêntico, certamente com uma única ótica.

        Qualquer oposição aos lugares comuns impostos como norma desencadeia o processo de intimidação  que poucos ousam examinar. Diversificado, esse mecanismo opera em diferentes níveis, com pressão variável, ênfase adequada a pessoas e situações, tendo em vista resultados imediatos ou remotos. . A intimidação é política, filosófica ou confessional. geralmente psicológica, pode ser também física, quando isso for necessário. Sua sutileza consiste em não desafiar a coragem do corajoso, a correção formal do honesto, o bairrismo do nacionalista. A habilidade é fundamental para o êxito da pressão. Historicamente, o século da intimidação inaugurou seus métodos com o fascismo, ao menos oficialmente,  mas conheceu seu período áureo no stalinismo, e, embora Stálin tenha sido depois renegado, aqueles métodos foram conservados e aperfeiçoados com a experiência e os resultados colhidos.

        O vasto processo de intimidação política que hoje paira no ar em todos os quadrantes da Terra visa tomar uma opinião geral dirigida pelos interesses de pequenos grupos e grandes potências. A capacidade de fogo desses grupos é inconcebivelmente grande, porque conta não apenas com as minorias conscientes de seu papel ma também com os "convertidos" de causas paralelas, muitas delas bem-intencionadas, humanitárias, às vezes locais, simpáticas e irrecusáveis. A opinião opinião formada desse grupo considerável, aparentemente unânime,  exerce pressão sobre uma colossal massa que não tem opinião alguma e que esta até mesmo carente de orientação. Esse "pastoreio" da vontade popular procura vencer, pela persistência e pelo humanitarismo formal de suas teses, a natural aversão  que o homem comum, fonte do bom senso em todas as épocas, sente pelas fórmulas prontas. Essa repugnância espontânea é hoje o único obstáculo no caminho da doutrinação ideológica e da intimidação política que varre o planeta em todas as direções. Esse fator merece ser observado, germe que é da preservação da realidade, fonte da qual pode brotar a reação crítica que se espera do ser  humano sempre que sua liberdade esta em perigo. Não é uma cruzada o que pode derivar dessa percepção popular dos fatos, mas uma visão analítica mais profunda e mais extensa, capaz de exorcismar a dominação totalitária do espírito humano.

        As palavras foram grandes vítimas da intimidação e tem servido muito adequadamente a ela. Ao designar, estamos julgando pessoas, coisas, sentimentos. Rotulando, distribuímos sentenças. e os modernos rotuladores ideológicos são peritos em fraquezas  humanas, sabendo com admirável penetração onde doem as palavras, onde e como incomodam os ápodos, as designações, os títulos, as definições - sentenças finais, às vezes pronunciadas em voz baixa, como quem faz uma confidência, mas visa toda divulgação possível. Ninguém quer merecer os rótulos malditos, porque todos temem a desaprovação geral e pouquíssimos conseguem  viver em paz quando se sabem repudiados, reprovados, rejeitados. As palavras são talvez o mais revolucionário instrumento de trabalho desses grupos de pressão que operam em circuitos concêntricos - no meio  os   que sabem tudo e em volta, os vários níveis, os que sabem cada vez menos, que são meros instrumentos de uma paixão geral - e que conquistam êxitos a cada dia, inclusive, como dizem ao diabo, fazendo acreditar que não existem.

        Esse é, talvez, o aspecto mais interessante do problema. Toda referência a esse processo mundial de intimidação é neutralizada com desdém pelos que se apresentam como realistas, pessoas que t6em os pés no chão e não acreditam em fantasmas, nem desejam promover "caça às bruxas". Depois dos realistas, aparecem os libertos, os que vêem tudo com naturalidade e que se dizem  absolutamente livres de qualquer intimidação e pressão. Em grande parte, dizem a verdade. Ninguém os intimida, de fato, uma vez que eles exercem livremente o papel de intimidadores, convencidos que estão  de que é possível atingir um fim honesto através de meios desonestos, a felicidade geral através do medo, da violência e da mentira. Seu trabalho consiste, então, em desfazer toda impressão de que existe uma operação geral visando à formação da opinião pública. Nessa missão sagrada, há, certamente, o prazer secreto de trabalhar por uma causa, há o entusiasmo característico dos que julgam estar contribuindo alguma coisa, no caso uma nova ordem mundial. Esse prazer e essa ilusão, que de modo algum são novos na história do mundo, assentam no terreno pantanoso da fraude e ali vão encontrar, graças a uma dialética que não conhecem, destino e sepultura.


Lisboa, Luiz Carlos - Jornal da Tarde - O Estado de São Paulo Segunda-feira, 04-06-79

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