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O século que se orgulha de grandes
conquistas no terreno dos direitos humanos e das liberdades públicas
é o mesmo em que se desenvolveram as formas mais requintadas e
esmagadoras de dominação política e de intimidação coletiva. Essa
contradição flagrante, escândalo do nosso tempo é pouco analisada
porque estamos todos muito imersos nela. E, portanto, comprometidos
demais para fazermos um juízo exato a seu respeito. Esse
comprometimento inclui vitimas e algozes, e cega a ambos da mesma
forma. O costume, os condicionamentos mínimos e sutis fazem com que o
homem se habitue a todos os absurdos, como o personagem do trapézio
em Kafka, que já não podia entender como era possível a alguém
viver sempre com os pés no chão sem subir pelo menos uma vez
ao dia às barras volante do circo. Mergulhamos num oceano de pressões,
conceitos e imagens muito valorizados, somos levados - principalmente
em determinados grupos, classes e profissões - a falar nos mesmos
temas, sempre com enfoque idêntico, certamente com uma única ótica.
Qualquer oposição aos lugares comuns impostos como norma desencadeia
o processo de intimidação que poucos ousam examinar.
Diversificado, esse mecanismo opera em diferentes níveis, com pressão
variável, ênfase adequada a pessoas e situações, tendo em vista
resultados imediatos ou remotos. . A intimidação é política, filosófica
ou confessional. geralmente psicológica, pode ser também física,
quando isso for necessário. Sua sutileza consiste em não desafiar a
coragem do corajoso, a correção formal do honesto, o bairrismo do
nacionalista. A habilidade é fundamental para o êxito da pressão. Historicamente, o século da intimidação inaugurou seus métodos
com o fascismo, ao menos oficialmente, mas conheceu seu período
áureo no stalinismo, e, embora Stálin tenha sido depois renegado,
aqueles métodos foram conservados e aperfeiçoados com a experiência
e os resultados colhidos.
O vasto processo de intimidação política que hoje paira no ar em
todos os quadrantes da Terra visa tomar uma opinião geral dirigida
pelos interesses de pequenos grupos e grandes potências. A capacidade
de fogo desses grupos é inconcebivelmente grande, porque conta não
apenas com as minorias conscientes de seu papel ma também com os
"convertidos" de causas paralelas, muitas delas bem-intencionadas, humanitárias, às vezes locais, simpáticas e
irrecusáveis. A opinião opinião formada desse grupo considerável,
aparentemente unânime, exerce pressão sobre uma colossal massa
que não tem opinião alguma e que esta até mesmo carente de orientação. Esse
"pastoreio" da vontade popular procura vencer, pela persistência
e pelo humanitarismo formal de suas teses, a natural aversão
que o homem comum, fonte do bom senso em todas as épocas, sente pelas
fórmulas prontas. Essa repugnância espontânea é hoje o único
obstáculo no caminho da doutrinação ideológica e da intimidação
política que varre o planeta em todas as direções. Esse fator
merece ser observado, germe que é da preservação da realidade,
fonte da qual pode brotar a reação crítica que se espera do ser
humano sempre que sua liberdade esta em perigo. Não é uma
cruzada o que pode derivar dessa percepção popular dos fatos, mas
uma visão analítica mais profunda e mais extensa, capaz de exorcismar
a dominação totalitária do espírito humano.
As palavras foram grandes vítimas da intimidação e tem servido
muito adequadamente a ela. Ao designar, estamos julgando pessoas,
coisas, sentimentos. Rotulando, distribuímos sentenças. e os
modernos rotuladores ideológicos são peritos em fraquezas
humanas, sabendo com admirável penetração onde doem as palavras,
onde e como incomodam os ápodos, as designações, os títulos, as
definições - sentenças finais, às vezes pronunciadas em voz baixa,
como quem faz uma confidência, mas visa toda divulgação possível.
Ninguém quer merecer os rótulos malditos, porque todos temem a
desaprovação geral e pouquíssimos conseguem viver em paz
quando se sabem repudiados, reprovados, rejeitados. As palavras são
talvez o mais revolucionário instrumento
de trabalho desses grupos de pressão que operam em circuitos concêntricos
- no meio os que sabem tudo e em volta, os vários
níveis, os que sabem cada vez menos, que são meros instrumentos de
uma paixão geral - e que conquistam êxitos a cada dia, inclusive,
como dizem ao diabo, fazendo acreditar que não existem.
Esse é, talvez, o aspecto mais interessante do problema. Toda referência
a esse processo mundial de intimidação é neutralizada com desdém
pelos que se apresentam como realistas, pessoas que t6em os pés no chão
e não acreditam em fantasmas, nem desejam promover "caça às
bruxas". Depois dos realistas, aparecem os libertos, os que vêem
tudo com naturalidade e que se dizem absolutamente livres de
qualquer intimidação e pressão. Em grande parte, dizem a verdade.
Ninguém os intimida, de fato, uma vez que eles exercem livremente o
papel de intimidadores, convencidos que estão de que é possível
atingir um fim honesto através de meios desonestos, a felicidade
geral através do medo, da violência e da mentira. Seu trabalho
consiste, então, em desfazer toda impressão de que existe uma operação
geral visando à formação da opinião pública. Nessa missão
sagrada, há, certamente, o prazer secreto de trabalhar por uma causa,
há o entusiasmo característico dos que julgam estar contribuindo
alguma coisa, no caso uma nova ordem mundial. Esse prazer e essa ilusão,
que de modo algum são novos na história do mundo, assentam no
terreno pantanoso da fraude e ali vão encontrar, graças a uma dialética
que não conhecem, destino e sepultura.
Lisboa, Luiz Carlos -
Jornal da Tarde - O Estado de São Paulo Segunda-feira, 04-06-79
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