O SOM DO SILÊNCIO

 

 

 

OLHOS E CORES

 


LUIS CARLOS LISBOA


 

"Ver com clareza é poesia, profecia e religião. Tudo de uma vez." Numa de suas iluminações em Modern Painters, o escritor e artista John Ruskin associou, pela primeira vez em sua vida, a lucidez e a beleza. A cultura em que todos estamos mergulhados costuma ignorar solenemente essas questões, consideradas inúteis ou intelectuais, preferindo cuidar daquelas outras coisas que conduzem a resultados que por sua vez são perfeitamente solúveis e perecíveis. O pensamento racionalista não sabe o que seja "ver com clareza", uma vez que se perde na pesquisa do significado de ver, ou no sentido de claro. Como as definições ganham contorno por meio de palavras, o espirito satisfaz sua curiosidade com meros símbolos, e pensa que sabe.

Meister Eckhart ensinava o caminho: "se meus olhos têm de discernir a cor, é necessário que estejam livres dela". Ou, de outro modo: não posso entender o condicionamento com um espírito condicionado. Tudo o que fosse percebido conteria as distorções do instrumento que percebe. Isto pode parecer estranho, mas não é complicado. Ver com clreza é simplesmente ver, sem adjetivos, acréscimos, ou subtrações, sem as interferências da vontade, do desejo e do medo. Primeiro é preciso que se diga que não é possível ver quando não se deseja ver, o que fornece assunto suficiente para alguns volumes. Há mil circunstâncias que, por serem perturbadoras, ou porque não coincidem com uma imagem que construímos para nós, tratamos de ignorar ou esquecer depressa, o que acontece facilmente. É possível que esse seja o exercício mais fascinante que o espírito é capaz de realizar, quando chega a realizá-lo - o descobrir como nosso mundo interior trabalha.

 Ver com clareza é único modo de ver realmente. Há mais equívocos e lendas sobre isso do que sobre qualquer outra coisa. Um olhar despojado pode apreender toda realidade à sua frente, precisamente porque não está limitado ou subordinado a coisa nenhuma. De certo modo é isso: o vazio pode ser recheado com o real, mas o que está repleto de conceitos "transforma" o real, tão logo toma contato com ele, sendo incapaz de surpreendê-lo. Não há malabarismo filosófico algum nessa coisa simples, embora haja grande resistência à aceitação de uma proposta que ainda não foi experimentada diretamente, o que parece razoável. É preciso ser basicamente simples (ou vazio de auto-imagens) para receber as coisas como são. Quando isso acontece, enquanto acontece, é possível ver com clareza. Seria fútil imaginar que isso ocorre permanentemente, ou que tem continuidade no tempo. A idéia de duração é estranha a essa visão clara que "é poesia, profecia e religião".

“E muito difícil para o espírito instalado na rotina do dia-dia aceitar que esse assunto elementar - o ver, simplesmente - possa merecer mais que uma referência ligeira. Afinal o que fazemos todos dias, em todas as horas, é perfeitamente banal e corriqueiro. Esse é o primeiro e mais teimoso engano, a respeito. Nem sempre se conhece bem aquilo que se faz a todo instante. A verdade é o contrário: o que está mais próximo é o menos conhecido. A familiaridade é uma forma de cegueira e isso se aplica à convivência interpessoal, às idéias que predominam em nós, aos costumes que adquirimos e a todo resto do mundo físico em que existimos. Perceber essas pequenas coisas é um exercício de renovação interior. Qualquer discurso sobre o tema parece redundante, didático, pretensioso, sendo necessário viver diretamente o significado”.

 Olhar é alguma coisa material, mas ver é com certeza alguma coisa espiritual. Seria preciso criar uma palavra, mais uma - talvez comunhão seja uma designação expressiva - para indicar o que acontece quando se vê integralmente. Não há nada sobrenatural implicado e nenhuma transfiguração está a caminho. Trata-se apenas de perceber a forma e significação, a incerteza e a função, entendendo que não existe nada isolado no mundo e que tudo está, de algum modo, entrelaçado e vivo. Quando Ruskin diz que na visão clara há poesia, é disso que ele está falando. Toda tentativa de expressar o "ver com clareza" resulta em poesia, embora nem sempre transmita alguma coisa compreensível. Quando Ruskin fala que há profecia implicada no fenômeno simplíssimo e profundo de ver, refere-se às antecipações comuns à compreensão das pessoas e coisas. E como se o "daqui a pouco" e o "mais tarde" estivessem vivos no presente de homens e objetos, e perfeitamente claros a uma percepção aplicada. Quando Ruskin afirma que há religião nisso tudo, está sendo fiel à experiência pessoal de entrar em comunicação harmônica com tudo que existe - o que, uma vez mais, soa levemente romântico, mas nem por isso merece menos ser verificado. 

Eckhart colocou a questão em termos objetivos, ao dizer que,"se meus olhos devem discernir a cor, é preciso que estejam livres dela". Isso ainda é parte do exercício. Supondo a existência de uma lente colorida diante dos olhos, é fácil imaginar que todos as demais colorações seriam percebidas por eles, exceto aquela da lente. Não observamos fora o que faz parte da essência do observador. Muito menos dentro, quando olhamos para nós mesmos, e isso por idênticos motivos. "Ficar livre da cor" importa em perceber que ela existe, como é constituida e de que maneira inibe a percepção de cor idêntica no exterior. O resto é aplicar a imagem à realidade, e descobrir que Ruskin, Eckhart e muitos outros tentaram transmitir qualquer coisa que talvez valha a pena conhecer.

 

Lisboa, Luiz Carlos  jornalista e escritor
O Estado de São Paulo 31/051982

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