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"Ver com clareza é poesia, profecia e religião.
Tudo de uma vez." Numa de suas iluminações em Modern Painters, o
escritor e artista John Ruskin associou, pela primeira vez em sua vida, a
lucidez e a beleza. A cultura em que todos estamos mergulhados costuma
ignorar solenemente essas questões, consideradas inúteis ou
intelectuais, preferindo cuidar daquelas outras coisas que conduzem a
resultados que por sua vez são perfeitamente solúveis e perecíveis. O
pensamento racionalista não sabe o que seja "ver com clareza",
uma vez que se perde na pesquisa do significado de ver, ou no sentido de
claro. Como as definições ganham contorno por meio de palavras, o
espirito satisfaz sua curiosidade com meros símbolos, e pensa que sabe.
Meister Eckhart ensinava o
caminho: "se meus olhos têm de discernir a cor, é necessário que
estejam livres dela". Ou, de outro modo: não posso entender o
condicionamento com um espírito condicionado. Tudo o que fosse percebido
conteria as distorções do instrumento que percebe. Isto pode parecer
estranho, mas não é complicado. Ver com clreza é simplesmente ver, sem
adjetivos, acréscimos, ou subtrações, sem as interferências da
vontade, do desejo e do medo. Primeiro é preciso que se diga que não é
possível ver quando não se deseja ver, o que fornece assunto suficiente
para alguns volumes. Há mil circunstâncias que, por serem perturbadoras,
ou porque não coincidem com uma imagem que construímos para nós,
tratamos de ignorar ou esquecer depressa, o que acontece facilmente. É
possível que esse seja o exercício mais fascinante que o espírito é
capaz de realizar, quando chega a realizá-lo - o descobrir como nosso
mundo interior trabalha.
Ver com clareza é único
modo de ver realmente. Há mais equívocos e lendas sobre isso do que
sobre qualquer outra coisa. Um olhar despojado pode apreender toda
realidade à sua frente, precisamente porque não está limitado ou
subordinado a coisa nenhuma. De certo modo é isso: o vazio pode ser
recheado com o real, mas o que está repleto de conceitos
"transforma" o real, tão logo toma contato com ele, sendo
incapaz de surpreendê-lo. Não há malabarismo filosófico algum nessa
coisa simples, embora haja grande resistência à aceitação de uma proposta
que ainda não foi experimentada diretamente, o que parece razoável. É
preciso ser basicamente simples (ou vazio de auto-imagens) para receber as
coisas como são. Quando isso acontece, enquanto acontece, é possível
ver com clareza. Seria fútil imaginar que isso ocorre permanentemente, ou
que tem continuidade no tempo. A idéia de duração é estranha a essa
visão clara que "é poesia, profecia e religião".
“E muito difícil para o espírito
instalado na rotina do dia-dia aceitar que esse assunto elementar - o ver,
simplesmente - possa merecer mais que uma referência ligeira. Afinal o
que fazemos todos dias, em todas as horas, é perfeitamente banal e
corriqueiro. Esse é o primeiro e mais teimoso engano, a respeito. Nem
sempre se conhece bem aquilo que se faz a todo instante. A verdade é o
contrário: o que está mais próximo é o menos conhecido. A
familiaridade é uma forma de cegueira e isso se aplica à convivência
interpessoal, às idéias que predominam em nós, aos costumes que
adquirimos e a todo resto do mundo físico em que existimos. Perceber
essas pequenas coisas é um exercício de renovação interior. Qualquer
discurso sobre o tema parece redundante, didático, pretensioso, sendo
necessário viver diretamente o significado”.
Olhar é alguma coisa
material, mas ver é com certeza alguma coisa espiritual. Seria preciso
criar uma palavra, mais uma - talvez comunhão seja uma designação
expressiva - para indicar o que acontece quando se vê integralmente. Não
há nada sobrenatural implicado e nenhuma transfiguração está a
caminho. Trata-se apenas de perceber a forma e significação, a incerteza
e a função, entendendo que não existe nada isolado no mundo e que tudo
está, de algum modo, entrelaçado e vivo. Quando Ruskin diz que na visão
clara há poesia, é disso que ele está falando. Toda tentativa de
expressar o "ver com clareza" resulta em poesia, embora nem
sempre transmita alguma coisa compreensível. Quando Ruskin fala que há
profecia implicada no fenômeno simplíssimo e profundo de ver, refere-se
às antecipações comuns à compreensão das pessoas e coisas. E como se
o "daqui a pouco" e o "mais tarde" estivessem vivos no
presente de homens e objetos, e perfeitamente claros a uma percepção
aplicada. Quando Ruskin afirma que há religião nisso tudo, está sendo
fiel à experiência pessoal de entrar em comunicação harmônica com
tudo que existe - o que, uma vez mais, soa levemente romântico, mas nem
por isso merece menos ser verificado.
Eckhart colocou a questão em
termos objetivos, ao dizer que,"se meus olhos devem discernir a cor,
é preciso que estejam livres dela". Isso ainda é parte do exercício.
Supondo a existência de uma lente colorida diante dos olhos, é fácil
imaginar que todos as demais colorações seriam percebidas por eles, exceto
aquela da lente. Não observamos fora o que faz parte da essência do
observador. Muito menos dentro, quando olhamos para nós mesmos, e isso
por idênticos motivos. "Ficar livre da cor" importa em perceber
que ela existe, como é constituida e de que maneira inibe a percepção
de cor idêntica no exterior. O resto é aplicar a imagem à realidade, e
descobrir que Ruskin, Eckhart e muitos outros tentaram transmitir qualquer
coisa que talvez valha a pena conhecer.
Lisboa, Luiz Carlos jornalista e escritor
O Estado de São Paulo 31/051982
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