OLHOS E CORES

                  

 

 

LIVRO REVELA ODISSÉIA DO HOMEM PRÉ-HISTÓRICO NA AMÉRICA

 


LUIS CARLOS LISBOA


 


Quando um dente de mastodonte foi encontrado num sítio arqueológico do Chile, em 1976, juntamente com restos de carvão e utensílios de caça, as atenções do mundo científico voltaram-se para o que a alguns parecia uma novidade desagradável e a outros a confirmação de uma teoria. Para o arqueólogo norte-americano Thomas D. Dillehay, que fazia na ocasião pesquisa de campo naquele país, o achado na pequena localidade chilena de Monte Verde de fato confirmava outras descobertas no Peru, na Argentina e no Brasil, que vinham sendo estudadas e enfrentavam objeções simplesmente porque negavam conceitos arraigados, como aconteceu há quatro séculos com Galileu, quando ele afirmou que era a Terra que se movia, não o Sol. 
Pouco após o achado de vestígios de um grande animal extinto ao lado de utensílios feitos por humanos, testes de radiocarbono comprovaram o que alguns mal ousavam imaginar - a presença humana há mais de 12.000 anos no sul do continente americano, quase 12 séculos anterior à cultura Clóvis descoberta no Novo México, até então considerada a mais recuada no tempo. A partir daí e durante uma década, Dillehay e uma equipe de 80 profissionais escavaram e peneiraram a área de Monte Verde, auxiliados por testes de radiocarbono e pela análise de mitocôndrios do ADN, trocando opiniões com alguns dos maiores arqueólogos do mundo sobre as descobertas. 
Aquele povo cujos vestígios agora eram esmiuçados, praticava a caça em larga escala, capturava animais do porte do mastodonte, organizava sua agricultura e aperfeiçoava instrumentos de osso e pedra. Esse caçador pleistoceno fazia fogueiras em buracos no chão, e cozinhava a seu modo o que comia. 
Em 1997, finalmente, um grupo especial de arqueólogos concordou com a data dos achados arqueológicos de Monte Verde, e por essa época outros sítios confirmaram também sua surpreendente antigüidade - três nos Estados Unidos (na Pensilvânia, na Virgínia e na Carolina do Sul), um em Piedra Museo, na Argentina e vários no nordeste brasileiro, inclusive Morro Furado, com prováveis e assombrosos 20.000 anos de idade. Todos mais antigos que a cultura Clóvis, no Novo México. 
Essa guinada na história do estabelecimento do homem na América traçava também sua chegada vindo da Ásia no final do último período glacial (há 30.000 ou talvez 40.000 anos), quando o Antigo Continente e o Alasca eram ligados por espessa camada de gelo e o nível dos oceanos era bem mais baixo. Mas era a caminhada desse homem até o extremo sul do continente - marcha lenta, em que se sucederam gerações, quase de pólo a pólo da Terra - que mais espantava na odisséia contada agora em "The Settlement of Americas - a New Prehistory" ("O Estabelecimento do Homem nas Américas - Uma Nova Pré-história"), por seu estudioso mais respeitado, o arqueólogo Thomas D. Dillehay. 
Os rituais da morte 
A sociedade humana de Monte Verde desenvolveu uma tecnologia marinha, e procurou para morar o vale dos rios, ou os deltas, utilizando determinadas plantas como alimento e provavelmente remédio, e além disso criando animais, uma novidade para a época. Faziam instrumentos cortantes bifacetados, com quase o mesmo fio das facas modernas. 
Era espantoso pensar que o Homo sapiens, surgido há 100.000 anos na África e andarilho na Europa, no Oriente Médio e na Ásia, tivesse "descoberto a América" quase na metade desse tempo de grandes migrações, e explorado, afinal, todos os continentes do mundo. Monte Verde parece ter sido a colônia mais distante e mais ao sul dessa raça que tudo indica ter nascido em torno do Largo Tanganica, no continente africano. Não era sem motivo que as grandes religiões da humanidade afirmaram mais tarde, orgulhosas, que aquela humanidade inquieta e semeadora de culturas parecia ter uma missão a cumprir no mundo. 
Pouco se sabe da aparência física do homem que se instalou numa faixa de terra junto ao mar, quase no Pólo Sul, poucos milênios após seus antepassados terem pisado terras da América, no atual Alasca, quase no Pólo Norte. Pelos pedaços de crânios encontrados seu cérebro era parecido com o do homem moderno. De sua linguagem pouco se sabe, se é que teve alguma, mas os utensílios que fabricou, o enterro dos seus mortos, o cuidado com os feridos, os rituais da morte, a domesticação do cachorro, eram semelhantes aos dos seus contemporâneos na China. Sua chegada à América, lembra Thomas D. Dillehay, foi parte de uma explosão de conhecimentos que o Homo sapiens conheceu há cerca de 50.000 anos, e que continua até hoje. 
Sua descida para o extremo sul do continente americano, quase de um pólo a outro, foi na verdade uma sucessão de padrões modificados que contiveram diversas culturas locais, cada uma delas única em sua história e no seu modo de ser. Durante quase todo o século 20, acreditou-se que a cultura Clóvis (datada de 11.000 anos) era o começo e o motivador geral da presença humana no Novo Continente. Sabe-se hoje que o homem entrou há pelo menos 20.000 na América (mas pode ter chegado há 50.000, não há certeza a respeito), e porque sua migração foi muitas vezes rala e os territórios que percorreu gigantescos, ela deixou poucos vestígios, o que torna tão penoso seu levantamento. 
Dillehay tira algumas conclusões gerais dessa migração extraordinária. As mudanças climáticas foram decisivas no estabelecimento dos grupos humanos, e nas suas constantes mudanças. A passagem do período pleistoceno para o holoceno (entre 14.000 e 10.000 anos passados) tornou o continente muito seco. Rios minguavam, chuvas caíam raramente, a temperatura subia muito e a vegetação mudava depressa. Os humanos e o meio ambiente, diz o arqueólogo, são um só e único sistema, uma vez que interagem todo o tempo. Apesar daquelas mudanças formidáveis muitas comunidades permaneceram estáveis durante a deglaciação do fim da Era do Gelo. Para os problemas do calor e da aridez, esses povos encontraram soluções engenhosas do norte ao sul das Américas, mas diferentes nos dois hemisférios. 
Fé no futuro 
"The Settlement of the Americas - A New Prehistory" trata da diversidade humana nos primeiros tempos do Novo Mundo. Estuda de fato as variações culturais, sociais e biológicas dos primeiros povoadores da América do Sul. Nossos problemas para entender a diversidade cultural e humana no mundo são quase intransponíveis dado nosso condicionamento cultural. A diversidade primitiva reinante nessa parte do continente americano é essencial na abordagem das questões fundamentais da arqueologia - ou melhor, da ciência e do conhecimento humano. 
Escavações recentes no Peru e no Equador encontraram vestígios de pirâmides construídas há 6.000 anos. Anteriores às grandes pirâmides do Egito? Sinais de grandes platôs de irrigação para milho, feijões e abóboras foram encontrados em Oaxaca e Tamaulipas, no México, com idade calculada em 7.000 anos. Anteriores aos arrozais dos caldeus e dos chineses pré-históricos? Dillehay termina seu livro como começou, fazendo uma profissão de fé no futuro: "Acredito que o quadro que emerge disso tudo nos mostrará, na América, um dos episódios mais intricados, emocionantes e inspiradores da aventura humana neste planeta."

  THE SETTLEMENT OF THE AMERICAS: A NEW PREHISTORY, de Thomas D. Dillehay. Basic Books, 371 págs. 

http://site.cruzeironet.com.br/revista/paleontologia/paleo_03.shtml

Luiz Carlos Lisboa é escritor e jornalista 

 

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