OLHOS E CORES

 

                  

 

Elegendo Dr. Jekyll e empossando mr. Hyde

 


LUIS CARLOS LISBOA


 


Robert Louis Stevenson sabia das coisas. O homem pode ser tudo, menos um bloco sem divisões e rachaduras. Às vezes, o sujeito que acorda não é o mesmo que almoça na metade do dia, nem é aquele que se deita para repousar, à noite. E, no seu sono, pode ser ainda um quarto personagem quem sonha. Um partido político, coisa feita por homens e para homens, tem essa mesma natureza imponderável e múltipla dos homens. Por isso, no Brasil o Partido dos Trabalhadores, o popular PT, tem sido a causa - embora sem culpa ou má-fé, no caso - do medo dos investidores daqui e d'além-mar, do mau desempenho do candidato oficial nas prévias eleitorais e, principalmente, do pessimismo generalizado que volta e meia escurece o céu do País. É a causa, mas não é o culpado pela situação, porque ninguém é responsável pela natureza humana, tal como ela é. 
Naquele romance que o cinema rebatizou no Brasil como O Médico e o Monstro, Stevenson toma o tema da duplicidade humana e remete o leitor imaginativo para o risco imenso contido em pactos, associações e contratos de todo gênero, inclusive o matrimônio comum, as sociedades comerciais e os mandatos políticos e administrativos. O livro-filme é uma alegoria moral que se tornou um clássico do horror num século que adora ser lembrado de que as coisas podiam ser ainda bem piores. A questão é mais simples do que meia dúzia de frases podem explicar: todo homem contém em si o bem e o mal, ao contrário do que diz a ficção barata norte-americana, para quem no mundo há duas humanidades: os "good guys" e os "bad guys" (os caras legais e os outros). Desse fel o Brasil tomou em sua história contemporânea alguns bons tragos, como outros tantos países jovens, não lhe servindo de consolo a afirmação de Churchill segundo a qual "o democrático é o pior sistema de governo, excetuados todos os demais". 
Na segunda metade do século 20 tivemos uma fileira de homens públicos eleitos com um rosto e amanhecidos no poder com outro, além de um presidente que reinou feliz como ditador e se matou como presidente eleito, um que renunciou nos primeiros dias do seu mandato, outro que morreu antes de tomar posse e alguns - na verdade, muitos - que por um motivo qualquer deixaram o País resvalar no descrédito, na incompetência, no calote e na mesmice. Tal como na célebre história do inglês Stevenson, em que um médico dedicado se transforma em matador implacável quando a noite chega, o inconsciente coletivo do povo brasileiro está saturado da imagem do homem público que se apresenta como amável estadista ou legislador para, depois de pilhar-se no poder, revelar uma nova realidade. Esse é um padrão familiar a todos nós. 
Quem não experimentou ou nunca ouviu falar na felicidade amorosa que o tempo transformou em purgatório, ou no sócio da firma que de leal e cooperativo passou a soturno e inconfessável? Mau gênio, volubilidade, ambição, tudo é lembrado para explicar a transformação do diligente e sóbrio dr. Jekyll no debochado e sórdido mr. Hyde. Quando muito mais do que um casamento ou uma firma comercial estão em jogo, como é o caso da vida de uma nação inteira, é razoável que o medo se multiplique e as crises se instalem. Mas não vamos acusar ninguém por elas. Quando elas se mostram e se repetem em demasia, o eleitorado pode votar nervosamente, jogando o País num impasse que pode durar 20 anos. 
Os diagnósticos otimistas que só querem apagar incêndios, achando tudo normal e condizente com a democracia, são com freqüência apenas piedosos ou politicamente corretos. É inegável que o PT mudou o discurso, moderou os adjetivos, aparou as barbas e baixou os supercílios para inspirar confiança. 
Isso é coisa comum na relação humana desde que a espécie Homo se levantou nos dois pés. Chegar suavemente ao bisão, antes de espetá-lo com lanças de ponta de sílex, sempre foi habilidade, e não mais que isso. Uma vez fisgada a caça, pode-se fazer escarcéu à vontade. Não há nada de basicamente desonesto na voz doce da enfermeira que se aproxima da criança disfarçando uma seringa de injeção. Como também não há nada de mais em avisar o pequeno paciente de que vem ali uma fisgada. É o que o PT faz, é o que nós, jornalistas, fazemos. 
É mal secularmente aceito que uma campanha política tem um bocado de dever cívico e outro tanto de teatro. Não se trata de falsificar a realidade para alcançar o poder, mas sim de juntar, como antigamente, um pouco de mel ao remédio intragável que alguém precisa tomar. O PT não seria louco de dar uma dose fatal ao paciente. A gangorra das prévias eleitorais e as crises semanais no mercado financeiro, a recusa de ver o Brasil como bom investimento e as quedas-de-braço com o Banco Central são conseqüência inevitável da liberdade política e da economia de mercado. O Partido dos Trabalhadores precisa adaptar-se à hipótese, na qual parece ainda não acreditar, de vencer as eleições e ocupar, por quatro ou oito anos, o poder em Brasília. Se seus inimigos têm medo disso, o próprio partido não tem menos que pavor, coisa natural em quem realimenta um sonho há 30 anos. Esse temor nos outros aumentou não exatamente como resultado das prévias que favorecem o candidato petista, mas com a mudança repentina do seu discurso, feita sem gradação ou sutileza. É como pintar o cabelo depois de certa idade: ou a mudança é paulatina ou se corre o risco do ridículo. Além do mais, a coisa é velha: não foi Robert Louis Stevenson que inventou a duplicidade humana. 


O Estado de São Paulo - Terça-feira, 25 de junho de 2002.

Luiz Carlos Lisboa  é  jornalista e escritor

 

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