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OLHOS E CORES

 

 

 

 ‘monstro’ de Princeton

 


LUIS CARLOS LISBOA


 


Quando vi pela primeira vez Peter Singer lembrei-me imediatamente de tudo o que já tinha lido sobre o poder da propaganda e a força da difamação organizada. 
O homenzinho que estava ali sentado numa poltrona do Nassau Hall na universidade de Princeton examinando os horários de aulas, não era certamente o novo Hitler que alguns estudantes, pais de alunos e até professores afirmavam ser. 
Perguntei a uma garota de cabelos vermelhos que havia deixado a bicicleta na porta se era aquele o novo mestre que justificava o aborto e a eutanásia em casos extremos, e ela confirmou com um sorriso maroto: "É o próprio". 
A polícia de Princeton tinha prendido na véspera 14 pessoas que, em cadeiras de rodas, levavam cartazes e gritavam palavras de ordem exigindo que Singer fosse defender suas idéias em Buchenwald e Sobibor. 
Um organizador do movimento “Ainda Vivos” explicava aos jornalistas e curiosos que se aproximavam do burburinho que aquele seu protesto era contra a universidade, não contra Peter Singer que tinha o direito de pensar como quisesse. 
Mas então por que os cartazes falando no “monstro das câmaras de gás”? 
Naquele mesmo dia o professor inaugurou seu curso “Questões sobre a Vida e a Morte” para 23 estudantes. E suas palavras iniciais foram essas: “As idéias não são nunca perigosas, quando são livremente examinadas pela inteligência”. 
Um professor de história que assistiu comigo à primeira aula comentou em voz baixa que a verdade da frase estava toda contida no advérbio livremente. 
Esse era um problema humano, pensei, mais do que americano ou brasileiro: não somos livres nem examinamos bastante aquilo que o mundo, ou a raiva do mundo, nos impinge. 
Temos pressa de concluir, de ter respostas definitivas e conclusões acabadas. Essa pressa é a ruína da compreensão e da convivência humana. O professor Peter Singer continuou falando de suas idéias nas aulas seguintes, e o monstro nazista foi substituído pelo pensador curioso no imaginário estudantil. 
O aborto que ele defendia era para os casos que põem em risco a vida das mães, e a eutanásia para as situações em que já tinha ocorrido há muito a morte cerebral. 
No mais, ele era um cara como todos nós, que no geral gostamos de pensar em voz alta, e também de ouvir idéias novas, inclusive daqueles que pensam diferente de nós. 


www.jt.estadao.com.br/noticias/99/mes/dia/clisboa.html

Lisboa, Luiz Carlos é jornalista e escritor, autor de ‘A Arte de Desaprender’. 

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