|
MEGALÓPOLE
As grandes cidades retratam , com fidelidade desconcertante, o mundo interior do homem , o caos e a divisão que ele esconde sob diferentes disfarces, e tenta justificar das maneiras mais hábeis. O feio aglomerado de cimento e aço reflete seu individualismo feroz e seu imediatismo cego. Os sinais de beleza encontrados nas grandes metrópoles -- coisa rara como um diamante `a flor da tera -- resultam da presença de recantos , na alma humana , em que se acumulam as qualidades que fazem do homo faber um ser incomparavelmente distinto de todas as demais formas de vida no planeta. A obra encerra toda a potencialidade do artista , seu egoísmo demoníaco e seu despojamento angelical. No século da competição desenfreada e da doutrinação sistemática , o primeiro tem ponderado visivelmente sobre o segundo, mas não tem feito o bastante para matá-lo. Por isso , talvez, ainda há beleza - escondida ,eclipsada , quase esquecida -- no formigueiro onde o homem mora , trabalha, nasce e morre.
Se a harmonia e a beleza pudessem ser medidas e cronometradas , seria possível aprende-las na escola ou adquirir uma quota delas para exibir. Infelizmente , elas existem numa dimensão abstrata do mundo e dentro do homem em quantidades imponderáveis , não podendo ser arquivadas ou acumuladas em conta-corrente. Existem , quando existem, e é tudo a seu respeito. O que preside a construção da morada é , geralmente , muito menos que isso , não passando quase sempre do desejo guloso de fazer o mínimo em troca do máximo. E toda parte do mundo -- não importa o sistema econômico dominante , tenhamos consciência disso -- a dificuldade é a mesma , porque por toda parte prevalece a chamada praticidade , essa forma de arrogância que se disfarça de ocupaçãi e que só leva em consideração os resultados. Ora, a beleza e a harmonia são frutos espontâneos ,nada tendo a ver com essa coisa conhecida como " espírito prático" , que só se interessa pelos efeitos e faz, de todas as situações , meras oportunidades . O artista se gratifica com a obra de arte - tirando dela prazer , enquanto a executa. Não com a sua paga. Não há nada de pragmático na criatividade, embora o que vem depois dela pode ser tudo. Durante a execução , a obra e seu criador são uma só e a mesma coisa. Só assim o verdadeiro artista consegue transformar matéria inerte em beleza, tenha consciência disso ou não.
As cidades grandes são o retrato vivo da improvisação , bem como da inconstância infantil que sobrevive no homem adulto . O modismo , a mania da sofisticação , o gosto pela imitação, a procura desesperada de originalidade , tudo leva a uma desigualdade doentia e conflitante de formas. Na areia de uma praia essa desagradável diversidade seria levada pelo vento. Em cimento e aço o grotesco ganha duração, atestadando por longo tempo a feiúra interior do homem. Esse feio no mundo é compensado por um ou outro momento de simplicidade e equilíbrio , vestígios da beleza interior que sobrevive nuns poucos. O conceito de funcionalidade, se desprovido de beleza é uma caricatura. Se a cidade grande, a megalópole, é quase sempre um monumento à banalidade e ao mau gosto humanos, ela é também um atestado do hábito humano de viver vegetativamente , sem aquele mínimo de autoconhecimento que redime o homem e traz de volta a ordem - - uma ordem natural , não imposta , que emana de dentro para fora como uma fogueira irradia luz na escuridão . As normas , o cálculo matemático , são necessários mas se transformam em elefantes brancos se não se fazem acompanhar daquela coisa aparentemente vaga mas indispensável que se pode chamar de sensibilidade. Ela existe e está a serviço da harmonia , da beleza , do equilíbrio . Não pode ser pesada , avaliada , encomendada , nem sequer devidamente remunerada -- porque nada tem que se relacione com as quantias certas da contabilidade.
O habitante das grandes metrópoles sabe que -- embora não saiba por que nem como -- habita um lugar feio . Os prédios que se amontoam em volta dele , suas fachadas frias e sujas, as ruas sombrias , o ruído e a impureza do ar , transmitem-lhe a certeza de que tudo aquilo ali é inegavelmente desumano. Se existe um lugar natural para o homem , esse lugar não é o horrendo agulheiro que ele próprio -- como indivíduo e como entidade coletiva --
construiu aos poucos, sem o instinto da formiga e do cupim, que podiam ser seus metres se tivessem alma. A mente individual humana rejeita tudo aquilo que vê na urbs , sua mente coletiva é a própria autora da monstruosidade . Como ser gregário , ele não quer se afastar do imenso aglomerado, e se sente perdido e infeliz nos ermos e no mato, de onde um dia saiu. O homem nasceu para compartilhar seu destino com os demais , e o próprio eremita , depois de abastecidas suas baterias na solidão , retorna ao convívio dos irmãos. Nostálgico da humanidade, que no seu gregarismo fabricou a cidade horrenda. É no reencontro, logo `a primeira vista , que o indivíduo se dá conta da irremovível indignidade da grande metrópole . A convivência com os semelhantes é um apelo muito forte e o cosmopolitismo vence a repugnância pelo ambiente .O homem permanece na megalópole, malgré tout.
A longo prazo , a solução seria uma tomada de consciência no sentido de que a cidade feia e brutal é um retrato bastante fiel do mundo interior do homem -- de cada homem e de todos os homens -- , do caos e do fracionamento que existe na alma humana. Essa revelação se completa com a constatação de que existe , na cidade e nos seus habitantes também beleza e harmonia - e que essas áreas podem ser desenvolvidas através da compreensão e do conhecimento. Se for mantida a noção conformista de que nada se pode fazer , porque as coisas sempre foram e serão sempre assim, o feio e o grotesco acabarão por esmagar definitivamente os resquícios de leveza , equilíbrio e naturalidade que teimam em existir nos grandes núcleos urbanos do mundo. Será a vitória do mau gosto e da ganância . A opção, ainda uma vez e como sempre, cabe a cada homem.
|