Lamentando que a "velha Máfia está morta" e falando de alguns assuntos que não conhece, Mário Puzo, autor de O Poderoso Chefão, errou a mão em seu último romance, Omertá, saído recentemente nos Estados Unidos
Considerado um épico americano ao lado de E o Vento Levou..., o filme O Poderoso Chefão (The Godfather) ajudou a puxar o livro, que, por sua vez ajudou, a puxar o filme O Poderoso Chefão - Parte II, lançado dois anos depois do primeiro. Quem começou tudo isso foi Mario Puzo, filho de um casal de imigrantes da região de Nápoles, na Itália. Mario estudou por puro prazer os hábitos da Máfia ítalo-americana porque conhecia de vista e de conversa alguns dos seus "capi" no West Side de Nova York. Mario Puzo morreu há exatamente um ano, em Long Island, e deixou na sua mesa de trabalho os originais prontos do último romance, com a revisão já feita e todas as páginas rubricadas.
Omertá acaba de sair. É uma evidente despedida, ainda que o autor estivesse vivo. A história entrecortada de lamentações sobre o bom tempo que acabou, e que tinha um sabor todo particular, tem um clima de último ato que atrapalha seu desenvolvimento. "A velha Máfia morreu", suspira o autor pensando talvez na fragilidade da vida. "Os grandes chefes cumpriram sua tarefa e se misturaram graciosamente à sociedade em volta, como os grandes criminosos sempre fizeram. Aqueles que ainda teimam em continuar no ramo são uns pobres coitados, bandidos de segunda classe e uns fascínoras impotentes." A série "Os Sopranos", da televisão americana, tratou do assunto de modo mais convincente, mostrando os remanescentes da Máfia, secção de Nova Jérsei, no auge da sua decadência, comandados por gordos canastrões que descontentes com seu reduzido poder atual de matar, agora assassinam principalmente a língua que falam.
O antigo código de silêncio, a "omertá", que hoje só é levada a sério pela conservadora Máfia siciliana, ou em sentido figurado no mundo dos negócios, na América foi dissolvida na mesma água da lavagem de dinheiro que durante tantos anos a bandidagem fez nas bolsas de Nova York e de Chicago. No romance, o chefão Aprile decide se aposentar, e para isso divide seu império com inimigos e amigos fiéis. Esse novo Rei Lear não se dá muito mal. Seus filhos estão a salvo, porque o dinheiro com que lidam já está acima de qualquer suspeita. Agora sim, Aprile entende o moto segundo o qual o crime não compensa. E um dos herdeiros, que tinha de ser um "sangue quente" siciliano, descobre uma vasta conspiração que não convence os leitores (um crítico chama-a de "gênero Oliver Stone"), mas convenceu todo o resto do bando e os editores do livro.
Segredos nucleares e espertezas de banqueiros internacionais entram na conspiração, mas é exatamente isso, falar de alguma coisa que não se conhece, que soa falso nessa última obra de Mario Puzo. Don Aprile e seu protegido Astorre, do jeito que o autor os apresenta, não sustentariam um novo filme da Máfia se Francis Ford Coppola ainda estivesse a fim. Esses personagens são apenas fantasmas de bandidos, isso que o governador George W. Bush chamaria talvez de "compassionate bandits", e jamais "capi" de verdade. Quem Omertá afinal beneficia mais que os herdeiros de Aprile é Don Corleone, melhor no filme, na saudosa personificação de Marlon Brando, do que no livro propriamente dito. Aquele sim, era o "chefão" dos sonhos de todos nós.