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Alice Robinson não é a Mrs. Robinson do filme A Primeira Noite de um Homem, mas, não sei por que, associo uma a outra. Somos amigos e vizinhos de condomínio, e todas as tardes eu a vejo voltando para casa com dois ou três vídeos antigos que vai saborear até de madrugada, comendo pipoca. Um fim de semana desses
ela me convidou para fazermos um safári cultural em Manhattan com o título Hollywood em Nova York, visitando os lugares onde foram feitos filmes famosos das últimas três décadas.
Mrs. Robinson me perguntou se eu gostaria de fazer um outro percurso passando por locais de filmes das últimas cinco décadas, mas não aceitei a sugestão, porque sou alérgico a mofo e a poeira. Começamos pelo imenso Hotel St. Regis, com seus 314 quartos, em cujo King Cole Bar foi feito um filme recente, O Clube das Primeiras Damas, que nunca vi. Em seguida visitamos o Penninsula Hotel, que no filme Perdidos na Noite tem o nome ficcional de Barclay. No Russia Tean Room me lembrei logo de Dustin Hoffman travestido de mulher em Tootsie, mas não chegamos a sentar, porque o cardápio era salgado.
Chegamos então ao célebre bar do Algonquin, na Rua 44, que pouco tem a ver com cinema mas tem tudo com literatura. Já tinha estado lá imaginando um coquetel com Dorothy Parker, Robert Benchley ou Alexandre Woollcott, nos anos 20. Desta vez minha amiga me fez viajar pelo mundo do cinema. Ali fora filmado Mrs. Parker e o Círculo Vicioso, dirigido por Alan Rudolph - alguém se lembra? Nem eu.
De passagem pela floreira da Macy's, Alice me tocou no braço para lembrar de Rosalind Russell comprando rosas em Possuída pelo Amor. E por falar em amor, chegamos ao Empire State Building, onde foi rodado Tarde Demais para Esquecer, que uma pessoa muito querida me faz sempre recordar.
O ônibus vermelho nos deixou então na porta do Club 21, na Rua 52. Por que ali? Meu Deus, eu não era mesmo cinéfilo que prestasse. Como esquecer de Burt Lancaster e Michelle Pfeiffer em Doce Liberdade? Ou de Um Belo Dia, não me lembro mais com quem? A essa altura quis descansar um pouco, deixar os filmes de lado e viver a vida de todo dia, com direito a um bom vinho. Olhei em volta e vi de longe o Plaza, onde o Oak Bar costuma acolher generosamente as pessoas exaustas. Sentamos, falamos do tempo, comentei com Alice o último romance de Phillip Roth e relaxamos. De repente, minha amiga olhou fixamente o fundo de um corredor onde havia uma saída lateral para a Rua 59.
"Reconhece a sala?", perguntou. Torci o pescoço, não reconheci. "Foi ali que se encontraram Barbara Streisand e Robert Redford, em Nosso Amor de Ontem".
Confirmei com a cabeça e me ausentei em pensamento.
http://www.jt.estadao.com.br/editorias/2000/07/02/var051.html
Luiz Carlos Lisboa, jornalista e escritor, é autor de Guerra Santa do Gato
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