OLHOS E CORES

 

                  

 

UMA CASA EM HOPEWEL

 


LUIS CARLOS LISBOA


 



Domingo de manhã bem cedo, peguei a estrada para o norte a fim de conhecer Hopewell. O que me levava naquele rumo era uma nota publicada no New York Times, não uma informação turística ou imobiliária, mas um simples necrológio. Hopewell, Hopewell, foi ali a 20 quilômetros de minha casa em Princeton, e há 70 anos no passado, que uma mulher que sempre admirei viveu o maior drama de sua vida.
Em Nova Jérsei não há montanhas. A verdade é que não há sequer uma mísera colina para descansar os olhos exaustos de infinitos horizontes. Mas há grandes e velhos celeiros que fazem pensar em antigos filmes e nos romances de John Steinbeck. Encontrei Hopewell escondida atrás de um campo seco e junto a um bosque assassinado pelo inverno. Deserta, como as cidades assombradas do oeste americano.
A casa era aquela, a janela era a mesma. Parei o carro e olhei em volta, imaginando Bruno Haumptman descendo furtivamente por uma escada, levando uma criança nos braços. Às 22 h, enquanto Charles Lindberg e Anne Morrow, sua mulher, dormiam. No outro dia, a lembrança do "casal perfeito", da dupla belíssima que voava solitária pelo mundo afora.
As negociações com o seqüestrador duraram semanas, talvez meses. Anne Morrow chegou a pensar que o marido Charles não estava interessado na salvação do filho, tão apático ele parecia. O fato é que a criança fora morta no dia mesmo do seqüestro. O suspeito Haumptmann morreu na cadeira elétrica jurando inocência. Depois o tempo passou e o casal se recompôs, eles que tinham tanta coisa em comum - pelo menos os infinitos detalhes da arte de voar. E diferente do marido, Anne Morrow gostava de escrever, amava poesia e cultivava flores.
Um dia ela conhece Antoine de Saint-Exupéry, como Lindbergh um gigante que gostava de voar. Mas as semelhanças dos dois acabavam aí. Saint-Ex era poeta, sonhador, galante com as mulheres. Como boa americana, ela era direta e objetiva. Assim, propôs casamento, ou coisa parecida, ao poeta-aviador francês. Com um cálice de Pernaud na mão e um cigarro na outra, ele explicou que não dava, que já tinha uma mulher. Tinha duas, aliás, a esposa e uma amante, e era feliz com ambas. Quem sabia no futuro...
Anne Morrow não se abalou nem um pouco e se bastou com uma ativa correspondência que manteve com Saint-Ex, até a morte do escritor-piloto no último ano da guerra. Quem morreu por sua vez um pouco mais tarde foi Charles Lindbergh, que chegou a ver o sucesso de Anne como escritora, com seu Dádiva do Mar (Gift From the Sea, 1955), uma beleza de livro.
Fiquei ali olhando a velha casa, e dando a volta a ela vi pela janela aberta do segundo andar, as traves do teto do antigo quarto do casal. E me lembrei da foto que os jornais haviam publicado na véspera, e que me levara até Hopewell naquela manhã. Os dois rostos de beleza grega mostrando um leve sorriso, que não sei se se manteve depois das perdas, do desencanto, da velhice e, afinal, da morte.



Domingo, 25 de fevereiro de 2001 


Luiz Carlos Lisboa, jornalista e escritor, é autor de `Pequeno Guia da Literatura Universal'

LIVRO DE VISITAS

Assinar         LER  

Retorna ao Indice

04122002ldbm

Hosted by www.Geocities.ws

1