OLHOS E CORES

 

 

 

A MENOS SANTA DAS GUERRAS

 


LUIS CARLOS LISBOA


 


O grande problema do presidente Bush, a pedra imensa no seu caminho, não é nenhum deslize racista da sua gente republicana, nem o crescimento colossal do orçamento militar do país que ameaça os programas assistenciais do seu governo, nem mesmo o atual perigo de o seu país abrir duas frentes de guerra no mundo, mas sim sua indiferença pelo muito que ignora e, mais especificamente, o seu desconhecimento da História que nenhuma assessoria competente consegue suprir. Quem se der ao trabalho de ler o que o atual presidente dos Estados Unidos falou e escreveu em sua vida pública, até o momento, há de experimentar o desconforto de quem descobre que o avião em que viaja está sendo pilotado por uma criança. 
As imagens que Bush utiliza nos seus improvisos e em raros momentos de fala com populares, distante do teleprompter e com a prodigiosa memória desligada, situam suas paixões reais no beisebol e suas preocupações no tempo da guerra fria. Os defensores e amigos texanos de Bush afirmam que ele é um homem bom, referido na antiga crônica social texana como "o rapaz dos Bush", talvez mais um Forest Gump na maturidade do que um Abraham Lincoln em formação. Mas esses sulistas têm aquela simpatia caipira que no passado ajudou muito Lyndon Johnson e Jimmy Carter e hoje abre as portas para o atual líder da maioria republicana, Bill Frist, assim como favoreceu por muito tempo o destronado senador Trent Lott. Hollywood juntaria uma palha nos seus lábios, um chapéu de abas viradas para cima e um som ambiente de banjo, para torná-los irresistíveis. 
Mas, tal como no caso de Johnson e Carter, o arrogante e belicoso não se diferencia do modesto e pacifista, quando eles se apresentam como "homens comuns" que os norte-americanos veneram como modelo. Gary Cooper fez há muitas décadas um "sargento York" desse tipo, o homem autêntico que todo mundo quer ter como pai ou presidente e que faz chorar e rir quase ao mesmo tempo aqueles que o ouvem. Mas uma nação com as responsabilidades dos Estados Unidos, capaz de fazer a guerra e a paz quando lhe aprouver, precisa ter no governo alguém mais do que um grande sujeito. Na sua grande maioria, os norte-americanos são condicionados demais - intoxicados talvez pela mídia que criaram, entre violenta e sonhadora - para entender que essas miragens que se tornaram pura realidade são mais perigosas do que apenas fascinantes. 
Como na história do mentiroso que acaba acreditando nas próprias mentiras. 
Bush foi mal eleito, mas foi eleito. Ele é no momento um "presidente em tempo de guerra", nos Estados Unidos uma entidade intocável que será sempre apoiada por um eleitorado que obedece à convocação eleitoral como se ela fosse convocação militar. Pode ser que o centro estratégico republicano que hoje decide tudo, desde os discursos do presidente até a data da invasão de um país do "eixo do mal", resolva prolongar esse estado de guerra até as eleições de 2004 ou, quem sabe, mais além, porque Bush já encontrou um sucessor, que poderá ficar na Casa Branca até 2012, no atual líder da maioria no Senado, o senador e cirurgião Bill Frist, um homem simples do Tennessee, de fala arrastada e famoso pela franqueza pessoal, como Lincoln. 
Ou como Forrest Gump, ainda não se sabe. Embora não seja texano, porque nada no mundo é perfeito, um candidato bem ao gosto da dinastia Bush e dos patriotas de Dallas. 
Uma verdade que os republicanos não escondem é a necessidade de um clima de calamidade e tensão, para manter o atual partido majoritário no poder. Os atentados terroristas de setembro de 2001 ocorreram no momento exato em que o governo Bush começava a desgastar-se, assim como a morte de Kennedy ocorreu no Texas e levou um texano à Presidência, na época em que os jornais e os políticos daquele Estado norte-americano criticavam a debilidade do então presidente diante dos russos e do vizinho atrevido Fidel Castro. 
Nenhuma relação de causa e efeito, naturalmente, mesmo porque estamos todos enjoados de teorias conspiratórias. 
Mas a guerra informal de Osama bin Laden contra os Estados Unidos foi, de fato, em todo o seu horror absurdo, a liberadora dos sonhos da ala direita do Partido Republicano para a "grande cruzada", a mesma de que falou o presidente Bush logo em seguida ao ataque, sem se lembrar do efeito que essa palavra produz nos islâmicos desde o tempo da primeira tomada de Jerusalém pelos cristãos. O processo culminou com as afirmações do secretário de Defesa, Rumsfeld, de que seu país pode sustentar sem problema duas guerras ao mesmo tempo - como se um conflito fosse tragédia pequena para as populações civis e os inocentes que são sacrificados nas frentes de combate. 
A santidade das guerras, esse sentido de missão, é só um modo de justificar um impulso que nasce na soma do medo com o desejo de dominar. É a fábula do lobo e do cordeiro, falem eles em árabe ou em inglês. 

Luiz Carlos Lisboa, jornalista e escritor, é autor do romance A Guerra Santa do Gato 

 

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