OLHOS E CORES

 

 

 

 

O QUE HÁ DE NOVO NA NOVA GUERRA

 


LUIS CARLOS LISBOA


 



O cerco e a próxima destruição dos taleban no Afeganistão vão servir de modelo e esquema didático não somente das guerras futuras, como provavelmente de guia das manobras políticas e ideológicas na primeira metade do século 21. Aquilo que Maquiavel e Clausewitz fizeram no passado, Osama bin Laden e o Pentágono norte-americano estão ultimando agora, em cavernas ou escritórios refrigerados, para aplicar, por enquanto, no cenário agreste de um país que no passado se especializou em massacrar diplomatas ingleses, quando não conseguia vencer os soldados da Coroa britânica. O novo xadrez da guerra tem agora um tabuleiro diferente, onde se movimentam estranhas peças, com valores novos. É um novo jogo? Não, é ainda a mesma velha questão do domínio da alma humana, da imposição por outro de um modo de vida e de uma visão particular do universo. 
O século 20 teve, na metade do seu curso, a certeza orgulhosa de que as guerras religiosas eram coisa do passado, e de que as disputas ideológicas eram um passo à frente na racionalização da irracionalidade geral das guerras. Os fatos se encarregaram de mostrar que o sectarismo político era igual ao dogmatismo religioso, ambos viseiras que obrigam o homem a olhar numa única direção. 
As longas e sangrentas lutas religiosas que moldaram a história da Europa e do Oriente Médio foram travadas sempre em nome dos mais altos interesses humanos, e justificadas com raciocínios e discursos salvacionistas. Por isso o pensamento dogmático parece tão confiante e determinado quando comete seus crimes. 
O resultado disso que interessa mais de perto à humanidade é o conjunto de características do novo conflito, que, por um lado, afeta mais a vida num mundo cada vez mais globalizado, mas, por outro, parece tão intrincado aos olhos do homem comum que ele é acometido pela tentação de generalizar e de fazer humor com a tragédia. Antigas simpatias e aversões são mobilizadas na alma humana, emergindo, em geral, de forma impulsiva e obscura, para tomar posição e cerrar fileiras nos campos da contenda. As posições de guerras anteriores, totalmente desligadas da presente, têm condicionado as novas escolhas. O coração que desconhece as próprias razões precisa, desesperadamente, de um engajamento que o justifique no mundo, e logo no primeiro momento pensa identificar sua trincheira natural. 
Assim, o atual cerco e a provável próxima destruição dos taleban no Afeganistão deve modelar as manobras táticas e ideológicas das futuras guerras no mundo, tal como a guerra civil na Espanha definiu os campos e os métodos da 2.ª Guerra Mundial e o longo conflito no Vietnã instruiu os Estados Unidos sobre os riscos de tentar o combate convencional em pântanos geográficos, ideológicos e étnicos, onde o mais forte está fadado a sucumbir. A nova guerra que será combatida no futuro, sejam agressores ou agredidos, teve no passado recente um exemplo vivo nos comandos aliados que fustigaram a Europa sob dominação nazista. O antigo sistema de ataque e fuga que o homem aprendeu com os animais - ou quando ainda era animal, segundo Darwin - volta hoje com uma sofisticação não sonhada nem há meio século, ao tempo da invasão temível da praia de Omaha, na Normandia. 
O inimigo agora é mais poderoso do que então, porque o terreno em que se multiplica é poroso e destituído de fronteiras reais. Os que desejam dizimá-lo têm de lutar de novo como os gregos em Tróia, de templo em templo, de coluna em coluna, e prevenir-se contra infiltrações miúdas e indistinguíveis como as das bactérias. Ao contrário de certo mito moderno, o homem não se tornou pior do que sempre foi. Apenas sua maldade se fez mais minuciosa devido à competição. Esses aliados sombrios do mal - o contágio e o aprimoramento - são comuns a todos os campos da nova guerra. Desde a fabricação da bomba nuclear, tem-se acreditado que o distanciamento do homem em relação à lança, à flecha e ao machado, substituídos pelo gatilho e pelo botão, tornaram o guerreiro ainda mais indiferente aos estragos que faz no próximo, e, portanto, mais destrutivo. 
Difícil saber até que ponto isso é verdade. Não há que duvidar, no entanto, de que a nova guerra de comandos sofisticados vai devolver o guerreiro à visão do sangue e da morte lenta do inimigo, bem como ao encontro do cotidiano desse adversário, que, assemelhando-se um pouco ao de todos nós, consegue nos lembrar vagamente da família que um dia todos fomos. Essa reaproximação das conseqüências de suas decisões e escolhas, um antigo apelo de todas as religiões, pode reintroduzir na alma humana, seja a das vítimas ou a dos algozes, a virtude lamentavelmente esquecida da compaixão. 


Lisboa, Luiz Carlos O Estado de São Paulo, 13 de novembro de 2001

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