GAY TALESE

 


LUIS CARLOS LISBOA


 

"Quando uma coleção de artigos assinados por Gay Talese na revista Esquire apareceu em livro, Tom Wolfe disse que um novo gênero literário havia aparecido. Quando seu romance mais recente foi lançado em Nova York pela Editora Knopf, Norman Mailer afirmou que ele era um narrador incomum. Agora Talese realiza um antigo desejo de conhecer o Brasil, e está chegando a seu modo, sem pressa, num navio que vem parando pelo caminho. O escritor que um dia mudou o conceito de reportagem jornalística no mundo diz, entre outras coisas, que não faz jornalismo, mas sim história, na entrevista que deu em Nova York ao Estado.

Estado - O que o senhor primeiro fez na imprensa, verdadeiros ensaios sobre vidas obscuras numa cidade como Nova York, a partir da convivência e da observação de pessoas comuns, serviria depois como modelo para uma nova modalidade de jornalismo. Esses primeiros trabalhos foram ensaios sociais?

Gay Talese - Sim. Por minha personalidade e minha história pessoal eu estava em condições de fazer, na época, uma boa e isenta avaliação das pessoas comuns. Minha família era comum, gente de minha raiz italiana. As pessoas sobre as quais eu escrevia e ainda escrevo não são conhecidas dos historiadores. No entanto, fazem história. É difícil escrever sobre elas porque quase não há registros a seu respeito. Nenhum jornal se interessa por elas.

Estado - Seu livro Fame and obscurity, traduzido no Brasil com o título Aos olhos da multidão, foi considerado um guia prático do que se chamou Novo Jornalismo, e designado como uma abordagem jornalística feita por um observador ‘de dentro’.

Talese - Fui considerado o criador do que se tornou conhecido como Novo Jornalismo. Essa expressão não é minha e não gosto dela. O termo é suspeito. O trabalho jornalístico comum não é feito com o mesmo cuidado com que fiz minha obra. Tento escrever histórias sobre pessoas comuns, mesmo daqueles considerados vilões. Sei que são bandidos, assassinos, mas quero, mais que tudo, saber como eles vêem o mundo.

Estado - Usa sempre os nomes reais das pessoas que descreve?

Talese - Sempre, porque creio que se não fizer isso o leitor nunca saberá se acredita naquilo que lê. Muita gente muda os nomes próprios, explicando o porquê. Quando verifico que isso ocorreu, não leio mais porque já não sei no que acreditar. Os jornais cometem o erro de colher uma opinião e explicar que a fonte não quis identificar-se. Informação off the record é irresponsável, é quase ficção. As pessoas que descrevo são gente de verdade, que responde pelo que diz.

Estado - E quando as palavras e os gestos dissimulam a verdade?

Talese - Às vezes, as pessoas dizem-me o que penso, mas não as cito, porque sei a verdadeira razão pela qual estão dizendo aquilo. Se uso um gravador, a tendência é usar as palavras que estão na fita. Se fizer a citação literal do que elas dizem, estarei renunciando aos recursos literários de que disponho como escritor e tratando as pessoas como personagens, como na ficção. Estarei limitando-me às palavras do gravador.

Estado - Como vê, hoje, a imprensa do seu país?

Talese - Sem dúvida a reportagem, hoje, é melhor do que era no meu tempo de jornal. Os jornalistas agora estão mais bem preparados do que então. De 1955 a 1965, vivi no meio da imprensa de Nova York e sei quanto as coisas eram improvisadas. Agora, a tecnologia - o gravador, o noticiário na televisão - mudou muita coisa, nem sempre para melhor. O gravador suprimiu o contato com a palavra viva e pôs o repórter entre quatro paredes, em prejuízo do contato pessoal e do conseqüente testemunho do gesto, das emoções na fisionomia, a ‘cultura’ do entrevistado e o seu meio ambiente. Há alguma coisa morta na palavra apenas gravada e é certo que ali não está a realidade que devia ser capturada. Se você lê Aos olhos da multidão, os perfis que estão lá - Frank Sinatra, Joe Di Maggio, Peter O'Toole - são diferentes do que os jornais e revistas apresentam hoje. Acompanhei Peter O'Toole, por exemplo, a um bar, depois a um restaurante, caminhei com ele num parque, vi quando falou com alguém na rua, passamos horas juntos. O mundo apenas falado não tem lirismo e às vezes não tem verdade. Na maioria absoluta dos casos, o que importa não é o que alguém diz de si mesmo, mas todo um clima em torno da pessoa, do mundo em que ela vive. O escritor, seja um homem da mídia ou um ensaísta social, precisa antes de tudo entrosar-se, mergulhar no meio que quer conhecer, para escrever sobre ele. O jornal pode ser feito assim, mas concordo que não é fácil fazê-lo assim.

Estado - Um jornalista precisa ser um escritor, então.

Talese - Agora os jornalistas dominam melhor a própria língua, têm cursos universitários, são informados sobre campos diferentes daqueles sobre os quais escrevem. Mas são vítimas da tecnologia, de artefatos como o gravador e a televisão, esta obrigando o profissional a apressar-se para concorrer com as suas reportagens instantâneas, não lhe dando tempo de pesquisar ou meditar sobre seu tema e seguramente o dissuadindo de conviver com o que deseja apurar. Finalmente, impedindo-o com o nervosismo típico da premência de tempo de aprimorar a expressão. Mas The New York Times é sem dúvida superior ao que já foi no meu tempo. Por outro lado, as pessoas agora são mais punitivas e menos generosas e discretas em relação às outras e ao mundo. Hoje, nos jornais, o comportamento sexual de uma pessoa é com freqüência determinante do tratamento que ela vai receber no noticiário.

Estado - Isso é mais típico da mídia americana do que da de outros países?

Talese - Sim. Veja o caso de Mitterrand, que na França não foi nunca julgado e muito menos crucificado pela opinião pública por sua vida pessoal, familiar e afetiva. Esse é um comportamento britânico que nós herdamos na América."

 

"Gay Talese dedica-se à literatura da realidade", entrevista feita por Luiz Carlos Lisboa, O Estado de S.Paulo, 17/1/98.

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/aspas/ent050298b.htm


Luiz Carlos Lisboa é escritor e jornalista 

 

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