|
"Quando uma coleção de artigos
assinados por Gay Talese na revista Esquire apareceu em livro,
Tom Wolfe disse que um novo gênero literário havia aparecido. Quando
seu romance mais recente foi lançado em Nova York pela Editora Knopf,
Norman Mailer afirmou que ele era um narrador incomum. Agora Talese
realiza um antigo desejo de conhecer o Brasil, e está chegando a seu
modo, sem pressa, num navio que vem parando pelo caminho. O escritor que
um dia mudou o conceito de reportagem jornalística no mundo diz, entre
outras coisas, que não faz jornalismo, mas sim história, na entrevista
que deu em Nova York ao Estado.
Estado - O que o senhor primeiro
fez na imprensa, verdadeiros ensaios sobre vidas obscuras numa cidade
como Nova York, a partir da convivência e da observação de pessoas
comuns, serviria depois como modelo para uma nova modalidade de
jornalismo. Esses primeiros trabalhos foram ensaios sociais?
Gay Talese - Sim. Por minha
personalidade e minha história pessoal eu estava em condições de
fazer, na época, uma boa e isenta avaliação das pessoas comuns. Minha
família era comum, gente de minha raiz italiana. As pessoas sobre as
quais eu escrevia e ainda escrevo não são conhecidas dos
historiadores. No entanto, fazem história. É difícil escrever sobre
elas porque quase não há registros a seu respeito. Nenhum jornal se
interessa por elas.
Estado - Seu livro Fame and
obscurity, traduzido no Brasil com o título Aos olhos da multidão,
foi considerado um guia prático do que se chamou Novo Jornalismo, e
designado como uma abordagem jornalística feita por um observador ‘de
dentro’.
Talese - Fui considerado o criador
do que se tornou conhecido como Novo Jornalismo. Essa expressão não é
minha e não gosto dela. O termo é suspeito. O trabalho jornalístico
comum não é feito com o mesmo cuidado com que fiz minha obra. Tento
escrever histórias sobre pessoas comuns, mesmo daqueles considerados
vilões. Sei que são bandidos, assassinos, mas quero, mais que tudo,
saber como eles vêem o mundo.
Estado - Usa sempre os nomes
reais das pessoas que descreve?
Talese - Sempre, porque creio que
se não fizer isso o leitor nunca saberá se acredita naquilo que lê.
Muita gente muda os nomes próprios, explicando o porquê. Quando
verifico que isso ocorreu, não leio mais porque já não sei no que
acreditar. Os jornais cometem o erro de colher uma opinião e explicar
que a fonte não quis identificar-se. Informação off the record é
irresponsável, é quase ficção. As pessoas que descrevo são gente de
verdade, que responde pelo que diz.
Estado - E quando as palavras e
os gestos dissimulam a verdade?
Talese - Às vezes, as pessoas
dizem-me o que penso, mas não as cito, porque sei a verdadeira razão
pela qual estão dizendo aquilo. Se uso um gravador, a tendência é
usar as palavras que estão na fita. Se fizer a citação literal do que
elas dizem, estarei renunciando aos recursos literários de que disponho
como escritor e tratando as pessoas como personagens, como na ficção.
Estarei limitando-me às palavras do gravador.
Estado - Como vê, hoje, a
imprensa do seu país?
Talese - Sem dúvida a reportagem,
hoje, é melhor do que era no meu tempo de jornal. Os jornalistas agora
estão mais bem preparados do que então. De 1955 a 1965, vivi no meio
da imprensa de Nova York e sei quanto as coisas eram improvisadas.
Agora, a tecnologia - o gravador, o noticiário na televisão - mudou
muita coisa, nem sempre para melhor. O gravador suprimiu o contato com a
palavra viva e pôs o repórter entre quatro paredes, em prejuízo do
contato pessoal e do conseqüente testemunho do gesto, das emoções na
fisionomia, a ‘cultura’ do entrevistado e o seu meio ambiente. Há
alguma coisa morta na palavra apenas gravada e é certo que ali não está
a realidade que devia ser capturada. Se você lê Aos olhos da multidão,
os perfis que estão lá - Frank Sinatra, Joe Di Maggio, Peter O'Toole -
são diferentes do que os jornais e revistas apresentam hoje. Acompanhei
Peter O'Toole, por exemplo, a um bar, depois a um restaurante, caminhei
com ele num parque, vi quando falou com alguém na rua, passamos horas
juntos. O mundo apenas falado não tem lirismo e às vezes não tem
verdade. Na maioria absoluta dos casos, o que importa não é o que alguém
diz de si mesmo, mas todo um clima em torno da pessoa, do mundo em que
ela vive. O escritor, seja um homem da mídia ou um ensaísta social,
precisa antes de tudo entrosar-se, mergulhar no meio que quer conhecer,
para escrever sobre ele. O jornal pode ser feito assim, mas concordo que
não é fácil fazê-lo assim.
Estado - Um jornalista precisa
ser um escritor, então.
Talese - Agora os jornalistas
dominam melhor a própria língua, têm cursos universitários, são
informados sobre campos diferentes daqueles sobre os quais escrevem. Mas
são vítimas da tecnologia, de artefatos como o gravador e a televisão,
esta obrigando o profissional a apressar-se para concorrer com as suas
reportagens instantâneas, não lhe dando tempo de pesquisar ou meditar
sobre seu tema e seguramente o dissuadindo de conviver com o que deseja
apurar. Finalmente, impedindo-o com o nervosismo típico da premência
de tempo de aprimorar a expressão. Mas The New York Times é sem
dúvida superior ao que já foi no meu tempo. Por outro lado, as pessoas
agora são mais punitivas e menos generosas e discretas em relação às
outras e ao mundo. Hoje, nos jornais, o comportamento sexual de uma
pessoa é com freqüência determinante do tratamento que ela vai
receber no noticiário.
Estado - Isso é mais típico da
mídia americana do que da de outros países?
Talese - Sim. Veja o caso de
Mitterrand, que na França não foi nunca julgado e muito menos
crucificado pela opinião pública por sua vida pessoal, familiar e
afetiva. Esse é um comportamento britânico que nós herdamos na América."
"Gay Talese
dedica-se à literatura da realidade", entrevista feita por Luiz
Carlos Lisboa, O Estado de S.Paulo, 17/1/98.
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/aspas/ent050298b.htm
Luiz Carlos Lisboa é escritor e
jornalista
|