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Sobre a doença do homem
O texto, pregado com um clipe num painel de avisos ao lado da entrada do restaurante da Universidade de Princeton, parecia coisa longamente pensada por seu autor anônimo. Pouca gente parava ali para ler, porque ao lado havia um convite para um concerto de rock naquele mesmo sábado. Quis examinar com cuidado o tal texto, e para isso fotografei o documento. Era este seu conteúdo, numa tradução desajeitada e rápida:
"Não, não é a sociedade norte-americana que está doente, é o mundo. Para ser mais exato mas sob risco de escorregar num lugar-comum, quem está doente de fato é o homem. A Justiça dos Estados Unidos decidiu julgar como adultos esses meninos que matam seus colegas de colégio e de universidade a tiros de revólver, nas cantinas e nas salas de aula. Isso tem um significado que deve ser entendido. Se os juristas vêm esses homicidas infantis como adultos premeditados, estão admitindo que eles não são os únicos autores dos seus atos violentos. Então por que puni-los sozinhos/ Quem age por eles, ou quem age neles, além de sua frágil e confusa consciência do mundo, que por sua vez aciona impulsos que vêm das profundezas da mente como um gêiser/ Essas crianças criminosas parecem mais vítimas da hiperatividade do que de demônios malignos. Longe da surrada versão que culpa a sociedade iníqüa ou o mal exemplo dos pais, ou lamenta a inocência perdida, é preciso ver na ignorância do próprio torvelinho interior a fonte das dores e das tensões.
Às imensas bibliotecas sobre o tema, os ilustres juristas, psicólogos, filósofos e comportamentistas que sabem tudo a respeito, devemos pedir que se calem por um instante - e isso não é pedir demais, depois de séculos de discursos - para que os homens comuns como nós se voltem para esse abismo em cuja beira estamos sentados tentando encontrar saídas e apontar culpados.
Essa suspensão da certeza é o primeiro passo para trilhar um caminho novo.
As verdades que nos governam nunca foram testadas. A todas as horas de todos os dias caem sobre nós afirmações definitivas, conclusões finais e decretos prontos sobre o que é bom e é mau. Tudo nos é entregue pronto e embrulhado, e não nos dão o direito de conferir a carga, e muito menos de contestar seu significado. Tiraram de nós há muito tempo -- se é que um dia tivemos -- o direito de entender ao que fomos reduzidos.
Por isso perdemos a fé. A fé na capacidade humana de avaliar, de olhar e ver com olhos não condicionados. Porque a realidade é como o ar que na superfície da Terra preenche todos os vazios, e quer ocupar todos os espaços. Os fatos têm uma força surpreendente, e só não triunfam quando são afastados e removidos. A nós cabe abrir os olhos e apurar os ouvidos, o resto se faz por si mesmo.
O pensamento, a consciência, tem sua função prática mas de resto é um trambolho, quando se trata de acolher a realidade. E não há muito mais coisa a dizer sobre tudo isso. Bem-vindo à vida simples, pacífica e absolutamente comum de todos os dias."
http://www.jt.estadao.com.br/editorias/2001/04/08/var537.html
Lisboa,
LuizCarlos OEstado de São Paulo - Segunda-feira, 08 de abril 2001
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