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"É através da metáfora que
a linguagem da mente ilumina o que não pode ser visto, mas pode ser
dito." Hannah Arendt [1]
está falando, no seu livro A Vida da Mente a respeito das imagens que
apenas apontam, ao invés de descrever, porque, afinal, as palavras
foram feitas para servir às coisas e não o contrário.
Mas as metáforas servem bem ao seu propósito porque os homens em geral
têm conhecimento – com muita freqüência eclipsado – da verdade e
da beleza nela contida.
O koan [2]
de um mestre Zen desconhecido olha a questão por um outro lado: "A
maravilha sobrenatural – levo água, corto lenha." As coisas
simples percebidas na sua imensidão quando se vê nitidamente o único
que pode ser visto de perto: aquele que percebe.
Não há nenhum truque nem sutileza profunda implicados nisso, apenas o
estar vivo e o olhar a vida, sem estar separado dela. A divisão
artificial entre "o que olha" e "aquilo que é
olhado" se dilui completamente, quando é vista. Tão simples
quanto uma gota d'água na ponta do meu dedo.
Mas se me apresso em buscar uma resposta, se desejo ardentemente deixar
para trás o sofrimento, se ornamento com palavras o que vejo, se
concluo com um ponto de exclamação um conjunto de emoções, estou me
afastando para longe da "coisa em si", para ficar só com a
vaidosa impressão de que estou indo a fundo numa aventura metafísica.
Quando Santo Tomás de Aquino [3]
dizia que "o homem é mais de Deus que de si mesmo", estava
aludindo à inexistência de qualquer volição, de qualquer controle
humano na revelação interior da realidade. Falar em busca, em luta e
conquista no caso, é heresia pura.
"Enquanto medito", diz São Paulo em dois trechos das suas
cartas, "sei e tomo consciência de que não sou eu quem
medita." Isto é, o homem do mundo que se dedica a somar bens,
conhecimentos ou uma certa fama discursa para si mesmo quando medita ou
reza.
A idéia de alguém falando (geralmente barganhando) com a divindade é
grotesca e não passa de fantasia de mau gosto. Ninguém fala com ninguém,
no caso. Ou meditar (rezar) é simplesmente perceber de um modo cabal o
que está se passando, ou não passa de auto-hipnose. Isso quando não
se trata de mau teatro.
São Máximo Confessor [4]
, da grande tradição bizantina e comentarista ilustre de Orígenes,
no seu tratado Ambigua afirma que "o conhecimento pela atividade
intelectual é impossível".
E dizia mais: "O homem que se deifica prolonga no tempo o mistério
da Incarnação", referindo-se à incompatibilidade da consciência
comum humana – o ratio de que tanto nos orgulhamos – com o
conhecimento direto de si mesmo, de si mesmo no mundo e do mundo em si.
O dramaturgo e poeta inglês John Dryden [5]
achava que "a verdade tem um rosto e uma fisionomia tais, que para
amá-la é preciso apenas vê-la". Com a serenidade que ela
inspira, a qual derrete como gelo em chapa quente quando se quer fazer
com ela uma doutrina, uma bandeira ou uma cruzada.
Hölderlin [6]
dizia que "o homem é um deus quando sonha, e um mendigo
quando pensa". Esse sonhar que mais a ver com o descobrimento das
próprias motivações de uma forma não verbalizada, do que com os
devaneios egocêntricos dos embriagados ou excitados.
E aquele pensar que tem tudo a ver com a hipertrofia da própria imagem
e uma admiração por si mesmo que é feita de ficção desde a primeira
imagem. O oráculo de Delfos aconselhava os desesperados que esperassem.
Esperassem o "sol da ordem", que derrete mais cedo ou mais
tarde a "névoa da confusão".
Isso tudo a propósito de uma confissão de Thomas Merton no seu Místicos
e Mestres Zen (pág. 220, Ed. Civilização Brasileira): "É uma
revelação que toca às raias do assombro o falar a um zen budista do
Japão e verificar que se tem muito mais em comum com ele do que com
nossos próprios compatriotas pouco interessados na religião, ou
somente interessados na sua prática externa."
Notas:
[1]
Filósofa
alemã de origem judaica, posteriormente naturalizada norte-americana
(1906-1975). Em 1999, a Editora Companhia das Letras publicou seu
"Eichmann em Jerusalém" clássico da reflexão política do século
XX. A base do ensaio é a cobertura jornalística, que Hannah Arendt fez
para a revista "New Yorker", do julgamento do criminoso
nazista Adolf Eichmann, seqüestrado na Argentina pelo exército
israelense e levado ao banco dos réus em 1961. Outras obras de vulto são
"As Origens do Totalitarismo" e "A Condição
Humana". Em 2001, a Editora Relume-Dumará publicou a correspondência
entre Arendt e Martin Heidegger, "Correspondência 1925-1975".
(N. do E.)
[2]
No
Zen-Budismo, o koan é uma proposição ditada pelo mestre ao seu
discípulo, geralmente de caráter paradoxal. O discípulo deve meditar
sobre a questão proposta e encontrar, por si mesmo, a resposta. (N. do
E.)
[3]
Teólogo
dominicano, re-introdutor da filosofia aristotélica no Ocidente
medieval, procurou harmonizar a especulação filosófica com a verdade
revelada da fé. É doutor da Igreja, também conhecido como
"Doutor Angélico" (1227? - 1274). (N. do E.)
[4]
São Máximo
Confessor, também conhecido como São Máximo Teólogo, nasceu em 580,
tendo falecido em agosto de 662. (N. do E.)
[5]
Primeiro
dos grandes poetas neoclássicos ingleses, é reconhecido como o
fundador do verso inglês (1631 - 1700). (N. do E.)
[6]
Escritor
alemão (1770 - 1843). (N. do E.)
[*] Texto de
autoria de Luiz Carlos Lisboa (escritor e jornalista), publicado no
Jornal da Tarde, em 04.07.1999. Retirado da página http://www.jt.com.br/noticias/99/07/04/clisboa.htm
http://www.interreligo.com/public_html/crista/catolicismo/diziamerton.htm#*
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