COMO DIZIA MERTON

 


LUIS CARLOS LISBOA


 


     "É através da metáfora que a linguagem da mente ilumina o que não pode ser visto, mas pode ser dito." Hannah Arendt [1] está falando, no seu livro A Vida da Mente a respeito das imagens que apenas apontam, ao invés de descrever, porque, afinal, as palavras foram feitas para servir às coisas e não o contrário.

     Mas as metáforas servem bem ao seu propósito porque os homens em geral têm conhecimento – com muita freqüência eclipsado – da verdade e da beleza nela contida.

     O koan [2] de um mestre Zen desconhecido olha a questão por um outro lado: "A maravilha sobrenatural – levo água, corto lenha." As coisas simples percebidas na sua imensidão quando se vê nitidamente o único que pode ser visto de perto: aquele que percebe.

     Não há nenhum truque nem sutileza profunda implicados nisso, apenas o estar vivo e o olhar a vida, sem estar separado dela. A divisão artificial entre "o que olha" e "aquilo que é olhado" se dilui completamente, quando é vista. Tão simples quanto uma gota d'água na ponta do meu dedo.

     Mas se me apresso em buscar uma resposta, se desejo ardentemente deixar para trás o sofrimento, se ornamento com palavras o que vejo, se concluo com um ponto de exclamação um conjunto de emoções, estou me afastando para longe da "coisa em si", para ficar só com a vaidosa impressão de que estou indo a fundo numa aventura metafísica.

     Quando Santo Tomás de Aquino [3] dizia que "o homem é mais de Deus que de si mesmo", estava aludindo à inexistência de qualquer volição, de qualquer controle humano na revelação interior da realidade. Falar em busca, em luta e conquista no caso, é heresia pura.

     "Enquanto medito", diz São Paulo em dois trechos das suas cartas, "sei e tomo consciência de que não sou eu quem medita." Isto é, o homem do mundo que se dedica a somar bens, conhecimentos ou uma certa fama discursa para si mesmo quando medita ou reza.

     A idéia de alguém falando (geralmente barganhando) com a divindade é grotesca e não passa de fantasia de mau gosto. Ninguém fala com ninguém, no caso. Ou meditar (rezar) é simplesmente perceber de um modo cabal o que está se passando, ou não passa de auto-hipnose. Isso quando não se trata de mau teatro.

     São Máximo Confessor [4] , da grande tradição bizantina e comentarista ilustre de Orígenes, no seu tratado Ambigua afirma que "o conhecimento pela atividade intelectual é impossível".

     E dizia mais: "O homem que se deifica prolonga no tempo o mistério da Incarnação", referindo-se à incompatibilidade da consciência comum humana – o ratio de que tanto nos orgulhamos – com o conhecimento direto de si mesmo, de si mesmo no mundo e do mundo em si.

     O dramaturgo e poeta inglês John Dryden [5] achava que "a verdade tem um rosto e uma fisionomia tais, que para amá-la é preciso apenas vê-la". Com a serenidade que ela inspira, a qual derrete como gelo em chapa quente quando se quer fazer com ela uma doutrina, uma bandeira ou uma cruzada.

     Hölderlin [6] dizia que "o homem é um deus quando sonha, e um mendigo quando pensa". Esse sonhar que mais a ver com o descobrimento das próprias motivações de uma forma não verbalizada, do que com os devaneios egocêntricos dos embriagados ou excitados.

     E aquele pensar que tem tudo a ver com a hipertrofia da própria imagem e uma admiração por si mesmo que é feita de ficção desde a primeira imagem. O oráculo de Delfos aconselhava os desesperados que esperassem. Esperassem o "sol da ordem", que derrete mais cedo ou mais tarde a "névoa da confusão".

     Isso tudo a propósito de uma confissão de Thomas Merton no seu Místicos e Mestres Zen (pág. 220, Ed. Civilização Brasileira): "É uma revelação que toca às raias do assombro o falar a um zen budista do Japão e verificar que se tem muito mais em comum com ele do que com nossos próprios compatriotas pouco interessados na religião, ou somente interessados na sua prática externa."

 

Notas:

[1] Filósofa alemã de origem judaica, posteriormente naturalizada norte-americana (1906-1975). Em 1999, a Editora Companhia das Letras publicou seu "Eichmann em Jerusalém" clássico da reflexão política do século XX. A base do ensaio é a cobertura jornalística, que Hannah Arendt fez para a revista "New Yorker", do julgamento do criminoso nazista Adolf Eichmann, seqüestrado na Argentina pelo exército israelense e levado ao banco dos réus em 1961. Outras obras de vulto são "As Origens do Totalitarismo" e "A Condição Humana". Em 2001, a Editora Relume-Dumará publicou a correspondência entre Arendt e Martin Heidegger, "Correspondência 1925-1975". (N. do E.)

[2] No Zen-Budismo, o koan é uma proposição ditada pelo mestre ao seu discípulo, geralmente de caráter paradoxal. O discípulo deve meditar sobre a questão proposta e encontrar, por si mesmo, a resposta. (N. do E.)

[3] Teólogo dominicano, re-introdutor da filosofia aristotélica no Ocidente medieval, procurou harmonizar a especulação filosófica com a verdade revelada da fé. É doutor da Igreja, também conhecido como "Doutor Angélico" (1227? - 1274). (N. do E.)

[4] São Máximo Confessor, também conhecido como São Máximo Teólogo, nasceu em 580, tendo falecido em agosto de 662. (N. do E.)

[5] Primeiro dos grandes poetas neoclássicos ingleses, é reconhecido como o fundador do verso inglês (1631 - 1700). (N. do E.)

[6] Escritor alemão (1770 - 1843). (N. do E.)

[*] Texto de autoria de Luiz Carlos Lisboa (escritor e jornalista), publicado no Jornal da Tarde, em 04.07.1999. Retirado da página http://www.jt.com.br/noticias/99/07/04/clisboa.htm

 http://www.interreligo.com/public_html/crista/catolicismo/diziamerton.htm#*

 

 

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