OLHOS E CORES

              

 

 O DESEJO DE DISCERNIR

 


LUIS CARLOS LISBOA


 


O filósofo espanhol Ortega y Gasset dizia que 'o especialista é o profissional que sabe cada vez mais, sobre cada vez menos'. Na verdade, todo conhecimento específico é limitado a uma pequena área da realidade, e portanto impróprio para lidar com a imensa diversidade do universo em todos nós vivemos. A informação que nos chega sobre esse universo é às vezes não somente incompleta, como com freqüência pode ser inteiramente errada. 
É o nosso próprio discernimento que nos salva. Para que ele funcione bem, no entanto, tal como na evolução das espécies é preciso existir a divesidade, esse leque imenso de situações, imagens, emoções e cores que envolvem o homem e o saturam de estímulos. Viver nesse mar de excitações do mundo exige capacidade de observar e acima de tudo o desejo de discenir. Antes de conseguirmos perceber, é preciso saber se queremos entender. Essa fagulha que ilumina a treva da ignorância está presente - como diz o Evangelho de João referindo-se ao Espírito - 'onde bem entende'. O que parece acaso, no entanto, obedece a um plano que não conseguimos (no caso, nem mesmo quando queremos) entender ou discernir. 
A chamada 'meditação', mil vezes explorada e afinal banalizada, corresponde naturalmente a uma verdade sem nome que a todo momento nossa intuição comprova. É quando estamos vazios que ela vibra como a corda de um violino, que ela transforma em sons compreensíveis as ondas invisíveis que passam enquanto temos medo, enquanto perseguimos lucros vida afora, quando nos ofendemos e nos deliciamos com vinganças. Para simplificar, podemos chamá-la simplesmente de atenção.
A verdadeira atenção vê e não dá nome ao que viu, ouve e não compara com alguma outra coisa que escutou, lê e não tenta seguir caminhos ou se imaginar personagem. Ela aguça os sentidos humanos até um ponto que o homem comum não imagina. Ela é sem títulos nem pompas, sem vaidade, sem orgulho pessoal, sem um olho no sucesso e sem visar benefícos de qualquer forma. Ela não se impõe, mas é assim, ordinária e subllime, e logo ao primeiro contato deixa perceber que é boa e arrebatadora, sedutora mas absolutamente honesta. 
Nosso projeto em 'Ver, Ouvir, Ler' é estar aberto a um tema que se aborda, a uma palavra que nos chega. Vendo 'aquilo que simplesmente é', não o que gostaríamos que fosse. Ouvindo o que nos chega do mundo e a forma como o recebemos, não o que na nossa opinião devia ser. Lendo e percebendo o que ali está, com seus acertos e seus erros, sem a arrogância religiosa ou política que domina nosso tempo, disfarçada de humildade. 'Ver, Ouvir, Ler' é uma experiência no campo da percepção. Três ou quatro pessoas conversam sobre um tema inicialmente proposto, e aí talvez dentro de um, ou de mais de um deles, surge aquele raio de luz que justifica o mundo, que vale por si mesmo e não pela duração e pelos benefícios que pode trazer a quem quer que seja. Isso será recompensa bastante para todos.

sáb 14/12/02 21:50

Lisboa, Luiz Carlos

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