|
No célebre jantar da Casa Branca para o qual John Fitzgerald Kennedy convidou alguns luminares do pensamento, das letras e das artes dos Estados Unidos, e que ajudou a associar para sempre seu período de governo aos tempos lendários de Camelot, o presidente produziu num discurso uma frase que depois haveria de incorporar-se às coletâneas de citações ilustres.
"Nunca até hoje - disse ele pausadamente - tanta inteligência abrigou-se sob este mesmo teto, desde os dias em que Thomas Jefferson jantava aqui...
sozinho."
As coisas talvez tenham mudado um pouco em Washington, ultimamente, mas um exame isento e até mesmo simpático da história norte-americana pode mostrar que, de algum modo, elas sempre foram assim, com curtos períodos de exceção.
Embora o estudo e a especialização ocupem um espaço respeitável e sejam até uma preocupação nos Estados Unidos, o que tem predominado na alta administração daquele país é a ausência de uma visão abrangente das ciências humanas, de um sólido conhecimento da história do mundo e uma perigosa indiferença em face da realidade sociocultural de qualquer coisa além de suas fronteiras.
O presente é rico em exemplos dessa "distração" política e cultural dos norte-americanos, mais constrangedora em questões que exigem habilidade e cautela ante o que é precioso e caro a outras culturas. No curto período de um mês, vários países europeus, asiáticos ou da órbita islâmica estranharam comentários, posições e decisões recentes de Washington. Nunca antes uma grande aliança de nações ameaçou esfarelar-se tão depressa por inabilidade dos governantes de uma delas. Dez séculos de diplomacia humana foram ignorados de repente. A opinião que os intelectuais europeus têm dos norte-americanos, descartadas as velhas paixões ideológicas que o hábito talvez petrificou, ou um ressentimento comum em relação a vizinhos mais prósperos, é a de que os estadunidenses estão convencidos de que fora do seu estilo de vida e da sua compreensão do universo não há mesmo salvação. Esse modo de conceber o mundo conviveria, no entanto, com um notável apreço pelo trabalho competitivo, pelos negócios e os lucros, fatores que em geral deixam menos espaço à vida intelectual e à criatividade.
Pondo de lado por incabível aqui a discussão das causas do fenômeno - encontradas por muitos na influência do calvinismo nos primeiros americanos, além da sua conseqüente crença na natureza fatalmente corrupta dos homens -, há alguma coisa mais a notar na "distração" dos políticos e administradores norte-americanos. O típico estouvamento de homens públicos e de formadores de opinião nos Estados Unidos, em alguns casos espontâneo, tem servido para abrandar os mais variados graus da estranheza, do mau humor diplomático ou até mesmo da ira no resto do mundo. Em dezembro, Bush disse ao presidente russo Vladimir Putin que contava com seu apoio na luta antiterrorista que estava então iniciando, e ao mesmo tempo confirmou o seu repúdio ao tratado antibalístico assinado com os russos em 1972. Putin levou alguns dias para se refazer do choque.
O governo do presidente Bush tem-se aproveitado, muito mais que qualquer outro antes dele, dessa imprecisão de contornos entre a desinformação e o pragmatismo. Devassada pela mídia de seu país, mas contando com a típica tolerância dos tempos de crise, a Washington republicana tem conseguido fazer uma administração quase experimental, à base de tentativa e erro, fundada num "esforço de guerra" que desta vez não se dispersará enquanto durar a ameaça do terror, que alguns fatos e certas revelações da CIA cuidarão de manter vivas. Mas a confirmação presidencial da rejeição norte-americana do Tratado de Kyoto sobre o aquecimento global deixou clara, nos últimos dias, a opção preferencial pelos negócios, mandando o meio ambiente e a qualidade de vida às favas, e assim desfazendo a imagem do líder desinformado mas bem-intencionado que vinha sendo mantida, para revelar o gelado pragmatismo de tantos heróis e anti-heróis da história pública dos Estados Unidos.
Será possível estar ao mesmo tempo desatento e interessado num mesmo problema, conforme ele afete o mundo ou sua solução venha ameaçar os ganhos de alguém? O histórico desapreço pela sofisticação intelectual que vez por outra caracterizou os norte-americanos certamente ajudou o país a aceitar um presidente contraditório, quando isso na aparência passou a ser do interesse da Nação. A rispidez de estilo "western", que manda pegar Osama bin Laden "vivo ou morto" e amarra num laço único os três países do "eixo do mal", deu a um presidente desinformado mas interessado uma popularidade que nem em sonho ele imaginou que jamais teria.
Lisboa,
Luiz Carlos O Estado de São Paulo Sábado, 23 de fevereiro de 2002
|