"...A fascinante correspondência de 30 anos entre Edmund Wilson e Vladimir Nabokov revela as razões do rompimento da amizade entre o crítico americano e o escritor russo..."
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A mais famosa polêmica da literatura norte-americana teve como assunto, por estranho que pareça, a literatura russa, e como protagonistas o crítico Edmund Wilson, autor famoso de Rumo à Estação Finlândia, e Vladimir Nabokov, escritor russo radicado nos Estados Unidos, mundialmente conhecido por seu romance Lolita. Os anos críticos dessa relação foram 1965 e 1966, mas antes e depois da crise eles trocaram cartas confessando sua mútua admiração e lembrando os bons tempos, até a morte de Wilson. As cartas trocadas pelos dois durante 30 anos, editadas, anotadas e estudadas num ensaio por Simon Karlinsky, foram publicadas na obra Dear Bunny, Dear Volódya. The Nabokov-Wilson Letters, 1940-1971 (Caro Coelho, Caro Volódia. A correspondência de Nabokov e Wilson).
A história desses dois literatos não podia ser mais diferente. A primeira lembrança que Edmund Wilson tinha de sua mãe era a de uma surra que ela lhe deu com uma escova de cabelo. Ele foi soldado na 1.ª Guerra Mundial e matou muitos alemães nas trincheiras de Verdun e do Marne. De volta a seu país, era um sujeito taciturno e entediado, que só sentia prazer na companhia dos autores de sua biblioteca, quando se cansava das prostitutas. Sua inquietação amorosa deu-lhe o apelido de Coelho, e quando foi internado num sanatório para doentes nervosos acusou as mulheres de sua vida de o terem levado à loucura. Nos intervalos entre seus casos de amor e internações psiquiátricas, lia desesperadamente e acabou acumulando apreciáveis conhecimentos de história, literatura e línguas estrangeiras.
Vladimir Nabokov era filho de um político liberal russo que foi chefe de chancelaria e alto funcionário do governo provisório de Kerensky, em São Petersburgo. Volódia, como era chamado em família, recebeu a educação esmerada dos jovens ricos na Rússia e continuou seus estudos na Alemanha e na Inglaterra, após a tomada de poder pelos bolchevistas em 1917. Seu pai foi assassinado em Berlim por um radical direitista. Como Wilson, foi desde cedo um devorador de livros, mas, graças à sua formação, bastante criterioso nas escolhas e na administração do seu tempo. Ainda jovem, além de russo falava fluentemente alemão, francês e inglês. Quando mudou-se para os Estados Unidos durante a 2.ª Guerra, já havia traduzido para o inglês alguns dos seus ensaios e pequenos romances. Dois deles, Invitation to a Beheading (Convite para uma Decapitação) e The Gift (A Dádiva), foram mandados por ele ao crítico Edmund Wilson, que gostou do que leu.
A troca de cartas entre eles começou em 1940, quando Nabokov ainda se assinava Nabokoff. Um primo seu dizia-lhe que era absurdo duas pessoas de gostos tão parecidos não se conhecerem melhor, e deu-lhe o endereço de Wilson. Durante três décadas eles trocaram cartas e se visitaram, com as respectivas esposas, que também ficaram muito amigas. Seu assunto era naturalmente sua paixão particular, a literatura. E literatura russa de preferência, embora discutissem igualmente Dickens, Jane Austen, Flaubert, Proust, Joyce, Edna Millay e Hermann Broch, além de obscuros poetas russos, naturalmente. Nabokov exerceu desde o começo grande influência em Wilson, indicando-lhe autores russos que o norte-americano mal conhecia, embora tivesse estudado a língua russa e fosse um antigo freqüentador das traduções inglesas de Pushkin, Tolstoi e Turgueniev. O grande desafio de Wilson na época era exatamente, aproveitando seu notável manejo do inglês, traduzir os grandes russos com a máxima fidelidade possível ao espírito do original.
A afinidade e mútua simpatia dos dois apoiava-se no fato de serem ambos cultos e brilhantes, dominando campos ligeiramente diferentes onde se consideravam respectivamente mestres absolutos. Para eles, não havia substituto para a excelência literária. Edmund Wilson tinha acabado de publicar Rumo à Estação Finlândia, um estudo admirável do marxismo-leninismo na prática, e Nabokov havia escrito A Dádiva, uma análise ficcional dos sonhos políticos e filosóficos russos. Sobre esse tema comum eles conversaram em longas e bem pensadas cartas, durante um quarto de século.
Outra ponto entre eles era o romance de Wilson Memórias do Condado de Hecate, que contribuiu para o colapso do moralismo vitoriano nos Estados Unidos, tal como Lolita, de Vladimir Nabokov, faria também. O Coelho sensual e sofisticado que se revelara na obra do primeiro, era do mesmo estofo do Humbert Humbert que se materializou no livro do segundo. Os autores se uniam nessa ponte lançada por seus personagens, e escreviam deliciados sobre sua vingança comum.
A primeira discordância entre eles formou-se em torno de Lênin. Wilson achava que Stalin havia traído a causa do marxismo, impondo uma ditadura que do proletariado só tinha o nome. Nabokov pensava que todo o mal do stalinismo estava latente no leninismo. Para ele, uma abordagem honesta do regime soviético tinha de passar por um conhecimento prévio e profundo do temperamento russo, que molda a ideologia e a filosofia a seu jeito. Stalin era Ivã, o Terrível, com uma desculpa ideológica debaixo do braço. Para entender o mundo soviético, dizia Vladimir Nabokov numa carta, o ideal era ter nascido na Rússia e ser bom observador. Se isso não fosse programado pelo destino, era preciso ler com dedicação a obra de Gogol (a começar por Almas Mortas), Turgueniev (principalmente Anotações de um Desportista e Um Ninho de Gente Boa) e Andrei Bely (a partir de Petersburgo).
Wilson não bateu pé na questão porque até aquela época dava um grande crédito ao amigo em todas as discussões. Mas à medida em que o norte-americano avançou nos estudos de língua russa, e o outro revelou um certo narcisismo, o Coelho passou a discutir de igual para igual com ele.
Volódia não se esquecia de que devia a Wilson todo o apoio que recebeu quando chegou da Europa como um exilado russo quase anônimo. Foi o norte-americano que o levou para o meio universitário e o aproximou da imprensa literária respeitável (para um europeu culto) nos Estados Unidos.
Seus artigos no Atlantic Monthly, no The New Republic e no Literary Chronicle tinham marcado o começo de tudo. Os críticos que analisaram mais tarde a célebre polêmica entre os dois intelectuais e amigos admitiam que Wilson havia provocado o tigre que havia em Nabokov com vara curta, quando perdeu a cerimônia com ele.
A história tem de ser contada desde o início para ser melhor compreendida. Em janeiro de 1964, no ano em que permaneceu na Europa, o casal Wilson visitou os Nabokov na Suíça, para onde estes haviam mudado depois do sucesso de Lolita. Hospedado no Montreux Palace Hotel, onde viveu o resto dos seus dias, Nabokov recebeu os amigos com a efusão habitual. Meses depois, no entanto, soube que exatamente naqueles dias Wilson havia preparado mentalmente uma crítica impiedosa aos quatro volumes que o russo havia traduzido e comentado da obra Eugene Oneguin, de Pushkin, e não lhe fizera qualquer menção ao fato durante a visita.
A dura resenha crítica saiu no New York Review of Books de 15 de julho de 1965, e ela praticamente destruiu uma amizade que havia começado em 1940, quando Nabokov chegou à América. Em fevereiro de 1966, saiu na revista Encounter a resposta devastadora do russo aos seus críticos. Em 1971, no mesmo ano em que morreu, Wilson fez uma revisão de sua resenha sobre o Oneguin, acrescentando alguma crítica a romances de Nabokov, mas esse texto renovadamente duro só foi publicado após sua morte, no livro A Window on Russia (Uma Janela para a Rússia), em 1972. O que mais machucou o autor de Lolita foi o silêncio de Wilson durante suas férias na casa dos Nabokov em Montreux, eles que eram amigos e confidentes. Traição da mais reles, nada literário ou estético pendendo do caso, segundo o magoado Volódia.
A essa altura, Nabokov era autor consagrado, e de fato não se impressionou com os argumentos críticos do amigo, ou de outros críticos. Uma nova edição do Oneguin não mereceu dele uma só vírgula de mudança, e a tradução quase literal da obra de Pushkin voltou a ser criticada, agora por outros especialistas em literatura eslava, para os quais Nabokov havia sacrificado tudo à sua teoria, "inclusive a elegância, a eufonia, a clareza, o bom gosto, o falar moderno e até a gramática". O russo permaneceu impávido, mas descarregou seu ressentimento no amigo que o "traiu". No New York Times Review of Books, Wilson vergastou pela última vez o tradutor do Oneguin:
"Ele não aceita crítica e se diz único e incomparável, afirmando que todos que discordam dele são ignorantes ou ridículos. Seus maus modos literários revelam sua impossibilidade de argumentar, no caso."
E então vem o comentário mais cáustico de Wilson: "Seu estilo é perverso, pedante, inaceitável. O sr. Nabokov passa inúmeras páginas comparando palavras e frases de vários tradutores das estrofes de Pushkin", e não prova nada. Wilson analisa, cruel: "A virtuosidade verbal de Nabokov revela seu desejo de punir-se, bem como ao leitor, por suas tendências dostoievskianas sado-masoquistas já notadas por Sartre."
Num comentário à obra de Nabokov A Verdadeira Vida de Sebvasião Knight, ele o havia comparado a Gogol, Proust e Kafka, aos quais o russo amava. Agora ele o comparava a Marx e Dostoiévski, que Vladimir desprezava. A referência a Sartre, então, deve ter enlouquecido o russo, que o considerava seu inimigo pessoal. Cinco anos depois, passado o vendaval, os dois se corresponderam brevemente, por iniciativa de Nabokov. Wilson tivera um derrame e tinha o braço direito paralisado. Volódia foi novamente carinhoso com o amigo Coelho, como nos velhos tempos. Wilson contou-lhe então que tinha acabado de mandar (março de 1971) para a revista The New Yorker um relato de sua visita a Nabokov, na época da grande crise entre os dois, relato baseado num diário que Wilson manteve a vida inteira.
"Espero - dizia ele nessa última carta que escreveu ao amigo russo - que esse relato não desequilibre novamente nossas relações pessoais. Isso não deve acontecer." Só não aconteceu porque Wilson morreu pouco depois, e Nabokov já não tinha um antagonista. Mas Nabokov vingou-se no seu livro Fala, Memória, contando: "O que me surpreendeu sempre é que aquelas entradas no seu diário ele as fez enquanto era meu hóspede em Ithaca (onde Nabokov lecionava), e revelam sentimentos e idéias tão vingativos e mesquinhos na época que, se tivessem sido expressos de viva voz, eu lhe teria pedido que se retirasse de minha casa imediatamente."
http://www.jt.estadao.com.br/suplementos/saba/2001/08/25/saba007.html
Lisboa, Luiz Carlos -
Jornal da Tarde - O Estado de São Paulo - Sábado, 25 de agosto de 2001
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