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Na casa de retiro Edward Conze do centro Zen de São Francisco fazia um frio dos diabos naquela manhã. Uma tempestade de madrugada havia bloqueado estradas, congelado rios e coberto de geada os carros estacionados na área. Na varanda envidraçada, os dois homens tomavam chá e conversavam, ouvidos em silêncio pelo estrangeiro curioso que de vez em quando ligava seu gravador. "A cultura, a erudição e a fala adestrada podem agir como o veneno de algumas cobras, que deixam a mente do homem funcionando normalmente, mas imobiliza seus membros", dizia mestre Lin. "O que esse envenenamento visa é permitir um novo ataque da cobra, este sim, definitivo".
Mestre San sorveu um gole de chá e o saboreou longamente. Depois disse:
"Toda acumulação tem em vista o mesmo resultado no espírito humano, somando conhecimentos e versões, e preparando respostas puramente retóricas. E apesar disso, um homem pode acumular uma grande coleção de dados na memória e, ao mesmo tempo, manter-se mentalmente ágil e flexível em face da realidade. O caminho para isso é ter, mas não possuir". O outro aprovou com um movimento de cabeça, e ficaram ambos muito quietos, ouvindo o vento lá fora.
"Acumular coisas de todo tipo, não somente aquilo que os bancos e os cartórios acumulam para os homens, mas até mesmo dados na memória, pode ser uma armadilha mortal para a verdadeira inteligência", tornou mestre Lin, acrescentando: "Tudo depende de como usamos esse estoque". O estrangeiro pensou em pedir uma definição da verdadeira inteligência mas desistiu, perguntando a si próprio: "Mas acumulação é exatamente isso?".
O chinês inclinou-se para dobrar uma pequena toalha à sua frente, e olhou o visitante: "O que leva o homem a acumular é seu medo interior diante do mistério da vida e da certeza da morte".
Mestre San mantinha-se ereto na cadeira, as mãos cruzadas junto ao corpo. "A idéia enraizada no coração humano de que a acumulação de conhecimentos pode dar segurança ao indivíduo está na raiz de todo pensamento. O impulso para acumular é basicamente animal, e em certas situações é eficaz, como na estocagem de alimentos para o inverno", disse, no mesmo tom de voz. "O sistema político-econômico hoje predominante no mundo, de adição de bens de todo gênero, nasce e cresce na ansiedade do homem diante do mistério que o envolve desde o berço".
O outro olhou para o estrangeiro que também tomava o seu chá, e por sua vez disse: "Porque o homem é mais do que um animal, sua angústia não se resolve com esse somatório de bens e conhecimentos". Fez uma pausa antes de prosseguir: "Somente olhar esse constante impulso para encontrar uma rocha segura em algum lugar é um bom começo. Ver como toda tentativa nesse sentido é inútil, é um belo caminho. Descobrir afinal que apesar das espertezas do ego tudo leva a nada, pode ser uma revelação". E concluiu: "Não há outro caminho além da revelação da inexistência total e definitiva de caminhos".
Na pequena sala reinou sozinho o chiado do gravador.
Luiz Carlos Lisboa, jornalista e escritor, é coordenador da coletânea 'Visões do Novo Milênio'.
Domingo, 28 de janeiro de 2001
http://www.jt.estadao.com.br/editorias/2001/01/28/var356.html
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