OLHOS E CORES

 

 

 

 

O COLECIONADOR

 


LUIS CARLOS LISBOA


 



Na casa de retiro Edward Conze do centro Zen de São Francisco fazia um frio dos diabos naquela manhã. Uma tempestade de madrugada havia bloqueado estradas, congelado rios e coberto de geada os carros estacionados na área. Na varanda envidraçada, os dois homens tomavam chá e conversavam, ouvidos em silêncio pelo estrangeiro curioso que de vez em quando ligava seu gravador. "A cultura, a erudição e a fala adestrada podem agir como o veneno de algumas cobras, que deixam a mente do homem funcionando normalmente, mas imobiliza seus membros", dizia mestre Lin. "O que esse envenenamento visa é permitir um novo ataque da cobra, este sim, definitivo". 

Mestre San sorveu um gole de chá e o saboreou longamente. Depois disse: 

"Toda acumulação tem em vista o mesmo resultado no espírito humano, somando conhecimentos e versões, e preparando respostas puramente retóricas. E apesar disso, um homem pode acumular uma grande coleção de dados na memória e, ao mesmo tempo, manter-se mentalmente ágil e flexível em face da realidade. O caminho para isso é ter, mas não possuir". O outro aprovou com um movimento de cabeça, e ficaram ambos muito quietos, ouvindo o vento lá fora. 

"Acumular coisas de todo tipo, não somente aquilo que os bancos e os cartórios acumulam para os homens, mas até mesmo dados na memória, pode ser uma armadilha mortal para a verdadeira inteligência", tornou mestre Lin, acrescentando: "Tudo depende de como usamos esse estoque". O estrangeiro pensou em pedir uma definição da verdadeira inteligência mas desistiu, perguntando a si próprio: "Mas acumulação é exatamente isso?". 

O chinês inclinou-se para dobrar uma pequena toalha à sua frente, e olhou o visitante: "O que leva o homem a acumular é seu medo interior diante do mistério da vida e da certeza da morte". 

Mestre San mantinha-se ereto na cadeira, as mãos cruzadas junto ao corpo. "A idéia enraizada no coração humano de que a acumulação de conhecimentos pode dar segurança ao indivíduo está na raiz de todo pensamento. O impulso para acumular é basicamente animal, e em certas situações é eficaz, como na estocagem de alimentos para o inverno", disse, no mesmo tom de voz. "O sistema político-econômico hoje predominante no mundo, de adição de bens de todo gênero, nasce e cresce na ansiedade do homem diante do mistério que o envolve desde o berço". 

O outro olhou para o estrangeiro que também tomava o seu chá, e por sua vez disse: "Porque o homem é mais do que um animal, sua angústia não se resolve com esse somatório de bens e conhecimentos". Fez uma pausa antes de prosseguir: "Somente olhar esse constante impulso para encontrar uma rocha segura em algum lugar é um bom começo. Ver como toda tentativa nesse sentido é inútil, é um belo caminho. Descobrir afinal que apesar das espertezas do ego tudo leva a nada, pode ser uma revelação". E concluiu: "Não há outro caminho além da revelação da inexistência total e definitiva de caminhos". 

Na pequena sala reinou sozinho o chiado do gravador. 


Luiz Carlos Lisboa, jornalista e escritor, é coordenador da coletânea 'Visões do Novo Milênio'. 
Domingo, 28 de janeiro de 2001 

http://www.jt.estadao.com.br/editorias/2001/01/28/var356.html

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