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Confiança, às vezes, é uma forma de anestesia. O homem precisa ter consciência clara da sua precariedade no mundo para manter-se acordado e em contato com a realidade. Manter-se em estado de vigília é mais que um direito, porque, afinal, esse é um outro nome da autopreservação, sendo a inércia e a preguiça apenas simulações do medo. Nunca faltaram ameaças na vida do homem primitivo, e foi graças a elas que ele aprendeu a sobreviver.
Mas o Homo sapiens tornou sua existência tão variada e complexa que os antigos reflexos foram afogados num mar de habilidades e truques para vencer na vida. De tal modo que a autoconfiança se tornou uma espécie de armadura pesada que dificulta a marcha e tolhe a agilidade.
Nada na existência contemporânea do homem comum parece ter mexido tanto com sua idéia fundamental de segurança no mundo quanto o atentado terrorista de 11 de setembro último em Nova York. A mensagem que esse ataque enviou a diferentes lugares e povos do planeta foi a de que não há santuários seguros, nem defesa possível contra os fantasmas reais da humanidade - a morte, a dor, a violência, a velhice e a doença. Não foram uma cidade ou um país que se revelaram frágeis, foi a própria condição humana que exibiu sua precariedade. Os oásis de segurança que as ideologias, as correntes psicológicas e grande parte das religiões tentaram criar se desfizeram como as torres gêmeas de Manhattan e as paredes do Pentágono, em Washington.
Em outras palavras, não existe a segurança prometida por respeitáveis pastores, ideólogos, urbanistas e, no fundo, ardentemente desejada por nós.
A depressão psicológica que varreu os Estados Unidos em seguida ao ataque brutal foi, aparentemente, sublimada com os bons resultados da guerra movida contra a sede do mal, no Afeganistão, mas a ferida não cicatrizou no ponto da alma onde é elaborada e sentida a existência humana. Essa perda de segurança e proteção, cuja metáfora perfeita é o paraíso perdido de que nos fala o primeiro livro do Antigo Testamento, vai refletir-se imediatamente na política exterior do mais poderoso país do Ocidente, numa dimensão que ultrapassará de longe meros sistemas de defesa ou técnicas balísticas e nucleares.
Os fatos e as emergências vão forçar o governo republicano dos Estados Unidos, bem como um punhado de nações aliadas, a reconsiderar princípios do Direito Internacional e a refazer acordos multilaterais que a esta altura já parecem irremediavelmente anacrônicos. O inimigo será considerado inimigo da humanidade inteira - não obstante os abusos que podem decorrer dessa premissa, que tem muito de verdadeira. As fronteiras vão perder sua atual inviolabilidade e as alegações de inocência serão ignoradas, conforme o juízo que se faça de seu autor. Isso tudo acontecerá muito em breve, porque o terror é um adversário novo, rápido e imprevisível, que requer de suas vítimas potenciais armas novas, uma estratégia inusitada e novíssimas táticas.
O milionário saudita Osama bin Laden foi o maestro sombrio desses novos tempos. Não importa qual seja seu destino pessoal, ele entrará para a História como um Prometeu maligno que liberou o fogo das guerras modernas, ou, então, como o aprendiz de feiticeiro que ateou com seu pequeno ódio um incêndio planetário. Fundamental será lembrar, como lição para nossos descendentes próximos e remotos, quem e como começou essa transformação do mundo. Porque a memória é seletiva, em face das paixões. Dispensa qualquer exercício de profecia dizer agora que um dia o homem terá de voltar-se para si mesmo, a fim de entender esse jogo permanente e magnífico de causa e efeito que gera o prazer e o medo, a paz e a guerra, a beleza e a fealdade, meta que está tão próxima dele que se esconde entre seus desejos e temores, em busca da segurança absoluta que ele próprio inventou.
Luiz Carlos Lisboa, O Estado de São Paulo - Sábado, 29 de dezembro de 2001
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