OLHOS E CORES

 

                  

 

TODA A VERDADE DAS BIOGRAFIAS PÓSTUMAS

 


LUIS CARLOS LISBOA


 


Israelenses e palestinos parecem saturados da sua guerra em família que já dura meio século, e esse cansaço é agora visível no fervedouro político que Arafat e Ariel Sharon estão enfrentando em casa. Os Estados Unidos, mais do que nunca, estão divididos entre uma perplexidade que precisa ser disfarçada e os resultados do seu desconhecimento básico do mundo à sua volta, que agora mais do que nunca eles querem influenciar e aplacar. Washington precisa de alguma paz no Oriente Médio para se concentrar na guerra sem prazo e sem limites territoriais que está decidida a mover contra o terrorismo. Para isso quer contar com os "bons" árabes - não os mais democráticos, porém os mais confiáveis política e economicamente, os que não pertencem ao "eixo do mal", essa jóia de inabilidade que Condoleezza Rice esculpiu para o presidente Bush. O segundo motivo do empenho norte-americano é a preservação do preço mundial do petróleo, esse tesouro que Deus, sob o nome de Alá, há 1 bilhão de anos reservou para os seus filhos árabes. 
Se Tocqueville muito fez como observador meticuloso da alma e do temperamento dos Estados Unidos do seu tempo, hoje pouco faria, porque a observação in loco da vida norte-americana, através de sua mídia tentacular, ou ouvindo a voz do homem comum, é agora muito mais difícil. Isso porque, num dos maiores países de tradição democrática do mundo, até os analistas mais corajosos e irreverentes são, na verdade, formais em relação à autoridade. Liberdade de opinião inegavelmente existe, mas faltam nela acuidade, originalidade e - palavra querida de Charles Darwin - diversidade. 
Washington é uma cidade de vidro, mas não pela transparência, e sim pelo temor que se tem de quebrar aquilo que se toca ali, além da convicção generalizada de que é possível e recomendável conhecer as pessoas e as instituições sem devassar a sua intimidade, sem ir além do "politicamente correto" e, afinal, do meramente polido. É como se o país tivesse herdado um pouco do amor à liberdade dos ingleses e, em dose muito maior, aquela discrição britânica que às vezes raia pela timidez. Invadir a vida pessoal de um presidente foi possível no governo Clinton porque um comando do Partido Republicano mudou temporariamente as regras do jogo, usando uma constelação de juristas, parlamentares e imprensa, coordenada como nunca se viu antes, visando ao desgaste de um presidente popular e um partido que estavam em via de eleger um sucessor democrata. Mas isso foi exceção na história moderna dos Estados Unidos e, assim que Mônica Lewinsky voltou ao anonimato, o antigo temor reverencial por toda forma de autoridade retomou seu lugar. 
Num discurso feito logo após o atentado de setembro último, o presidente George W. Bush falou na cruzada que os Estados Unidos estão movendo contra o terror no mundo. Não houve um assessor que suprimisse daquele pronunciamento a palavra "cruzada", que para os árabes tem o mesmo peso de "holocausto" para os judeus. O modo como a "aliança do bem" foi apresentada pareceu desastroso, porque a coisa sugeria mais imposição do que convocação. E aí veio a questão específica do Iraque, colocada também tão canhestramente que logo muitos "árabes confiáveis" se opuseram ao projeto de uma invasão, lembrando que era preciso primeiro tentar os procedimentos legais sugeridos e já experimentados pela ONU, para bem depois falar num ataque militar a Bagdá. Tudo pode ser comentado, mas o "pessoal" é de bom tom eliminar. 
Mas o pior em matéria de inabilidade e de psicologia "cowboy", partidas da Casa Branca, estava ainda por vir. Alguns analistas políticos da CNN, nas raras vezes em que se permitem fazer referência direta à atuação presidencial, lembraram então que a missão Powell no Oriente Médio só podia ter sido inventada pelo presidente Bush, tão improvisada, penosa e inútil ela se tornou, primeiro, para o secretário de Estado e, finalmente, para os Estados Unidos. Nas inúmeras vezes em que apareceu em público comentando o drama palestino-israelense, Bush mostrou-se vacilante, repetindo a advertência que faz a Arafat e dizendo-se feliz com a saída dos tanques israelenses das cidades palestinas, o que não se confirmava no dia seguinte. 
Esse processo de desmoralização da autoridade, apesar de preocupar a mídia em geral, tentando mostrar isenção, ouve prós e contras, mostrando - essas, sim - imagens eloqüentes de Jerusalém, Ramalah e Jenin. O sistema de comunicação mais amplo, sofisticado e bem servido por profissionais competentes do mundo fala pouco e mostra menos as fraquezas, as omissões e as impropriedades dos seus homens públicos. 
Quem cuida disso com extraordinária competência e minúcia nos Estados Unidos são as biografias de ex-presidentes e políticos. Aí desaparecem o temor reverencial do tempo de guerra, quando os dirigentes devem ser poupados para não levar água ao moinho do adversário, e o formalismo "politicamente correto" dos analistas, que têm horror de passar por meros maledicentes. As debilidades e as tolices que podem mudar a marcha da História emergem quase sempre quando essa História já foi mudada. Se o biografado já deixou a vida, então, a documentação é decantada e os atos públicos e privados daquele personagem da vida real (da vida de todos, hoje) aparecem em toda a sua realidade. As biografias de Roosevelt, de Truman, de Kennedy, de Johnson e de Nixon mostram a vida nos Estados Unidos como ela é, não como querem que ela pareça, maquiada como os serviços funerários fazem com seus clientes, quando é preciso mostrá-los mais vivos do que nunca. 

Lisboa, Luiz Carlos
 O Estado de São Paulo - Segunda-feira, 27 de maio de 2002

 

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