OLHOS E CORES

 

 

 

Uma história feita de autocomplacência 

 


LUIS CARLOS LISBOA


 


Sobre o que está ocorrendo no Oriente Médio há algum tempo, duas perguntas continuam pairando no ar à espera de resposta madura e meditada, que tem sido aguardada em vão, enquanto não se desvanece a fumaça das bombas nem silenciam os gritos das vítimas. Uma delas é esta: podem um povo, uma religião, uma cultura ser julgados por determinado momento de sua História, por uma sucessão de momentos de sua trajetória ou mesmo por repetidos erros que eventualmente seus dirigentes cometam, ainda que contando para isso com grande apoio popular? Estamos pensando nos judeus, na história moderna de Israel e na política de tanques e foguetes do primeiro-ministro Ariel Sharon. 
A outra pergunta é esta: uma estratégia inspirada no desespero e na necessidade de minar fisicamente uma força opressora de dominação política e territorial pode ser considerada admissível, desde que alegada como provisória e em legítima defesa? Estamos pensando nos palestinos e nas organizações que falam em seu nome e usam métodos considerados "terroristas" por uns e "revolucionários" por outros. Caberia uma terceira pergunta ligada às duas primeiras, mas que, considerando a urgência das primeiras, pode ser deixada no canto para discussão posterior, sem que passe a oportunidade histórica: pode uma grande potência ser visivelmente favorável a uma das partes num conflito, mas fazer-se "neutra", emitindo declarações alternadamente favoráveis a ambas, para depois ganhar o apoio das duas numa aliança mundial? Estamos pensado nos Estados Unidos na presente crise do Oriente Médio e na sua luta contra o terrorismo. 
Como nos terrenos vulcânicos e na proximidade dos gêiseres, quando uma simples chama aproximada de uma abertura no chão faz acender e fumegar mil pontos em volta, assim também a arrogância de "linha dura" do primeiro-ministro israelense provocou protestos indignados e igualmente um ódio espasmódico no mundo inteiro, com o inevitável aparecimento de suásticas e incendiários de sinagogas. Se tivesse acontecido na Grécia, na Argentina ou na África do Sul o que ora ocorreu em Israel, não haveria protestos disseminados como os de agora. Ninguém diria que os gregos, os argentinos ou os sul-africanos são terríveis, usam táticas típicas dos nazistas, estão transtornando a paz na região ou prejudicando a luta contra o terrorismo que os norte-americanos estão comandando no mundo. Os israelenses são pensados como uma coletividade "déjà vu", da qual já se conhecem o temperamento, os planos, a ambição e seja lá mais o que for. A mentalidade que fabricou e difundiu a mais velha das teorias conspiratórias, que têm como modelo Os Protocolos dos Sábios do Sião, foi vista agora de novo em ação em algumas capitais européias. A impetuosidade e a arrogância do primeiro-ministro israelense ajudaram muito na tarefa, mas é inegável que o vezo de generalizar e de acusar grupos religiosos e culturais pôs suas mangas de fora depois de um longo e tenebroso inverno. 
Pode-se comparar o que Osama bin Laden e seus seguidores apaixonados pelo martírio fizeram em Nova York com o que os palestinos de várias organizações, sob o comando direto ou não do presidente Yassir Arafat, têm feito contra Israel, do surgimento da "intifada" até os horrores mais recentes? Provavelmente não, embora o governo israelense coloque sob o mesmo rótulo de "terrorista" ambos os grupos. A Hamas e a Fatah usam métodos brutais e bárbaros que sacrificam indiscriminadamente vidas inocentes, mas os nazistas alemães fizeram isso durante a 2.ª Guerra e os Aliados, também, com seus bombardeios "de efeito moral" em Dresden e em Tóquio, antes, naturalmente, das bombas definitivas de Hiroshima e Nagasaki, onde morreram mais mulheres e crianças num dia do que em todas as guerras do século. 
Ninguém falou em terrorismo naquela época. Os "maquis" franceses matavam à distância, faziam explodir casas e carros e eram chamados "patriotas". O demoníaco em tudo isso é que a mente humana não relaciona causa e efeito, como se puxar um gatilho nada tivesse com a partida de uma bala em direção a uma cabeça humana. E ninguém deixa de acusar o adversário dos mesmos crimes que comete, com a consciência aliviada do justo que aponta o dedo contra um pecador. 
A antiga União Soviética apoiou, quando não criou e insuflou, movimentos por direitos humanos, contra a pena capital e, naturalmente, contra as injustiças sociais, durante quase 70 anos, mas ninguém, nenhum stalinista no mundo moveu uma palha para evitar que seu líder máximo Stalin imolasse milhões de pessoas acusadas, no fundo, apenas de discordância política. 
Muitos nem acreditaram em Kruchev quando ele levantou a lebre. Hoje, quando algumas organizações dirigidas por judeus acusam o papa Pio XII de ter fechado os olhos aos horrores do holocausto, estão dizendo que homem algum tem o direito de ignorar o que acontece a seu redor. Mas 200 milhões de russos ignoraram tudo sobre seu chefe, as carnificinas comandadas por seu chefe supremo, e até hoje milhares juram que ele era inocente. Será que em Israel há uma consciência perfeita do que o país está fazendo com seus tanques? 
Aconteça o que acontecer no Oriente Médio, ainda que seja a paz, essas contradições vão continuar pairando no espírito das pessoas daquela região, e no resto do mundo que se senta diante das telas da televisão. O pior defeito humano é a autocomplacência. Os homens se esquecem logo daquilo em que não desejam acreditar, e que descobriram por acidente. Eles cobram do próximo a lucidez que recusam em si mesmos. A mente humana é mais maleável do que gostamos de admitir. Para falar a verdade com moderação, somos quase todos um pouquinho cínicos. 




 Lisboa, Luiz Carlos  escritor e  jornalista

 O Estado de S. Paulo Espaço Aberto11/04/2002

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1 de dezembro de 2002

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