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Sobre o que está ocorrendo no Oriente Médio há algum tempo, duas
perguntas continuam pairando no ar à espera de resposta madura e
meditada, que tem sido aguardada em vão, enquanto não se desvanece a
fumaça das bombas nem silenciam os gritos das vítimas. Uma delas é
esta: podem um povo, uma religião, uma cultura ser julgados por
determinado momento de sua História, por uma sucessão de momentos de sua
trajetória ou mesmo por repetidos erros que eventualmente seus dirigentes
cometam, ainda que contando para isso com grande apoio popular? Estamos
pensando nos judeus, na história moderna de Israel e na política de
tanques e foguetes do primeiro-ministro Ariel Sharon.
A outra pergunta é esta: uma estratégia inspirada no desespero e na
necessidade de minar fisicamente uma força opressora de dominação política
e territorial pode ser considerada admissível, desde que alegada como
provisória e em legítima defesa? Estamos pensando nos palestinos e nas
organizações que falam em seu nome e usam métodos considerados
"terroristas" por uns e "revolucionários" por outros.
Caberia uma terceira pergunta ligada às duas primeiras, mas que,
considerando a urgência das primeiras, pode ser deixada no canto para
discussão posterior, sem que passe a oportunidade histórica: pode uma
grande potência ser visivelmente favorável a uma das partes num
conflito, mas fazer-se "neutra", emitindo declarações
alternadamente favoráveis a ambas, para depois ganhar o apoio das duas
numa aliança mundial? Estamos pensado nos Estados Unidos na presente
crise do Oriente Médio e na sua luta contra o terrorismo.
Como nos terrenos vulcânicos e na proximidade dos gêiseres, quando uma
simples chama aproximada de uma abertura no chão faz acender e fumegar
mil pontos em volta, assim também a arrogância de "linha dura"
do primeiro-ministro israelense provocou protestos indignados e igualmente
um ódio espasmódico no mundo inteiro, com o inevitável aparecimento de
suásticas e incendiários de sinagogas. Se tivesse acontecido na Grécia,
na Argentina ou na África do Sul o que ora ocorreu em Israel, não
haveria protestos disseminados como os de agora. Ninguém diria que os
gregos, os argentinos ou os sul-africanos são terríveis, usam táticas típicas
dos nazistas, estão transtornando a paz na região ou prejudicando a luta
contra o terrorismo que os norte-americanos estão comandando no mundo. Os
israelenses são pensados como uma coletividade "déjà vu", da
qual já se conhecem o temperamento, os planos, a ambição e seja lá
mais o que for. A mentalidade que fabricou e difundiu a mais velha das
teorias conspiratórias, que têm como modelo Os Protocolos dos Sábios do
Sião, foi vista agora de novo em ação em algumas capitais européias. A
impetuosidade e a arrogância do primeiro-ministro israelense ajudaram
muito na tarefa, mas é inegável que o vezo de generalizar e de acusar
grupos religiosos e culturais pôs suas mangas de fora depois de um longo
e tenebroso inverno.
Pode-se comparar o que Osama bin Laden e seus seguidores apaixonados pelo
martírio fizeram em Nova York com o que os palestinos de várias organizações,
sob o comando direto ou não do presidente Yassir Arafat, têm feito
contra Israel, do surgimento da "intifada" até os horrores mais
recentes? Provavelmente não, embora o governo israelense coloque sob o
mesmo rótulo de "terrorista" ambos os grupos. A Hamas e a Fatah
usam métodos brutais e bárbaros que sacrificam indiscriminadamente vidas
inocentes, mas os nazistas alemães fizeram isso durante a 2.ª Guerra e
os Aliados, também, com seus bombardeios "de efeito moral" em
Dresden e em Tóquio, antes, naturalmente, das bombas definitivas de
Hiroshima e Nagasaki, onde morreram mais mulheres e crianças num dia do
que em todas as guerras do século.
Ninguém falou em terrorismo naquela época. Os "maquis"
franceses matavam à distância, faziam explodir casas e carros e eram
chamados "patriotas". O demoníaco em tudo isso é que a mente
humana não relaciona causa e efeito, como se puxar um gatilho nada
tivesse com a partida de uma bala em direção a uma cabeça humana. E
ninguém deixa de acusar o adversário dos mesmos crimes que comete, com a
consciência aliviada do justo que aponta o dedo contra um pecador.
A antiga União Soviética apoiou, quando não criou e insuflou,
movimentos por direitos humanos, contra a pena capital e, naturalmente,
contra as injustiças sociais, durante quase 70 anos, mas ninguém, nenhum
stalinista no mundo moveu uma palha para evitar que seu líder máximo
Stalin imolasse milhões de pessoas acusadas, no fundo, apenas de discordância
política.
Muitos nem acreditaram em Kruchev quando ele levantou a lebre. Hoje,
quando algumas organizações dirigidas por judeus acusam o papa Pio XII
de ter fechado os olhos aos horrores do holocausto, estão dizendo que
homem algum tem o direito de ignorar o que acontece a seu redor. Mas 200
milhões de russos ignoraram tudo sobre seu chefe, as carnificinas
comandadas por seu chefe supremo, e até hoje milhares juram que ele era
inocente. Será que em Israel há uma consciência perfeita do que o país
está fazendo com seus tanques?
Aconteça o que acontecer no Oriente Médio, ainda que seja a paz, essas
contradições vão continuar pairando no espírito das pessoas daquela
região, e no resto do mundo que se senta diante das telas da televisão.
O pior defeito humano é a autocomplacência. Os homens se esquecem logo
daquilo em que não desejam acreditar, e que descobriram por acidente.
Eles cobram do próximo a lucidez que recusam em si mesmos. A mente humana
é mais maleável do que gostamos de admitir. Para falar a verdade com
moderação, somos quase todos um pouquinho cínicos.
Lisboa, Luiz Carlos escritor e jornalista
O Estado de S. Paulo Espaço Aberto11/04/2002
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