OLHOS DE VER  

OUVIDOS DE OUVIR

                  

 

 

A SAÚDE DO ESPÍRITO

 


LUIS CARLOS LISBOA


 



A saúde do Espírito

"Nunca antes pareceram tão diluídas as fronteiras entre a sanidade e o equilíbrio emocional. Dois principais fatores contribuíram para isso : a obsessão da originalidade e o prestígio do abstrato. A primeira é estimulada pela competição constante e desesperada em que vivemos , o segundo
resulta da necessidade de dar uma aparência de profundidade ao que é sabidamente raso e insignificante, e como é quase todo o nosso dia-a-dia. Ninguém pode negar o que é constatável a todo momento: o homem age desequilibradamente
e tudo indica que os muros dos hospitais psiquiátricos são meros símbolos inúteis , uma vez que não se sabe de que lado estão os enfermos e os sãos.
Numa de suas conferências realizadas em Amsterdã agora editadas no Brasil juntamente com outras ( O Vôo da Águia) - edição da Instituição Cultural Krishnamurti - Tradução Hugo Veloso ) , Jiddu Krishnamurti lembra o quanto é difícil permanecer mentalmente saudável "neste mundo insano e anormal" .
Saúde mental tem aquele que não possui ilusões , que não tem qualquer imagem de si próprio , ou de outra pessoa.
Afirma o pensador : " Quando alguém tem uma imagem de si próprio , essa pessoa já está mentalmente desequilibrada , já está vivendo num mundo ilusório. E receio ser isso o que acontece à maioria de nós". Segundo Krishnamurti só se pode olhar , compreender , amar , quando se é humilde.
Ninguém é realmente humilde quando julga , compara, questiona, argumenta.Na humildade há apenas percepção, apreensão da realidade. 
Esse percebimento coloca o homem em sintonia com o mundo , sendo o único antídoto eficaz as miragens que o separam do real. De resto , a tentação das ilusões está presente em toda a parte, nos prazeres e nas dores, no futuro bem como no passado.Ter os pés no chão é olhar de frente os fatos,
sejam eles agradáveis ou não ,sejam promissores ou ameaçadores . Fora desse terreno , o risco do desequilíbrio emocional - e da loucura , num estágio avançado - é permanente. O realismo perfeito não se conquista
aos poucos , nem sequer se conquista , talvez. É certo que o " olhar isento" é sempre possível quando estamos fascinados pela possibilidade de alguma
descoberta, sem qualquer idéia utilitária de nos beneficiarmos dela. Esse entusiasmo gratuito gera uma grande quantidade de energia interior , e nisso consiste todo o segredo da percepção.
Basta observar em redor - e dentro de nós também e principalmente - para ver o quanto as pessoas são superficiais , o quanto a mente do homem é fútil , insignificante, infantil. A maior parte dos receios e das
Aspirações humanos são infundados , apoiando-se em especulações , devaneios, ilusões.
Nenhum simbolismo das metas do homem é mais típico do que a miragem no deserto , que faz disparar em sua direção o viajante faminto , sedento e cansado. Ele tanto deseja doçuras do oásis que chega a criá-lo no seu cérebro , projetando-o na paisagem de pedra e areia. Essa capacidade de
criar miragens é muito humana e se exercita no nosso cotidiano , momento a momento. Afinal, produzir crenças torna-se um hábito e com o tempo nos afastamos da pura realidade - para alguns desprezível , por parecer
monótona demais , para outros insuportável , por parecer crua em excesso.
O fato é que não se consegue enganar a realidade mpunemente.
Se projetamos imagens e auto-imagens , estamos comprometidos , de algum modo , com a insanidade e o desequilíbrio emocional. Queremos ser livres e, paradoxalmente , não suportamos a liberdade . Por isso criamos fantasias convenientes e gratificantes , preferindo ser alguém a simplesmente viver a vida. Ainda nas conferências de Amsterdã , transcritas no livro O
Vôo da Águia , Krishnamurti - um pensador apenas , sem compromissos com escolas , exotismos ou mistificações de qualquer ordem - refere-se a esse fenômeno com a simplicidade de sempre : " No próprio desejo de liberdade
há medo. Pode ser que a liberdade acarrete insegurança completa, e tememos, dependemos mais e mais das coisas a que estamos apegados.É o medo que destrói o amor, que cria a ansiedade , o apego, o desejo de posse , de domínio , o ciúme em todas as relações, é o medo que gera a violência".
Em meio a tudo isso , deixamos para trás todo e qualquer contato concreto com a realidade , com o mundo real, e entramos de cabeça num mundo de fantasias e ilusões , de preconceitos e truques psicológicos. As fronteiras entre o
equilíbrio e a insanidade estão diluídas, perderam sua nitidez.
O comportamento das pessoas , em geral ,é hoje mais desarmonioso do que nunca. A rudeza, a banalidade, a pretensão , a ironia grosseira, são a regra.A delicadeza , a capacidade de ouvir, a consideração com os pequeninos
, são vistas com debilidade , falta de firmeza. O homem se animaliza e embora aparente segurança , é cada dia mais desequilibrado interiormente.
Nos grandes centros urbanos esse contraste é muito mais visível do que no interior. O habitante das grandes metrópoles afivela no rosto uma bem elaborada máscara de determinação : por trás dela se esconde um rosto vacilante de criança à procura do colo materno. Diante das imensas
dúvidas que o assaltam - o fracasso e a morte são dois fantasmas que nunca o abandonam - ele clama em vão por alguma coisa realmente segura. Os abismos do prazer , o esquecimento dos tóxicos , a ilusão de poder , nada é suficiente. O único remédio - tirar a máscara e mostrar o próprio rosto, pagando para ver - pode parecer amargo demais para o paladar deformado de quem sempre se deliciou com os suaves licores da ilusão confortável .
Afinal , se os fatos nos desagradam , pior para os fatos".

Lisboa, Luiz Carlos. Olhos de ver ouvidos de ouvir. Rio de Janeiro difel 1977

Luiz Carlos Lisboa é escritor e  jornalista

DIGITAÇÃO DE VERA MUSSI - CAMPINAS/SP

 

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25fev2003

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