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AINDA OS SANTOS

 


LUIS CARLOS LISBOA


 


Ainda os Santos

"Autor de duas dezenas de romances, Virgil Gheorghiu tornou-se famoso mundialmente com A  Vigésima quinta hora , um livro vigoroso e inesquecível . Tendo recebido , em 1940, o maior prêmio de poesia de seu país, a Romênia, Gheorghiu sempre se manteve ligado à literatura, o que não impediu que orientasse seus estudos para os campos da filosofia e da
religião. E, 1963 tornou-se um sacerdote da igreja Ortodoxa . Há exatamente um ano esteve no Brasil , comparecendo à II Semana Internacional de Filosofia , em Petrópolis .Nessa ocasião deu algumas entrevistas a jornais do Rio e de São Paulo ,nas quais disse muitas daquelas coisas que hoje são consideradas heresias , tão distantes se encontram dos modismos intelectuais da época e dos condicionamentos do século.
Para Gheorghiu , cristianismo e liberdade são essencialmente a mesma coisa. 

Ele cita a seu favor o Apocalipse ( 3,26), lembrando que " a liberdade é mais importante do que a razão". Depois de definir o cristianismo como uma filosofia que "transforma o homem ordinário num homem extraordinário", ele fala na santidade como um ideal perfeitamente acessível a qualquer ser humano. Os santos anônimos espalhados pelo mundo , voluntariamente ocultos, invisíveis aos nossos olhos pragmáticos, esses são os únicos homens de "utilidade pública" em nosso tempo, segundo Gheorghiu. 

Essas pessoas são os teognóstoi , aqueles que só Deus conhece. As prisões, os hospitais,  as profissões humildes , conhecem a presença desses homens mas não é apenas ali que eles podem ser encontrados. Dificilmente um olho "prático" há de registrar a existência do santo, o que é bastante compreensível : ele não destaca do comum dos mortais, em sua aparência . Além disso ,é do tipo que os ingleses utilitários designam como good for nothing. 
Virgil Gheorghiu lembra os relatos de Dostoyevski e de Solzhenytsin , onde há referências a esses homens que nenhuma religião registrou no seu calendário eclesiástico e dos quais a hagiografia não cogita. Para o escritor romeno esses dois autores , eles próprios , fazem parte dessa pequena e não identificada coletividade que galgou muito alto os degraus da grandeza humana, Gheorghiu cita o filósofo suíço Burckhardt , quando ele diz que depois dos santos, vêm os filósofos, e em seguida a esses os poetas e os trabalhadores do espírito, todos empenhados na tarefa geral de adquirir e preservar o que existe de melhor no ser humano.
Essa presença do santo no mundo - o santo não necessariamente reconhecido como tal - não deixa de causar algum escândalo numa época que aprendeu a cultivar outros valores, que pensa e fala em função de um punhado de noções que parecem eternas hoje mas que vão morrer depressa , como tudo tem definhado e desaparecido rapidamente em nosso tempo volúvel. Aquela presença seria desconcertante se fosse ao menos notada, o que certamente não acontece. Nós nos acostumamos a observar apenas aquilo que tem utilidade, que se relaciona diretamente conosco , que tem condições de influir sobre o nosso meio ou sobre nós diretamente. As demais coisas e pessoas, passamos por elas despercebidos totalmente distraídos. Não notamos a presença de um homem extraordinário por algumas razões bem simples: a) temos conceitos próprios, a respeito, e a grandeza existe, para nós, em termos de força e poder; b) precisamos de heróis , líderes , mestres, mas no fundo cremos que todos os homens não conseguem ir muito além da nossa própria mediocridade e c) os homens extraordinários ( para usar a expressão de Gheorghiu ) querem permanecer na sombra, por bons e variados motivos. Se eles não podem ser apontados na rua, isso não significa que não existam. Com os olhos e os ouvidos bem abertos, todos nós, pessoas comuns, podemos registrar a presença do santo em nosso meio. Mesmo que nos recusemos a usar essa palavra, por escrúpulo ou acanhamento de parecer tão fora de moda.
O santo é aquele - e essa definição é velha como o mundo - que vive cada momento como se fosse um momento de crise. Nas crises existe atenção concentrada, um estado de alerta geral, um desejo ardente de compreender.
Há também seriedade, sem dramaticidade, e ausência freqüente de encenação. Analogia pode não ser perfeita, mas nenhuma outra transmite mais fielmente a idéia de santidade referida por tantos autores, em diferentes épocas. A expressão "como se fosse um momento de crise", falseia a verdade. ´Para o santo todo o momento é de crise, realmente. A palavra sugere alteração, acidente, desequilíbrio - e essa é a realidade, para aqueles homens . Segundo eles, nenhum instante passado ou futuro tem qualquer substância . Só o aqui e o agora são reais. Como não cessam nem passam nunca, são eternos. Eis o conceito de crise: se alguma coisa se altera (e tudo se altera, a cada instante), isso ocorre agora, neste exato momento crítico.
O santo não conhece os largos períodos de letargia do homem comum, aquele "matar o tempo" a que todos se referem, à espera do prazer e dos grandes estímulos que nos levam para a frente . Sentados ao sol, de olhos errados - por exemplo - ele vive plenamente o aqui e o agora. Pouco adiante, em seu escritório, o ativo e inquieto homem de negócios pensa na  transação que acabou de realizar e espera os dados que acabou de pedir à secretária - desligado da realidade presente , do instante mágico e real em que ele está preso para sempre. Se colocarmos o homem de negócios no sol, de olhos cerrados, ele adormecerá de exaustão, ou ficará depressa angustiado. Se aquele que vive o instante ( crítico ) for colocado num escritório moderno, certamente não se sairá mal . Agirá sem ansiedade e fará o que precisa fazer na função em que se encontra. Por viver o aqui e o agora ele não se tornará um incompetente, ou um alienado, como muitos querem crer. A alienação - e disso nos lembra, também Virgil Gheorghiu - consiste em fugir da realidade do presente para os prazeres e temores de ontem e de amanhã . Por tudo isso, a santidade é o contrário da alienação".

DIGITAÇÃO DE VERA MUSSI - CAMPINAS/SP

 

 

 

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1 de dezembro de 2002

 

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